Capítulo Cinquenta e Dois: O Navio Rongchang
A nave voadora Honra de Rongchang era um navio de passageiros de porte médio, capaz de transportar cerca de cem pessoas. Sendo o primeiro voo da manhã a partir do aeroporto nas cristas das montanhas, a Honra de Rongchang costumava ter uma boa ocupação. Sempre havia alguém com pressa, aproveitando os primeiros raios do dia para embarcar às pressas, esperando que a nave os levasse até a Baía de Faro. Ou então, desembarcavam em algum dos terminais pelo caminho.
Por ter chegado cedo, Lu Chengfeng escolheu rapidamente um quarto individual. Para evitar problemas e diminuir o risco de expor sua localização, não foi até o refeitório central, preferindo pedir o café da manhã em sua cabine.
Comparada ao seu antigo Tianhong de segunda mão, a Honra de Rongchang era muito mais luxuosa por dentro. Até mesmo a cabine do comandante de sua antiga nave não era tão confortável quanto aquele quarto. O café da manhã servido também era muito mais requintado: uma taça de vinho branco, pão recém-assado, macio e saboroso, fatias de carne curada e uma sopa espessa de legumes e carne, colorida e aromática.
Enquanto a nave ainda não decolava, Lu Chengfeng aproveitava o delicioso café da manhã e abriu a janela da cabine. O vento fresco da manhã trouxe um pouco de vigor, dissipando o ar abafado do interior e revigorando seus ânimos. Pela janela, podia ver o porto aéreo movimentado e cheio de energia. Como as rotas pelos ventos eram novidades dos últimos séculos e Lu Chengfeng, em sua vida anterior, jamais tivera contato com isso, sua curiosidade o fez observar por mais tempo.
No entanto, a algazarra crescente do lado de fora rapidamente estragou seu humor. Se fossem apenas alguns gritos, ele não se importaria, porém o barulho persistiu por quase um minuto sem cessar, fazendo com que franzisse a testa. Terminou a última colherada de sopa, fechou a janela e se preparou para sair e verificar do que se tratava. Mas, nesse instante, a porta de sua cabine foi abruptamente escancarada. Com tanta força que a porta de madeira de álamo bateu violentamente contra a parede, ecoando um estrondo seco.
O semblante de Lu Chengfeng imediatamente se tornou sombrio.
Quem entrou era um lutador corpulento, vestido com um manto de seda, certamente pesando mais de cem quilos, usando um par de manoplas de ferro negro e com um olhar arrogante. Lu Chengfeng logo percebeu que aquele sujeito devia ser, no mínimo, um combatente de quinta ordem. Contudo, quando outro homem entrou logo atrás, o rosto quadrado do primeiro se transformou em humildade e subserviência.
Lu Chengfeng entendeu imediatamente: tratava-se de um guarda ou capanga de alguma família influente.
Ciente disso, ignorou o brutamontes e voltou sua atenção para o homem que chegava. Era um jovem de semblante pálido, vestindo um requintado traje de bênção da terra. Porém, em contraste com a cobiçada armadura mágica de quarta ordem, a força do rapaz parecia fraca: o vigor combativo, no máximo, era de quarta ordem e seus passos, instáveis, denunciavam alguém sem experiência em batalhas reais.
Na antiga família Lu dos Ventos Celestes, antes de seu renascimento, não eram raros discípulos assim entre os ramos secundários, excetuando-se o ramo principal, conhecido por sua disciplina rigorosa.
— Senhor Wei? Ora, já expliquei várias vezes, não há mais quartos individuais, todos já estão ocupados. Por que veio até aqui? Isso nos coloca em uma situação difícil! — Nesse momento, o imediato da nave, suando em bicas, se aproximou apressado. Ao ver Lu Chengfeng dentro do quarto, com expressão de desagrado, esboçou um sorriso constrangido e impotente.
— Não há mais quartos? — O jovem Wei sorriu e apontou para Lu Chengfeng: — Expulsem-no, assim haverá vaga.
Diante de tantas testemunhas, o imediato claramente não queria se fazer de vilão e apressou-se em gesticular, respondendo: — Jovem mestre Wei, ele também é nosso passageiro, existe uma ordem de chegada. Hoje realmente superamos as expectativas, não imaginávamos tamanho movimento. Se soubéssemos que o senhor viajaria, teríamos reservado um quarto para si com antecedência. Que tal dividir um quarto com seus guardas? Ou aguardar o próximo voo?
— Chega de conversa! — O jovem Wei recusou prontamente dividir o quarto com seus guardas e ignorou a sugestão do imediato, dizendo rudemente: — Estou indo atrás da Pedra Antimagia, não estou de passeio. Com tanta gente a bordo, pelo menos metade está indo pelo mesmo motivo. Quer que eu espere o próximo voo? Se eu chegar atrasado e alguém pegar a pedra antes, você vai me ressarcir? Tem condições para isso?
Pedra Antimagia? — Lu Chengfeng se surpreendeu.
Diante das palavras do jovem Wei, o imediato não ousou mais responder. O valor da Pedra Antimagia jamais foi tabelado, mas mesmo o preço mais baixo estava muito além do que ele ou o dono da nave poderiam arcar. Caso dissesse algo errado e fosse responsabilizado pelo jovem Wei, nem vendendo a própria vida pagaria a dívida.
Vendo que o imediato finalmente se calou, o jovem Wei lançou um olhar a Lu Chengfeng e estalou os dedos para seus subordinados.
O lutador de manto de seda, mestre de quinta ordem, avançou dois passos, mostrou as manoplas de ferro para Lu Chengfeng e fez sinal para que ele saísse. Do lado de fora, mais dois guardas da família Wei, também de quinta ordem, o fitavam ameaçadoramente, prontos para agir caso não obedecesse.
