Capítulo 55 Rápido! Rápido! Rápido! Você está muito lento!
Desde sempre, Xu Xingchen se considerava um homem de cultura; em sua fala e conduta, mantinha-se sempre polido, equilibrado, maduro e ponderado.
Contudo, ao colocar a máscara de madeira, parecia liberar seu lado mais sombrio; seu modo de agir e tom de voz mudavam por completo, tornando-se outra pessoa.
A máscara era o meio essencial que o transformava num homem de duas faces!
Em sua opinião, a transformação radical de Yu Canghai, ao recorrer ao “autossacrifício com a lâmina”, era o fator decisivo e fundamental desse processo.
Antes do sacrifício, era um homem.
Depois, restava-lhe apenas metade do que fora.
Que mudança não seria essa digna de chamar de avassaladora? De revolucionária?
Xu Xingchen já imaginava, após Yu Canghai cultivar a Técnica Maléfica, que mudanças profundas ocorreriam, mas jamais pensou que ele se tornaria justamente o pior cenário que poderia supor.
Passou a se maquiar, pintando os lábios, vestiu-se com uma túnica vermelha berrante, disfarçou-se como uma mulher velha e feia, massacrou todos os discípulos da seita Qingcheng, e ainda ousou perguntar a Xu Xingchen:
"Estou bela?"
Se fosse Xu Xingchen sem máscara, talvez conseguisse reprimir o nojo, recusando-se a comentar, mantendo o decoro.
Mas, mascarado, Xu Xingchen não se conteve: desatou a xingá-lo sem piedade, proferindo insultos venenosos, entremeados de gírias da região de Sichuan.
Yu Canghai, atingido em cheio, perdeu toda a compostura, gritou furioso e lançou-se num salto à frente de Xu Xingchen, tentando agarrá-lo de imediato.
Naquele instante, só pensava em atingir os pontos vitais do adversário, para depois torturá-lo lentamente, punindo aquele sujeito detestável.
Yu Canghai julgava o feito trivial. Desde que dominara a Técnica Maléfica, conhecia o verdadeiro significado da velocidade e sentia-se confiante como nunca. Mesmo assim, a rapidez de reação do Homem da Máscara o surpreendeu.
Porém, foi só uma faísca de surpresa.
A lâmina do mascarado cortou o ar com velocidade ainda maior que na luta anterior. Yu Canghai, no entanto, estendeu a mão e golpeou a lâmina pelo dorso.
A força interna, somada à velocidade fulminante, gerou um impacto feroz.
Um estalo!
A longa espada vibrou violentamente, desviando-se, expondo o peito do mascarado.
Yu Canghai, com a outra mão, tentou atingir o ponto vital do peito do adversário, mas foi surpreendido: o mascarado recolheu o pulso, fazendo a espada girar com destreza e interpondo o punho entre a mão de Yu Canghai e seu próprio corpo.
O choque foi brutal, forçando ambos a se afastarem.
— Interessante! — exclamou Yu Canghai, com frieza. — Que reflexos notáveis! E a força interna, nada desprezível, conseguiu bloquear meu ataque!
A túnica vermelha de Yu Canghai parecia se desfazer em mil serpentes rubras, serpenteando e retorcendo, reflexo externo da energia interna que fervilhava em níveis inconcebíveis, tornando-se ágil além da imaginação.
Com tamanho fluxo de energia, bastava um passo para que seu corpo se movesse numa velocidade assustadora, capaz de ceifar vidas sem que a vítima percebesse.
Sem sombra, sem forma, rápido como um espectro!
Essas palavras eram o maior elogio a tal façanha.
A cada palavra proferida, Yu Canghai se movia; a cada frase, um ataque. Em poucos instantes, seu vulto circundava o mascarado, alternando posições e desferindo sucessivos golpes.
Xu Xingchen só via lampejos vermelhos à esquerda, à direita, acima, abaixo, à frente e atrás, o vulto de Yu Canghai indistinto, como uma nuvem rubra, oscilando entre o real e o ilusório.
Diante de tamanha velocidade, seus olhos tornaram-se inúteis, logo encheram-se de imagens confusas e a cabeça girou. Fechou os olhos, reunindo toda a percepção corporal, usando a audição para detectar o vento e localizar cada investida.
Seu corpo, forjado em batalhas, reagia instintivamente, bloqueando os ataques sem depender da visão.
Nessas condições, qualquer técnica refinada de espadachim tornava-se um fardo inútil, pois não havia tempo para executá-las.
Apenas a essência da esgrima, em momentos de perigo extremo, substituía seus olhos, revelando sua verdadeira maravilha.
