Capítulo 37: O Retorno do Cão Derrotado
O dia avançava para o meio-dia, e o restaurante começava a encher-se de gente. Próximos à janela, dois homens conversavam, ambos com expressões carregadas de nostalgia e suspiros.
— Vamos! Irmão Lao, troco o vinho pelo chá para brindar a você! — disse Xu Xingchen, erguendo a xícara e bebendo junto a Lao Denuo. Em seguida, observando o rosto do outro, já um tanto envelhecido, permaneceu em silêncio por um momento e, de repente, comentou: — Irmão Lao, você já não é jovem. Nunca pensou em abandonar o mundo marcial, isolar-se e viver recluso? Se casasse novamente, tivesse um filho, não seria uma vida de plena felicidade?
Lao Denuo não esperava ouvir tamanha consideração vinda do mais jovem dos discípulos. Surpreso, logo sorriu amargamente:
— Quem vive entre espadas não tem escolha... Além disso, onde houver gente, haverá disputas. Não é tão simples deixar tudo para trás e sumir do mundo.
— É mesmo? Que pena! — Xu Xingchen balançou a cabeça, pegou os hashis sobre a mesa, apanhou uma porção de comida e mastigou lentamente.
No mundo dos livros, Lao Denuo, mais tarde, mataria Lu Dayou, roubaria o Manual Zixia e cometeria toda sorte de maldades, tendo um fim miserável, amarrado junto a dois grandes macacos por Ren Yingying, sem poder viver nem morrer. No entanto, o Lao Denuo de agora ainda não cometera tais atrocidades e, quando estavam na montanha, sempre cuidou bastante dele.
Não importava se, naquele tempo, Lao Denuo agia por bondade ou fingimento; isso pouco lhe importava. O conselho que Xu Xingchen ofereceu foi apenas uma maneira de expressar sua consideração.
Se Lao Denuo realmente aceitasse o conselho, seria ótimo; mas, caso insistisse em seus erros, restaria apenas suspirar internamente: “Irmão Lao, cada um segue o próprio caminho para a ruína...”
Na verdade, ao dizer aquelas palavras, Xu Xingchen já sabia qual seria a resposta, mas ainda assim as proferiu, como uma espécie de preparação para o próprio coração.
Lao Denuo, alheio aos pensamentos de Xu Xingchen, após comer alguns bocados, perguntou casualmente:
— Depois que desci a montanha, está tudo bem por lá?
— Tudo ótimo! — respondeu Xu Xingchen com um sorriso, largando os hashis.
Lao Denuo continuou, demonstrando preocupação:
— E as habilidades marciais dos irmãos, têm progredido? O irmão mais novo é dotado de um talento raro; imagino que o mestre já deve ter lhe ensinado a Técnica Suprema Zixia, não?
Xu Xingchen, modesto, respondeu:
— Os irmãos têm progredido, mas o mestre não me ensinou a Técnica Suprema Zixia. Esse é um segredo reservado ao próximo líder da seita. Não sou digno de tal honra.
Lao Denuo lamentou:
— Que pena!
Entre um prato e outro, conversavam trivialidades. Lao Denuo sondava sobre a situação da montanha, enquanto Xu Xingchen respondia evasivamente; ambos mantinham as aparências, cada um absorto em seus próprios pensamentos.
Quando terminaram a refeição e esvaziaram as xícaras, era hora de se despedir. No momento da partida, Lao Denuo advertiu com sincera preocupação:
— Irmão mais novo, é sua primeira viagem fora da montanha, fique atento às artimanhas dos canalhas do mundo.
Xu Xingchen sorriu, transbordando gentileza:
— Agradeço pelo conselho, irmão Lao. Guardarei bem suas palavras!
— Ótimo, na próxima vez que nos encontrarmos, brindaremos com vinho! — disse Lao Denuo.
— Com certeza! Com certeza! — respondeu Xu Xingchen.
À porta do restaurante, Xu Xingchen acompanhou com o olhar a figura de Lao Denuo sumindo na multidão e, em pensamento, murmurou: “Irmão Lao, você permanece rondando as redondezas de Huashan, sem se afastar. Que outros planos terá em mente?”
