Capítulo 10: Se houver rancor, seja mais gentil ao agir!
— Quem é aquela pessoa?
— O que faz espreitando no meio da noite?
— Talvez sejam mesmo os bandidos do Monte Qinglan...
Os presentes discutiam em vozes agitadas, aguardando para ver como o mestre Yue Buqun lidaria com o intruso.
Xu Xingchen permanecia ao lado, silencioso, recordando a leveza e a destreza na espada que o visitante noturno acabara de exibir. Embora fossem ágeis e cortantes, não lhe pareceram invencíveis; com cautela, acreditava poder enfrentá-los sem grande dificuldade.
Provavelmente, tratava-se apenas de um sentinela, enviado para sondar a situação...
Quanto ao mestre Yue Buqun, sua técnica Yangwu com a espada era pura e refinada, ainda que não atingisse a perfeição. Sua energia interna era, sem dúvida, impressionante.
Nos últimos dois anos, Xu Xingchen também havia fortalecido sua própria energia; entre os picos de Huashan, entregue à contemplação, sentira-se em comunhão com o céu e a natureza, o que fez seu progresso ser notável. Mas, para superar o mestre, calculava que ainda precisaria de mais dois anos...
Enquanto isso, Yue Buqun iniciava o interrogatório do homem de preto dominado:
— Quem é você? Faz parte dos bandidos do Monte Qinglan?
Deitado no chão, o homem de preto mostrou-se firme e zombou:
— Já que adivinhou, para que perguntar? Yue Buqun, caí nas suas mãos por azar, mas confesso, sua habilidade me surpreendeu. Se soubesse, não teria vindo investigar!
Yue Buqun perguntou em tom grave:
— Quantos homens estão reunidos no Monte Qinglan? E quantos são habilidosos?
O olhar do homem de preto desviou-se para o alto, o pescoço rígido, e ele gritou:
— Nem pense que arrancará de mim tais informações... Se realmente faz jus ao nome de “Espada do Virtuoso”, seja rápido e acabe logo comigo!
Yue Buqun manteve o semblante sombrio. Sabia que esses indivíduos do submundo, endurecidos pela vida, eram capazes de tudo para alcançar seus objetivos, e, quando caíam nas mãos dos justos, pouco se importavam com ameaças, preferindo uma morte rápida a qualquer humilhação.
Queriam viver intensamente, aproveitar o prazer de atormentar inimigos, de comer, beber e se divertir; desejavam uma morte tão rápida quanto a vida. Curiosamente, muitos justos, por orgulho, acabavam concedendo-lhes esse desejo...
Aquele homem, à sua frente, certamente partilhava desse desejo.
Isso incomodou Yue Buqun, que sentiu vontade de atravessá-lo com mil espadas, fazê-lo agonizar por sete dias e sete noites. Mas, rodeado de discípulos e preso à reputação de “Espada do Virtuoso”, teve de conter-se e assistir o homem se vangloriar.
O mestre lançou um olhar para seus discípulos e pensou:
“Dos meus nove alunos, Chong me acompanhou há anos, já viu sangue e matou; os outros, nos últimos anos, desceram a montanha e presenciaram as lutas do mundo. Apenas Ling Shan, Bai Luo e Xingchen, por serem jovens, nunca desceram nem viram sangue...”
Decidido, chamou os três para perto e disse seriamente:
— Entre meus discípulos, só vocês três estão descendo a montanha pela primeira vez e jamais viram sangue! Para que não se acovardem ao enfrentar os malfeitores do Monte Qinglan amanhã, decidi que cada um de vocês dará um golpe neste homem, findando sua vida!
Os três se assustaram, cada um tomado por diferentes sentimentos.
Yue Lingshan sacou a espada, hesitante; não conseguia atacar alguém indefeso, o que provocou o escárnio do homem caído:
— Mulher no mundo marcial? Melhor voltar para casa, casar e ter filhos!
O insulto atiçou a raiva de Yue Lingshan; sob o olhar do pai, cerrou os dentes e golpeou.
Chiu!
Um lampejo rubro, um gemido abafado, o ombro esquerdo do homem foi atravessado.
— Ah! Errei... — murmurou ela, relutante, puxando a espada.
O sangue esguichou e o homem gemeu de novo; julgava que ela hesitaria, mas ouviu seu comentário, o que o enfureceu:
— Nem sabe manejar a espada, por que treina artes marciais? Volte logo para a montanha...
Yue Buqun, satisfeito por dentro, manteve o rosto impassível e comentou:
— Atacou com o coração vacilante, mas está bem. Depois do primeiro golpe, nas próximas vezes, será mais firme e preciso.
— Bai Luo, é sua vez!
Ying Bai Luo inspirou fundo, reuniu coragem e avançou, espada em punho.
