Capítulo Setenta e Quatro: As Ruínas dos Espíritos
A excelente capacidade defensiva, somada ao aumento de pelo menos um quinto da força e do poder de luta de Lu Chengfeng, era uma característica reservada apenas ao mais alto nível de equipamentos mágicos. Naturalmente, se fosse só isso, essa couraça não justificaria tanto investimento de Lu Chengfeng e tampouco faria jus à reputação do mestre ferreiro Xinda. O seu verdadeiro poder estava na habilidade permanente que podia ser ativada: o Escudo de Luz Sangrenta!
Essa magia extraordinária era capaz de absorver tanto dano mágico quanto físico. Em termos de resistência, era suficiente para suportar um golpe total de um mestre de quinto escalão. Quanto à quantidade de dano que podia absorver, um lutador comum desse nível precisaria de quatro ou cinco golpes consecutivos para ter chances de rompê-lo. Diferente das habilidades comuns, que têm limite de uso, o Escudo de Sangue pode ser ativado repetidamente, desde que haja energia suficiente, com um intervalo muito curto entre as ativações.
Claro, ativá-lo várias vezes em sequência aceleraria bastante o desgaste do equipamento. Segundo Xinda, o ideal seria esperar de dois a três minutos entre cada ativação, para aproveitar ao máximo o potencial da armadura.
“Ficou bem impressionante”, comentou Xinda, circundando Lu Chengfeng e avaliando-o com satisfação. Não se tratava de um elogio a Lu Chengfeng, mas sim à própria obra. Depois de uma inspeção cuidadosa, Xinda pigarreou e sugeriu: “Que tal testar a habilidade do escudo?”
Lu Chengfeng, já pensando no mesmo, canalizou sua energia de combate Tianfeng para dentro da couraça, ativando o Escudo de Luz Sangrenta.
O escudo, que protegia apenas a parte frontal do corpo, não era exatamente vermelho, como se esperaria, mas de um tom quase translúcido, com sete ou oito listras vermelhas, semelhantes a hastes de guarda-chuva, alinhadas verticalmente no centro. Essa configuração tinha vantagens e desvantagens: por um lado, permitia que um ataque pelas costas fosse perigoso; por outro, consumia menos energia e tornava-se mais sólido na frente, difícil de ser rompido.
Lu Chengfeng testou então com sua Espada Relampejante de Sombra Esmeralda, tentando perfurar o escudo. Encontrou uma barreira invisível que impedia qualquer avanço da lâmina. Mesmo usando setenta por cento de sua energia, o escudo apenas oscilou levemente e logo voltou ao normal.
“É realmente notável.”
Após alguns testes, Lu Chengfeng ficou plenamente satisfeito com a robustez do escudo. Agora, ele possuía a Espada Relampejante de Sombra Esmeralda para ofensiva, o Anel da Canção Espiritual para auxiliar no cultivo de energia, o Amuleto dos Peixes Gêmeos para aumentar seu poder de combate, e agora a couraça ancestral de prata gélida para defesa – preenchendo assim a última lacuna em sua preparação.
Satisfeito com o quanto já acumulou desde o renascimento, Lu Chengfeng sentia-se orgulhoso de si mesmo.
Com a armadura em mãos, não temia mais um confronto contra a Equipe Lâmina de Sangue. Contudo, ao buscar informações e se preparar para agir, descobriu que o grupo já havia desaparecido de Kaiyang cerca de meio dia antes. Não só eles, como várias outras grandes companhias de mercenários também haviam enviado seus times.
Teria surgido algum novo acontecimento?
Ao perceber isso, Lu Chengfeng dirigiu-se à guilda dos mercenários e logo compreendeu a razão. Dois discípulos da seita Alma Terrestre haviam, numa expedição pela Floresta Sem Fim, encontrado acidentalmente uma relíquia lendária do povo espiritual, cuja existência era alvo de rumores há muitos anos. Inicialmente, seria uma excelente notícia, mas, ao retornarem para reportar ao seu clã, acabaram deixando escapar a informação. Assim, em poucas horas, toda a cidade de Kaiyang já estava a par do ocorrido.
Uma relíquia do reino espiritual!
Todos sabiam que, de fato, existiu um reino dos espirituais nas profundezas da Floresta Sem Fim. Até mesmo um pequeno clã remanescente sobreviveu até pouco mais de dez anos atrás, protegendo as tradições. Ao longo dos anos, aventureiros que se arriscaram nas profundezas da floresta por vezes encontraram objetos desse povo. Portanto, os grandes mestres e poderes de Kaiyang acreditaram na notícia sem hesitar.
O valor dessa notícia superava em muito aquele de uma simples Pedra de Quebra-Magia Flamejante. Por mais valiosa que fosse, tal pedra seria, no máximo, um equipamento de herança de baixo nível. Mas as ruínas do povo espiritual ofereciam possibilidades infinitas. Se, por acaso, encontrassem o túmulo de uma figura importante e retirassem de lá algum artefato lendário ou magia única, estariam feitos!
Com esse pensamento, não só as famílias mais influentes e as organizações de mercenários se mobilizaram, mas inclusive a própria família imperial do Império Lanwu discutia se deveria enviar sua equipe de inteligência para investigar.