A espada tornou-se uma extensão de seu espírito, sempre percebendo, no instante certo, a direção dos ataques de Yu Canghai e reagindo com precisão, interceptando-os.
A lâmina, com suas múltiplas faces — ponta, lâmina, dorso e punho —, tornava-se o principal escudo.
Alternava a espada rapidamente entre as mãos; num momento estava à direita, no seguinte à esquerda, e logo voltava, fluindo ágil como uma serpente, desenhando um arco de luz ao redor do corpo — um espetáculo fascinante!
Enquanto isso, a sombra rubra de Yu Canghai variava a direção dos ataques a cada instante.
Normalmente, o corpo humano não se move tão rápido quanto o braço. Mas em Yu Canghai essa lógica se rompia: sua velocidade superava a de qualquer espadachim comum.
— Maldição! Como pode reagir tão depressa?
— Ah! Hoje mesmo mato você, eu juro!
Yu Canghai gritava, cada vez mais frenético e insano.
Em poucos minutos, já haviam trocado dezenas de golpes.
O espaço de combate era restrito; Xu Xingchen quase não se movia, limitando os danos à floresta de bambus ao redor.
Mas a intensidade e o perigo do duelo cresciam exponencialmente!
Aos poucos, Xu Xingchen adaptou-se ao ritmo aterrador dos ataques, e sua consciência acompanhou a velocidade de reação de seu corpo, retomando o controle.
Afinal, já lutara cercado por enxames de abelhas, cortando asas com precisão sem ferir os corpos.
No início, a velocidade monstruosa de Yu Canghai o pegara desprevenido, mas agora, adaptado, sentia-se mais seguro.
A espada, embora impedida de realizar sequências elaboradas, tornava-se ainda mais ágil e precisa, e a luz da lâmina, antes apenas defensiva, já insinuava ataques.
Zás!
Um golpe visou a palma da mão de Yu Canghai, forçando-o a recuar.
Zás, zás, zás, zás, zás, zás, zás!
Sete golpes em sequência, todos mirando o centro da mão do adversário, obrigando-o a mudar de direção a cada vez.
Logo, Yu Canghai percebeu que o mascarado parecia ter sete ou oito braços; a espada surgia mais veloz e precisa, sempre interceptando o ângulo de ataque, obrigando-o a recuar.
O que ele não sabia era que, por dentro, Xu Xingchen suava frio:
"Por pouco não fui derrotado... Foi uma loucura entregar a Técnica Maléfica a Yu Canghai! A velocidade dessa técnica é assustadora, parece teletransporte! É aterrador!"
Sem conseguir vencer, Yu Canghai se afastou três metros, parou e cessou os ataques; até a túnica rubra deixou de se contorcer.
— Homem da Máscara, sua força supera minha expectativa! — exclamou.
Xu Xingchen finalmente abriu os olhos, girou a espada num floreio elegante, apontando-a para o chão, e tentou enxugar o suor da testa, mas a máscara o impediu.
— Mestre Yu, sua velocidade me deixou aterrorizado. Começo a me arrepender de ter lhe entregue a Técnica Maléfica!
— Hahahahaha! — Yu Canghai riu alto, orgulhoso. — Agora é tarde! Já dominei a técnica, e daqui em diante, ninguém mais poderá me enfrentar neste mundo!
— Não se vanglorie antes da hora, Mestre Yu! — replicou Xu Xingchen, com um sorriso frio.
— Homem da Máscara, você viu minha velocidade. Neste mundo, poucos podem me deter — disse Yu Canghai, agora com um sorriso sombrio. — Sabe como foi prazeroso eliminar meus discípulos? Como esmagar pintinhos indefesos... Hahaha!
Xu Xingchen franziu o cenho, percebendo que a sanidade de Yu Canghai estava seriamente abalada; seus atos eram dignos de um louco fora de controle.
"Essa luta fugiu ao meu controle; não sei se conseguirei derrotá-lo..."
Mesmo na dúvida, não pôde deixar de perguntar:
— Mestre Yu, por que a energia cultivada pela Técnica Maléfica lhe confere essa velocidade sobrenatural, impossível de se defender?
Yu Canghai abriu um sorriso macabro:
— Na iminência da morte, ainda quer saber dos segredos da técnica? Hahaha, típico de um tolo obcecado em criar a esgrima suprema!
— Muito bem, em consideração ao presente que me deste, vou lhe contar um pouco sobre o segredo da energia maléfica...
Seus olhos reluziam em êxtase enquanto murmurava:
— A energia maléfica é formada pelo fluxo do yin e yang dos rins, que, ao se unir aos outros quatro fluxos de energia, completa-se.
