Capítulo 45: A Diferença entre Energia Interna e Energia Vital
Noite profunda...
O antigo casarão da família Lin, no Beco do Sol Nascente, estava completamente iluminado, tomado por uma agitação de vozes.
– Ai!
– Ah! Vá com calma, meu braço está quebrado!
– Alguém me ajude, minhas pernas não têm mais forças!
– O mestre Lin chegou? Finalmente o mestre Lin está aqui!
Entre lamentos de dor e pessoas amparando-se mutuamente, a expressão de pânico era visível no rosto de todos, até que a chegada do casal Lin Zhen Nan trouxe certa tranquilidade ao coração dos guardas e criados.
O casal examinou os ferimentos de alguns, constatando que não eram graves, tranquilizou os presentes com algumas palavras e logo começou a interrogar sobre o que havia acontecido.
As narrativas atropeladas se sucediam e, à medida que Lin Zhen Nan escutava, seu semblante tornava-se cada vez mais sério. Ao saber que o manual secreto da Espada Afasta-Males, herança da família, havia sido roubado por um estranho, sua expressão fechou-se ainda mais.
Quando soube que o ladrão, ao fugir, zombou dizendo que o manual estava incompleto e que, por isso, o poder da técnica era comum, suas sobrancelhas se franziram ainda mais.
Ao ouvir que dois dos invasores mascarados eram discípulos do clã Qingcheng, sob tutela de Yu Cang Hai, seu semblante se tornou sombrio como ferro.
Após ouvir todos os relatos, Lin Zhen Nan pediu que sua esposa permanecesse para acalmar os ânimos, enquanto ele mesmo mandou buscar as chaves, abriu o cadeado de bronze do salão budista e entrou.
Seus olhos percorreram as lanternas brilhantes ao redor e, ao notar os cacos de telha espalhados pelo chão, deteve-se um instante. De súbito, ergueu o olhar e viu o enorme buraco aberto no teto. Em seus olhos, um misto de surpresa e amargura, e murmurou para si mesmo:
– Não, impossível... Como alguém de fora poderia saber... do segredo... oculto no salão budista...
Nesse momento, sua esposa entrou e, notando o rosto transtornado do marido, observou rapidamente o salão antes de perguntar:
– Querido, será que o manual da Espada Afasta-Males, deixado por nosso avô, foi mesmo perdido?
Lin Zhen Nan lutou para controlar suas emoções, suspirou e respondeu:
– Não sei se o avô realmente deixou o manual secreto aqui, mas, diante do que vemos, sem dúvida algo importante nos foi roubado!
A senhora Lin franziu o cenho, confusa:
– Entre os três ladrões, dois são do clã Qingcheng... O que pensa sobre isso, meu bem?
Lin Zhen Nan balançou a cabeça:
– Também não sei porque eles, do clã Qingcheng, estariam interessados no manual da nossa família...
Ao pensarem no temido mestre Yu Cang Hai, ambos trocaram olhares pesados.
Por outro lado...
Os dois primeiros mascarados que fugiram saltavam agilmente pelos telhados, até se aproximarem de uma hospedaria.
Entraram rapidamente em seu quarto pela janela, fecharam-na, acenderam a lamparina e retiraram os lenços pretos do rosto, revelando feições jovens marcadas por vergões e hematomas.
– Ai! Quem era aquele desgraçado com o bastão? Foi impiedoso demais!
– Não importa quem seja. Ao voltarmos para a seita, contaremos tudo ao mestre. Ele saberá nos defender!
– Irmão Yu, aquele manto que o sujeito segurava... era mesmo o manual da Espada Afasta-Males?
– Ouvi dizer que Lin Yuan Tu fora monge antes de fundar a Escolta Fuwei; aquele salão budista... aquele manto... deve mesmo guardar relação com o manual.
– Que pena não termos conseguido antes. Se tivéssemos levado o manual para o mestre, ele teria ficado muito satisfeito!
– Chega de conjecturas. Amanhã ao amanhecer, partiremos de volta a Sichuan. O sujeito ousou dizer que viria à nossa seita, Qingcheng. Assim que relatarmos ao mestre, esse arrogante não sairá vivo!
– Irmão Yu está certo... Ai, que dor!
Em outra hospedaria...
Xingchen Xu também retornava ao quarto, fechava a janela, acendia a lamparina, largava o bastão num canto e retirava a máscara, depositando-a junto ao manto vermelho sobre a mesa.
Despiu as roupas escuras e, vestindo uma túnica comum, sentou-se com calma à mesa, serviu-se de chá frio e bebeu lentamente.
Após terminar a xícara e sentir-se mais tranquilo, abriu o manto vermelho sobre a mesa.
– Para alcançar o auge, é preciso cortar o próprio desejo... Heh!
Ao reler as oito palavras iniciais, Xingchen Xu não pôde conter um leve riso. Procurou mais adiante, mas o trecho esperado – “mesmo sem tal sacrifício, ainda é possível obter sucesso” – não estava lá.
O restante do texto descrevia métodos de circulação de energia, repleto de advertências e explicações.
Falava-se dos grandes riscos de não seguir o sacrifício, e dos benefícios espantosos caso se lograsse êxito.
Xingchen Xu leu com atenção, sem perder um só detalhe. Sempre que, involuntariamente, fazia circular a energia conforme o método, um calor intenso surgia em seu abdômen, obrigando-o a voltar à razão.
Uma vez a energia restabelecida, recomeçava a leitura minuciosa.
O tempo passou sem alarde; só quando a luz da manhã começou a invadir o quarto, Xingchen Xu terminou de reler o texto e os diagramas por alto.
Se fosse apenas para treinar seguindo as instruções, uma leitura bastaria.
Mas esse não era seu objetivo; por isso, uma só leitura não era o suficiente!
Guardou o manto, retornou à cama e meditou em silêncio por uma hora.
Ao abrir os olhos, desceu para comer e beber no salão, depois voltou ao quarto, tornou a estender o manto e continuou o estudo.
Assim passaram-se três dias e três noites, até que Xingchen Xu finalmente fechou o manto, exausto, e caiu em sono profundo.
Dormiu até o dia raiar, despertou sentindo-se renovado, desceu para comer e, de volta ao quarto, conferiu novamente o manto. Já havia memorizado cada detalhe: o método, as proibições, tudo estava claro em sua mente.
Recolheu o olhar, ergueu a xícara de chá e tomou um gole, cheio de pensamentos e ânimo renovado.
– Minhas suspeitas estavam certas: energia interna é uma coisa, o qi verdadeiro é outra. Embora se cruzem em alguns pontos, jamais podem ser confundidos.
– Segundo os clássicos taoistas, há três forças no corpo: essência, energia e espírito. Fundem-se num todo, mas permanecem distintas...
– A essência está intimamente ligada ao corpo, origina-se no dantian inferior; a técnica de Huashan percorre os doze meridianos, concentrando a essência do corpo, que no fim se transforma em energia interna no dantian...
– Energia interna é o produto concentrado da essência corporal. Ao utilizá-la, todos os atributos físicos melhoram: força, resistência, velocidade, reflexos. O corpo se fortalece. Combinada às técnicas das várias escolas e ao uso de armas, os resultados são impressionantes.
– No mundo das artes marciais, mais de noventa por cento dos praticantes que cultivam energia interna estão focados nessa força fundamental...
– Já o qi verdadeiro é diferente... Ele está relacionado aos cinco sopros do peito!