Três mestres de quinta ordem!
Lu Chengfeng sabia o quanto aqueles jovens mimados podiam ser problemáticos e, como tinha assuntos urgentes, não queria criar confusão. Assim, saiu em silêncio. Como carregava poucos pertences, não precisou se demorar.
Vendo que Lu Chengfeng não criou caso, o jovem Wei, satisfeito, bateu palmas e disse aos seus homens: — Pronto, arrumem tudo aí que vou dormir um pouco. Quando eu conseguir a Pedra Antimagia, pedirei uma recompensa ao patriarca para vocês!
Seguiram-se ainda algumas palavras vazias...
Os três mestres acompanhantes, apesar de manterem uma postura respeitosa, deixavam transparecer impaciência nos olhos. Não ousavam desafiar o jovem Wei, mas descontaram o desagrado nos passageiros curiosos que assistiam à cena: — Circulando, não há nada para ver! Negócios da família Wei não dizem respeito a vocês, dispersem-se!
Com tal intimidação, os passageiros dos quartos vizinhos logo se afastaram, restando apenas Lu Chengfeng, que permaneceu calmo junto à amurada. Ele olhou para o imediato, em silêncio, esperando uma satisfação.
— Senhor, pedimos sinceras desculpas! — O imediato, experiente e perspicaz, notou a compostura de Lu Chengfeng e percebeu que não se tratava de alguém comum. Por isso, pediu desculpas várias vezes, claramente sem desejar criar inimizades.
— Não há problema. — Lu Chengfeng não queria se indispor com alguém como o jovem Wei e entendia a posição do imediato, acenando para indicar que não se preocupasse.
Ao ver que Lu Chengfeng não guardava ressentimentos, o imediato enxugou o suor e disse cortesmente: — Aquele rapaz é o terceiro filho do atual patriarca da família Wei de Kaiyang. Não temos condições de enfrentá-lo. Para demonstrar nosso pedido de desculpas, isentaremos todas as despesas desta viagem. Claro, se decidir continuar conosco, providenciaremos um lugar especial para você em um dos quartos coletivos de quatro pessoas.
Naquele momento, faltava apenas um minuto para a decolagem da nave.
Com pressa, Lu Chengfeng não quis aguardar o próximo voo e aceitou a proposta. Acompanhado pelo imediato, foi conduzido ao quarto comum, onde já havia três ocupantes. Surpresos ao verem o imediato trazer pessoalmente um novo passageiro, os três não puderam deixar de observá-lo discretamente.
— O senhor também vai às Colinas do Leste em busca da Pedra Antimagia? — Assim que o imediato saiu e Lu Chengfeng, sentado, fechou os olhos para pensar, um dos presentes rompeu o silêncio, chamando sua atenção. Ele negou com a cabeça e, então, passou a observar os companheiros de quarto.
À sua esquerda, um homem sem traço algum de energia combativa, claramente um civil, facilmente ignorável. O que estava em diagonal, com roupas típicas de mercenário e força em torno da quarta ordem – mercenários assim eram comuns em Kaiyang e não despertavam qualquer interesse especial. No entanto, o sujeito à sua frente, vestindo uma armadura de couro preta, exalava a força de alguém no auge da quinta ordem, demonstrando um porte distinto.
Vendo a negativa de Lu Chengfeng, o homem pareceu desapontado: — Achei que também estivesse indo atrás da Pedra Antimagia, mas me enganei.
Relembrando as palavras do jovem Wei e a pergunta daquele homem, Lu Chengfeng logo entendeu o que estava acontecendo. Já havia notado que o movimento na Honra de Rongchang estava acima do normal e, agora, ao saber da Pedra Antimagia, tudo fazia sentido.
A Pedra Antimagia era um objeto de longa data.
Até mesmo a antiga família Lu dos Ventos Celestes nunca chegou a uma conclusão definitiva sobre tal artefato. Para o povo comum era apenas um item extremamente valioso, formado apenas em circunstâncias especiais. Mas só poucos guerreiros poderosos sabiam que ela tinha relação direta com demônios extradimensionais e equipamentos épicos!
Para explicar isso, é preciso primeiro abordar os demônios do Domínio das Sombras.
O mundo do continente Mofeng claramente não era limitado apenas ao plano principal ocupado pelos humanos. Além dessa terra, havia outros planos conectados ao mundo. O Reino das Nuvens era um exemplo, um pequeno plano representativo, enquanto o termo "extradimensional" englobava outros planos diversos.
Nos registros imperiais antigos, Lu Chengfeng já havia lido relatos de que metade das magias desse mundo vinha do povo espiritual, enquanto a outra metade se originava das tradições dos autodenominados Terranos, habitantes de planos extradimensionais. Naturalmente, assim como havia Terranos amigáveis à humanidade, existiam também criaturas de formas estranhas, cruéis e sedentas de sangue: os demônios do abismo!
Esses demônios abissais eram, em sua maioria, extremamente poderosos. Normalmente, devido às barreiras dos planos, não podiam adentrar o continente Mofeng. Porém, quando conseguiam, eram responsáveis por desastres inimagináveis. Especialmente quando, por acaso, um demônio abissal dos mais fortes conseguia invadir uma metrópole humana, podia levar à destruição completa de uma cidade.
Há dois mil anos, antes mesmo do surgimento da família Lu dos Ventos Celestes, o lendário demônio negro Stier, sozinho, aniquilou uma cidade de trezentos mil habitantes, provocando um desastre que chocou o mundo.