— Ao ativar a energia maléfica, o equilíbrio yin-yang do corpo se rompe, fazendo a energia interior ferver como água em ebulição...
— Nesse estado, sou como um ser possuído, capaz de me mover como um espectro, tão rápido que o inimigo é atingido antes de perceber!
— Maravilhoso! Maravilhoso!
— O ancestral criador desta técnica era um verdadeiro imortal, para conceber tal método incrível, uma energia tão extraordinária!
Xu Xingchen ouvia a explicação, tomado de dúvidas:
"Desestabilizar o yin-yang do corpo? Isso é loucura! O equilíbrio dessas forças é vital; perturbá-lo é dançar descalço sobre lâminas, ou enfiar os dedos numa tomada. Uma temeridade!"
Mas, ao recordar o ataque anterior, quando a energia de Yu Canghai fervia tanto que a túnica se desfazia em mil serpentes vermelhas, ele começou a aceitar que a descrição talvez fosse verdadeira.
Franziu ainda mais a testa, refletindo:
"Se o yin-yang do corpo fica em caos, o praticante acabará profundamente afetado, senão morto, ou então mergulhará na loucura, como ocorre agora com Yu Canghai."
"Como um lunático, oscilando entre alegria, fúria, tristeza e euforia, sem controle..."
"Um leve estímulo e ele surta."
Então balançou a cabeça, murmurando:
"Não pode ser! Se a energia maléfica fosse assim, como Lin Yuantú, no passado, manteve a lucidez e fundou a Escolta Fuwei?"
"Não basta dizer que era uma questão de 'profunda fé budista'..."
"Certamente há segredos que desconheço, capazes de restaurar a sanidade!"
Yu Canghai percebeu o gesto de negação do mascarado e interrompeu a explicação, levantando o dedo mindinho em pose afetada e sorrindo suavemente:
— Acha que estou mentindo?
Xu Xingchen foi sincero:
— Não creio que minta, mas há coisas que não entendo.
— Hahahaha! — Yu Canghai riu, cobrindo a boca manchada de vermelho. Logo parou e zombou: — O verão não pode falar do inverno. Sem praticar a técnica, jamais compreenderás suas maravilhas.
— E mesmo que tenha guardado uma cópia, não terá tempo de aprendê-la!
— Porque hoje, morrerás aqui, enterrado nesta floresta de bambu!
Xu Xingchen riu baixo:
— Mestre Yu, não! Dona Yu, não se precipite. Só saberemos o desfecho após o combate.
Yu Canghai apenas sorriu friamente, sem responder.
No momento seguinte, sua túnica rubra tornou-se um borrão e, num lampejo, ouviu-se o clangor de uma lâmina como um relâmpago cruzando o céu.
Xu Xingchen voltou a fechar os olhos, buscando no escuro a direção daquele relâmpago.
Movendo o braço, interceptou com a espada o golpe fulminante.
— Hahahaha! Muito bom! Vai me divertir por mais um tempo!
Yu Canghai gargalhava, movendo-se ao redor de Xu Xingchen como um espectro, enquanto a luz da espada caía de todos os lados, tão rápida que só depois de vários golpes se ouvia o som cortando o vento.
De olhos fechados, Xu Xingchen sabia que jamais igualaria a velocidade do inimigo nos movimentos corporais. Mantendo a tática anterior, girava num espaço minúsculo, confiando a defesa apenas à lâmina.
Sons cortantes e estrondos de aço ecoavam, formando uma orquestra caótica.
As setenta e duas técnicas da Espada Maléfica, simples e diretas, nas mãos de Lin Zhennan não passavam de esgrima comum.
Mas, dominadas pela energia maléfica de Yu Canghai, tornavam-se aterrorizantes.
Sob a pressão da Técnica Maléfica, Xu Xingchen abandonou todas as floras de sua esgrima, recorrendo apenas aos movimentos mais básicos — cortar, estocar, aparar, golpear, desviar, bloquear — para lidar com os ataques incessantes e imparáveis.
Assim, depurou a técnica ao essencial, alcançando o estado de “sem forma na forma”!
Ao mesmo tempo, a essência de sua esgrima, sob tamanha pressão, evoluía e tornava-se mais apurada e sensível.
Porém, Yu Canghai, usando a Técnica Maléfica, estava ainda mais rápido e agressivo.
A velocidade de Xu Xingchen mal conseguia acompanhar, e ele passou a se defender mais do que atacar.
— Hahahaha! Muito lento! Sua espada é lenta demais!