Na parte da tarde, enquanto Xu Xingchen passeava por Xi’an, percebeu nitidamente que estava sendo seguido. Lembrava-se dos dias na encosta da montanha, onde Feng Qingyang, mestre supremo das artes marciais, conseguia esconder completamente sua presença; nem mesmo o olhar era detectado. Os que agora o seguiam estavam muito aquém desse nível, e, por mais que tentassem disfarçar, não conseguiam escapar à sensibilidade de Xu Xingchen.
Passou alguns dias conhecendo as novidades daquela época, experimentando as iguarias de várias tavernas, até sentir-se plenamente satisfeito, quando então partiu tranquilamente da cidade.
Viajando sem pressa, aproveitava cada paisagem, caçando animais nas montanhas, pescando nos rios, vivendo dias de grande alegria. Talvez devido aos rumores sobre um assassino desconhecido, os bandidos da região se retraíram; Xu Xingchen percorreu centenas de quilômetros sem encontrar um único salteador.
Certo dia, ao passar por um desfiladeiro, notou que o lugar era estreito, ladeado por árvores tão grossas que só poderiam ser abraçadas por várias pessoas juntas, copas densas que bloqueavam totalmente a luz do sol, tornando o ambiente sombrio e fresco, mesmo em pleno dia.
Já era meio-dia quando Xu Xingchen caçou uma galinha selvagem, limpou-a junto ao riacho e, em uma clareira, acendeu uma fogueira, espetou o animal num galho e começou a assá-lo.
Logo, o aroma da carne se espalhou, enquanto a pele dourava visivelmente. Xu Xingchen girava o espeto, sorrindo com expectativa.
Foi então que algo inesperado aconteceu.
Zunidos cortaram o ar em sequência, e dezenas de armas ocultas, dardos e ouriços de ferro voaram de todos os lados, densos como um enxame.
Com uma mão, Xu Xingchen segurou o espeto com a galinha, com a outra, apanhou sua trouxa, saltou para o galho de uma árvore a mais de três metros de altura, e, observando a terra sendo perfurada pelos projéteis e a fogueira se desfazendo, lamentou:
— Se tivessem esperado mais um pouco, ao menos eu teria almoçado!
Atirou galho e galinha para um ramo ainda mais alto, enquanto abria a trouxa e sacava a espada, observando atentamente o entorno.
Sons agudos cortaram o ar. Figuras encapuzadas e vestidas de negro surgiram, saltando rapidamente entre o solo e as árvores. Em instantes, três desceram ao chão próximo, cinco posicionaram-se nos galhos mais altos e dois ocultaram-se atrás dos troncos.
Eram todos robustos, de olhos brilhantes e armas variadas nas mãos, exalando uma aura feroz e ameaçadora.
Um deles falou, com voz carregada de desprezo:
— Então você é o discípulo mais jovem da seita Huashan?
— Dois anos atrás, foi você quem estragou nossos planos?
— Naquela ação conjunta, perdemos muitos homens e não conseguimos matar nenhum dos seus! Sempre que lembro disso, sinto uma vergonha imensa!
— Hoje, ao unirmos forças outra vez, vamos acabar com você aqui mesmo!
— Irmãos, se fracassarmos novamente, melhor cortarmos nossas próprias gargantas do que continuar passando vergonha!
— Basta de tolices! Juntos, ele não terá chance de escapar!
— Temos treinado uma formação de ataque; mesmo se enfrentarmos aquele falso virtuoso Yue Buqun, não temeremos!
No centro do cerco, Xu Xingchen ouviu os comentários e compreendeu:
— Então são os mesmos cães sarnentos que vieram desafiar Huashan da última vez e fugiram com o rabo entre as pernas!
— Maldito! Vai morrer! — gritou um deles, furioso.
Vários saltaram do chão, brandindo facas, lanças, espadas e alabardas, avançando sobre Xu Xingchen, que estava no galho. Ao mesmo tempo, um brilho de espada surgiu por trás do tronco, deslizando silenciosamente em direção às costas de Xu Xingchen...