Como não poderia a Equipe Lâmina de Sangue se envolver na disputa? Embora tivessem perdido dois membros para Lu Chengfeng e a situação estivesse difícil, diante da pressão do jovem mestre Su, o líder Lâmina de Sangue partiu pessoalmente, levando Su Ping e outro subordinado rumo ao local revelado pelos discípulos da seita. Tendo partido meio dia antes, provavelmente já haviam penetrado na floresta.
Lu Chengfeng sentiu-se um pouco frustrado por não poder testar sua nova armadura contra eles, mas logo percebeu que aquilo era, na verdade, uma oportunidade. Se a Equipe Lâmina de Sangue estivesse em Kaiyang, teria de agir com cautela; seguindo-os, porém, poderia atacar de surpresa, aproveitando-se da vantagem da sombra.
Imediatamente tomado por esse pensamento, Lu Chengfeng não deu importância à relíquia do povo espiritual. Ele sabia que os costumes desse povo eram diferentes dos humanos. As grandes famílias e a nobreza costumavam enterrar consigo objetos valiosos, mas isso era raro entre os espirituais. Além disso, com tanta gente poderosa envolvida – inclusive a família imperial – qualquer sobra seria insignificante para ele.
Contanto que pusesse um fim ao problema representado pela Equipe Lâmina de Sangue, já estaria satisfeito.
Decidido, Lu Chengfeng localizou o ponto exato no mapa e partiu imediatamente. Para não chamar atenção, cobriu a couraça vermelha com um manto preto. Por sorte, já era novembro e o tempo esfriava. Seu aspecto ligeiramente volumoso não parecia estranho; quem olhasse, pensaria apenas se tratar de alguém mais robusto, jamais suspeitando que estivesse disfarçando algo.
“Irmão, também vai tentar a sorte nas ruínas espirituais?”
Já nos arredores da cidade, um homem magro de feições astutas, mas de atitude amistosa, dirigiu-lhe a palavra. Ao seu lado, quatro outros estavam reunidos. Não pareciam íntimos, mas possuíam força considerável: dois eram espadachins de quarto escalão, os outros dois de quinto.
Entre mercenários solitários, chegar ao quinto escalão já era digno de algum renome.
Surpreendido por ser abordado, Lu Chengfeng lançou um olhar ao grupo, parou e perguntou: “Acho que não o conheço. O que deseja?”
Apesar do tom levemente frio, o magro não se ofendeu e continuou sorrindo: “Ninguém nasce conhecendo o outro, não é? Sou do grupo Seis-Seis de Kaiyang. Estes outros também são mercenários legítimos da cidade. Embora não sejamos próximos, de vez em quando cruzamos em alguma missão. Desta vez, estamos formando um grupo para explorar as ruínas espirituais.”
“Ah, é mesmo?” Lu Chengfeng manteve-se reservado, aguardando que o outro continuasse.
“É o seguinte”, explicou o magro, vendo que Lu Chengfeng lhe dava ouvidos. “Essa história das ruínas causou um alvoroço. Muitas forças estão se metendo, inclusive algumas das mais sombrias, como os Lobos Azuis, um dos três grandes grupos criminosos de Kaiyang. Eles não estão interessados em explorar, mas sim em caçar dentro da Floresta Sem Fim.”
“Entendi.”
Lu Chengfeng assentiu, captando rapidamente o que o outro queria dizer. A caça mencionada certamente não se referia a feras mágicas. Os Lobos Azuis pretendiam atacar mercenários comuns que se aventurassem na floresta. Não ousariam enfrentar os mais poderosos, mas os solitários seriam presas fáceis – e, mesmo que algum escapasse, não causaria maiores problemas.
Esses, sem dúvida, uniam-se por mera autoproteção.
O magro, percebendo a compreensão de Lu Chengfeng, foi direto ao ponto: “Nunca o vi antes, mas tenho olho bom. Aquele anel em sua mão não parece comum, e quem se aventura sozinho na floresta certamente tem suas habilidades. No entanto, sozinho, é difícil se defender contra todos os perigos. Gostaria de juntar-se a nós, ainda que temporariamente?”
“Bem…”
Lu Chengfeng hesitou.
O magro, perspicaz e eloquente, insistiu: “Os Lobos Azuis enviaram vários grupos. Outros, atraídos pela cobiça, podem agir traiçoeiramente. Embora seja forte, uma pessoa não pode enfrentar tantos ataques ao mesmo tempo. Em grupo, podemos nos proteger mutuamente, o que é mais seguro. Além disso, ao chegarmos às ruínas, se quiser agir sozinho, pode partir quando bem entender. Não há restrições, tudo é por vontade própria.”
“Assim está ótimo”, concordou Lu Chengfeng, apertando a mão do magro com firmeza.
“Bem-vindo!” saudaram os dois espadachins de quarto escalão, mostrando alguma cordialidade. Já os dois de quinto mostravam-se mais altivos; limitaram-se a olhar e acenar com a cabeça, sequer se apresentaram.
“Não leve a mal, eles são assim mesmo”, apressou-se o magro a explicar, temendo que Lu Chengfeng se ofendesse.
“Sem problemas”, respondeu Lu Chengfeng, indiferente. Embora não temesse os dois de quinto escalão em poder de combate, o respeito à hierarquia era comum. Ser frio com alguém de nível inferior era natural; irritar-se por tão pouco seria mesquinharia.
Vendo que Lu Chengfeng não se aborreceu, o magro finalmente relaxou.