Yu Canghai estava em êxtase, cada vez mais rápido e implacável; mesmo sob o sol, o brilho da lâmina e a sombra rubra não podiam ser ocultados.
Defesa prolongada leva à derrota!
Por fim, Xu Xingchen atrasou-se um instante: um golpe rompeu seu manto no ombro, tingindo-o de vermelho.
Por sorte, a ferida foi superficial.
Atrás da máscara, seu rosto era grave como água, mas nos olhos brilhava uma luz intensa.
Entre medo e excitação, sentia cada célula do corpo vibrar, liberando potencial oculto.
Contudo, novas feridas surgiam, nem muito rápidas, nem devagar, como poeira ao vento, florescendo em gotas de sangue.
Dois mestres, corpo e mente esticados ao extremo, só percebiam o brilho da espada inimiga e raramente notavam o tempo passar.
Num piscar de olhos, ou talvez uma eternidade, Xu Xingchen já acumulava mais de dez feridas: ombros, braços, costas, cintura, coxas...
Todas pequenas e superficiais, mas, em combate violento, o sangue escorria, manchando as roupas e espalhando-se pelo corpo, tornando-o ainda mais abatido.
— Homem da Máscara, conseguiu resistir a tantos golpes meus, impressionante!
— Mas, hahahaha, as feridas aumentam. Quanto tempo ainda resistirá? Quanto sangue ainda resta? Hahahaha...
A voz de Yu Canghai vinha de todos os lados — surpresa, euforia, loucura.
Somando sua sombra espectral e a esgrima sombria, era realmente assustador.
Xu Xingchen não tinha tempo nem energia para responder; concentrava-se apenas em sobreviver à tempestade de ataques.
Até que...
Uma lâmina rompeu sua defesa, partindo a máscara com um estrondo.
— Hahahaha! Já não suportava esse seu disfarce ridículo. Agora, quero ver seu verdadeiro rosto!
A risada insana de Yu Canghai cessou abruptamente, como se uma mão lhe apertasse a garganta.
A sombra vermelha recuou três metros; Yu Canghai fitava, incrédulo, o rosto jovem e belo de Xu Xingchen, emudecido.
Demorou um instante até gritar, incrédulo:
— Não... Não pode ser! Você... você é tão jovem? Como pode ser tão jovem?
— Como pode? Quem me derrota é apenas um garoto...
— Isso é... o cúmulo do absurdo!
— Enfim... fui desmascarado! — Xu Xingchen usou a manga vermelha, tingida de sangue, para enxugar o suor da testa, deixando uma marca vívida.
Sorriu, já sem a rudeza de antes, mas de modo gentil e educado:
— Mestre Yu, tenho que admitir: já não sou páreo para você.
Yu Canghai fitava seu rosto, incomodado com o sorriso do rapaz.
— Quem é você? Diga seu nome, para que eu saiba quem matei!
— Sou Xu Xingchen! — respondeu, agora sem esconder a identidade.
O rosto de Yu Canghai, borrado de carmim, deformou-se num sorriso feroz; repetiu “Muito bem” três vezes, os olhos vermelhos de inveja, e rosnou, palavra por palavra:
— Verdadeiramente... os heróis são jovens!
— Hoje, juro que vou esquartejar esse moleque insolente para saciar meu ódio!
Dito isso, a túnica vermelha tornou-se novamente um emaranhado de serpentes, retorcendo-se e contorcendo-se.
Em seguida, desferiu um golpe impossível de prever, ainda mais rápido e cortante que qualquer um anterior.
Nada o deteria, nem homem nem deus!
— Mestre Yu, já viu a beleza do Monte Hua?
Com essa frase sussurrada ao ouvido de Yu Canghai, sua visão escureceu; o jovem que estava prestes a atingir desapareceu, substituído por uma luz deslumbrante.
Nessa luz havia a sombra dos antigos ciprestes, a melancolia das folhas caindo, o som de sinos e tambores, a agitação dos poetas e guerreiros, maravilhas naturais, pinheiros recebendo visitantes, grous e fênix voando juntos, dragões e ventos em liberdade...
Todos os cenários magníficos, toda a alegria e esplendor, reunidos na grandiosidade do Monte Hua!
Monte Hua! Monte Hua!
A Primeira Espada do Monte Hua!
A sombra rubra, rápida como um espectro, foi imediatamente subjugada, mas o que se seguiu deixou Xu Xingchen perplexo.
"Não consigo suprimi-lo, é impossível..."
"Esse Yu Canghai é mais difícil de conter que um javali no Ano Novo..."
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