Capítulo 47: Querido, você não tem permissão para praticá-la
No silêncio profundo da noite, o ambiente da Casa de Escolta Fortuna e Glória estava envolto em inquietação. Do pátio onde residia o chefe dos seguranças, Lin, vieram sons que logo chamaram a atenção de muitos. As notícias espalharam-se de boca em boca, reunindo uma multidão armada que rapidamente acorreu ao local.
— Chefe Lin, o que está acontecendo aqui?
— Chefe Lin, está tudo bem com você?!
— Chefe Lin... Espere, é aquele homem mascarado de preto! Atenção, todos!
— Ousando invadir sozinho a nossa Casa de Escolta Fortuna e Glória... Hmph, ele vai pagar caro por isso!
Diversos seguranças saltaram sobre o muro, espreitando o interior. Assim que avistaram a figura de Xú Xingchen, exclamaram alarmados e pularam para dentro do pátio, cercando-o com expressões sérias e armas em punho.
O casal Lin, recuperando o fôlego, trocou olhares amargos ao notar as armas caídas não muito longe. Ambos haviam sido derrotados em um único golpe pelo invasor, algo que jamais haviam experimentado. Mesmo cercados por tantos seguranças robustos, sentiam-se tomados por um desamparo pungente.
Sabiam bem que, se o homem mascarado realmente quisesse matá-los, seus seguranças não passariam de galinhas e cachorros, incapazes de oferecer resistência.
Felizmente, Xú Xingchen não pretendia continuar o ataque. Aqueles seguranças não tinham presenciado o momento em que ele derrotara o casal Lin, nem sabiam quantos golpes haviam sido trocados. Desconhecendo a extensão de seu poder, isso permitiria ao casal Lin preservar alguma dignidade.
Caso contrário, se ambos perdessem totalmente o respeito dos seus subordinados, como poderiam continuar liderando a Casa de Escolta Fortuna e Glória?
Xú Xingchen queria apenas que o casal Lin aceitasse a verdade sobre sua própria fraqueza, sem intenção de destruir seus negócios.
"Devo ferir alguns seguranças para que também sintam o sabor da derrota?", pensou ele, lançando um olhar malicioso aos homens que o cercavam, ávidos por lutar. Contudo, desistiu da ideia, pois temia que, caso continuasse a humilhá-los, a Casa de Escolta se desintegrasse antes do tempo.
— Já provei das habilidades do chefe Lin e de sua esposa. Por esta noite basta, despeço-me! — disse, saltando para o telhado diante dos olhares atônitos, e em alguns pulos desapareceu na escuridão.
Vários seguranças segurando dardos ocultos resmungaram contrariados:
— Só escapou rápido, aquele mascarado. Se não, queria ver se ele aguentava meus truques com armas ocultas!
Alguém ao lado riu, zombando:
— Pare com isso, Bai! Seu mestre foi atingido por engano durante a luta do mascarado na casa ancestral dos Lin. Se tivesse ousado atacar, talvez nem estivesse vivo agora!
Bai, visivelmente irritado, rebateu alto:
— Éramos tantos! Se todos tivéssemos usado armas ocultas, não acredito que aquele sujeito sairia ileso, como se tivesse três cabeças e seis braços!
O casal Lin, já recuperado, apressou-se a acalmar os ânimos. Cercados por perguntas e preocupações de todos os lados, admitiram que o invasor era forte demais, e que nem juntos poderiam enfrentá-lo, mas graças à chegada oportuna dos demais, estavam ilesos. O número de golpes trocados ficou em segredo.
Quando os seguranças dispersaram-se em pequenos grupos e o filho Lin Pingzhi foi convencido a retornar para dentro, o casal recolheu as armas caídas e voltou ao quarto.
A luz do lampião brilhava num canto, mas o ambiente era de total silêncio. Após um tempo, a senhora Lin, vendo o marido abatido, procurou consolá-lo:
— Não se culpe tanto. Aquele homem mascarado é, sem dúvida, um dos melhores do mundo das artes marciais. Não é vergonha perder para ele.
— Ai! — Lin Zhenan suspirou profundamente, a preocupação estampada no rosto. — Em poucos dias, perdemos um objeto ancestral da nossa casa, esta noite um forasteiro irrompeu aqui... Nossa Casa de Escolta está mesmo marcada por desgraças este ano.
Antes que a esposa pudesse confortá-lo novamente, batidas soaram à porta. Assustados, levantaram-se de imediato, empunhando a espada e a adaga que estavam sobre a mesa.
— Quem está aí?