O aço brilhou, sangue espirrou, e o grito do homem o fez tremer; por reflexo, Bai Luo desviou a lâmina.
— Ah! — O grito tornou-se ainda mais lancinante.
Todos viram que Bai Luo mirara o coração, mas, por compaixão, não teve força para perfurar. O golpe entrou pouco na carne, sem atingir o órgão vital.
O homem, crente que era sua última hora, urrou de dor.
A hesitação do novato só o fez cortar de lado, abrindo um talho do peito ao ombro, o sangue tingindo a roupa e a dor arrancando-lhe berros.
Yue Buqun deixou escapar outro lampejo de satisfação enquanto instruía:
— Não devemos torturar inimigos, mas considerando ser sua primeira vez, Bai Luo, é compreensível.
— Compreensível coisa nenhuma! — vociferou o homem, olhos flamejantes, ignorando o sangue que escorria no peito: — Yue Buqun, falso virtuoso! Diz que quer que seus discípulos me matem, mas só quer me torturar! Se tem coragem, faça você mesmo!
Yue Buqun ignorou os insultos e dirigiu-se seriamente a Xu Xingchen:
— Xingchen, embora seja o mais jovem, sei que sua determinação é a mais forte entre meus discípulos. Quando atacar, não o torture; seja breve e firme!
Xu Xingchen assentiu serenamente.
— Mestre, farei o possível.
O homem no chão, ao ouvir tal diálogo, sentiu verdadeiro pavor.
O que Yue Buqun queria dizer com aquilo?
Os dois primeiros discípulos nada ouviram, mas esse jovem, de aparência tranquila, recebeu palavras de advertência...
Não estava ele, então, anunciando que iria infligir-lhe sofrimento impiedoso?
Desesperado, o homem lançou insultos ainda mais baixos, xingando até os ancestrais de todos, apenas para provocar uma morte rápida.
Xu Xingchen, porém, mantinha o semblante tranquilo e o coração ainda mais calmo.
Imaginava que, como Yue Lingshan e Ying Bai Luo, sentiria medo ou hesitação.
Mas nada disso aconteceu; ao avançar, imagens de quando tinha três anos lhe vieram à mente: o ataque de malfeitores que invadiram sua casa, mataram sua mãe, feriram seu pai, obrigando-o a fugir desde então.
Em sua segunda vida, ainda no ventre materno, já despertara a sabedoria da existência anterior; por isso, lembrava nitidamente de sua infância.
Por anos, pensou ter esquecido tais memórias, mas agora percebia que, por dor profunda, bloqueou inconscientemente as lembranças cruéis e sangrentas.
Diante da iminência de sua primeira morte, ao ver o sangue jorrando do peito do inimigo e ouvir os insultos sem filtro, as lembranças seladas retornaram...
Ele nunca esquecera o ódio daquele tempo.
Sua dedicação ao treino, além do gosto, trazia também o desejo ardente de vingança.
Quando parou diante do homem, todos perceberam o denso desejo de morte nos olhos do pequeno discípulo e se preocuparam.
Xu Xingchen, enquanto desembainhava a espada, olhou friamente para o homem, esperando até que as ofensas cessassem e o medo tomasse conta do rosto adversário, então perguntou, calmo:
— Quantas pessoas inocentes você matou em vida? Quantas famílias destruiu?
O homem, experiente em horrores, já vira de tudo e jamais temera nada. Mas, ao encarar o jovem de semblante sereno e olhar carregado de assassínio, sentiu um calafrio e um medo inexplicável.
Os lábios tremeram, mas logo se recompôs e gritou, desafiador:
— Ha... hahahaha! Minha vida foi de insolência e desrespeito!
— Se não gostava, eu matava; se gostava, também matava. De mau humor, matava; de bom humor, matava. Sem sono, matava; depois de dormir, ao acordar, continuava matando...
— Matei tantos, culpados e inocentes, que se lançassem os corpos no fosso da cidade, ele se encheria!
— E então? Não sou terrível? Não sou cruel?
O sangue escorria do seu peito, e ele berrava com arrogância, o olhar tão feroz que assustaria uma criança.
— ...Por esses atos, merece sofrer todas as dores, morrer em desespero e terror.
A voz de Xu Xingchen era tão fria quanto a sentença de um juiz do submundo. A lâmina desceu, e um ponto vermelho surgiu na garganta do homem, cujos ossos frágeis foram despedaçados pela energia interna, impedindo-o de emitir um som.
A segunda estocada foi tão firme e precisa quanto nos treinamentos, atingindo um ponto vital no peito. A lâmina penetrou superficialmente, mas o golpe naquele ponto provocou espasmos e dor lancinante, pior que uma perfuração profunda.
O rosto do homem logo se contorceu, o peito tremia, desejando gritar, mas sem conseguir emitir som, pois a garganta estava destruída...