Desta vez, sem ousar agir precipitadamente, Lin Zhenan perguntou primeiro.
— Ainda sou eu!
A voz rouca e profunda do lado de fora gelou-lhes o sangue. A senhora Lin, nervosa, esbarrou numa cadeira, derrubando-a.
Com um estalo, a tranca da porta partiu-se e, de súbito, o homem mascarado reapareceu na soleira. Antes que ambos pudessem gritar, ele lançou um objeto de cor vermelha ao chão, dizendo:
— Chefe Lin, isto foi o que levei do salão budista da casa ancestral dos Lin. Agora, devolvo aos donos.
Dito isso, virou-se e, com um salto ágil, desapareceu novamente na noite.
O casal Lin, atônito com a ida e volta relâmpago do mascarado, demorou para recuperar-se. Vendo a esposa pálida de medo, Lin Zhenan inspirou fundo, tentando conter o tremor interior. Com uma espada em punho, aproximou-se cauteloso da porta, espreitando o exterior. Só depois de muito tempo se tranquilizou, fechou a porta e disse:
— Está tudo bem, ele foi embora de verdade desta vez.
Seu olhar pousou então no objeto vermelho no chão.
— Ele disse que isso aqui... era o item da casa ancestral dos Lin...
Aproximou-se com hesitação, abaixou-se e abriu o manto vermelho: era uma túnica de monge, com o forro repleto de escritos minúsculos e alguns desenhos de figuras humanas.
— Manual da Espada Exorcista!
Ao ler as quatro grandes palavras no topo, Lin Zhenan ficou paralisado, pensando: "Seria este realmente o lendário manual da minha família Lin?"
Descendo os olhos, ao ler os oito caracteres "Para cultivar o poder supremo, o corte deve ser feito em si mesmo", não conteve um grito de espanto.
A senhora Lin, ainda assustada, correu para junto do marido e indagou ansiosa:
— O que houve? Há algo errado com essa túnica?
— Não é nada! — Lin Zhenan respirou fundo, tentando fechar a túnica. Mas a esposa, atenta, já lera as primeiras palavras e exclamou:
— Que tipo de espada exige que alguém se mutile para praticá-la?
Lin Zhenan bufou, irritado:
— Isso certamente é uma invenção daquele mascarado. Se o manual da nossa família exigisse tal coisa, como teríamos descendentes até hoje?
— Aquele homem mascarado só pode ser malicioso, escreveu esse manual falso para nos ridicularizar...
— Não vale a pena ler o resto, deve estar repleto de erros. Melhor queimá-lo, antes que Pingzhi veja e nos traga desgraças.
Por fora, Lin Zhenan falava com convicção, mas por dentro recordava a advertência ancestral da família Lin: "Os descendentes não devem ler os escritos do salão budista da casa ancestral, ou sofrerão terríveis consequências."
Se antes duvidava do aviso, ao deparar-se com aquela frase do manual, compreendeu de imediato, e passou a acreditar quase inteiramente na autenticidade do que via.
O objeto do salão budista era, de fato, como dizia o aviso dos ancestrais: quem o lesse, traria desgraça.
Compreendendo isso, Lin Zhenan decidiu obedecer ao aviso e não ler mais. Mas sua esposa, franzindo o cenho, insistiu:
— Seja falso ou verdadeiro, precisamos ler até o fim. Quem sabe ali esteja o motivo pelo qual o mascarado veio nos atormentar?
Tomou suavemente a túnica das mãos do marido e a estendeu sobre a mesa.
Lin Zhenan olhou para as próprias mãos, entendendo que, no fundo, também sentia vontade de ler, ou não teria cedido tão facilmente.
Inquieto, aproximou-se e, junto da esposa, começou a ler o conteúdo.
Ao longo da leitura, Lin Zhenan foi atraído diversas vezes pelas descrições das circulações de energia, sentindo sua própria força interior seguir involuntariamente os movimentos. Em poucos instantes, tal como descrito no texto, sentiu uma inquietação intensa, como se o fogo o consumisse por dentro, assustando-o, que rapidamente recobrou a concentração e recolheu a energia ao centro do corpo.
Ainda assim, era incapaz de resistir ao impulso de continuar lendo.
A senhora Lin, por ser mulher, parecia imune aos efeitos do manual. Leu tudo atentamente, sem encontrar qualquer mensagem oculta do mascarado, mas ao notar, de relance, o rosto do marido alternando entre rubor e palidez, e perceber sua respiração descompassada, compreendeu de súbito:
— Este manual é verdadeiro?
— Marido, você não pode praticar isso de jeito nenhum!