Capítulo 2: Mestre e Discípulo
Mergulhado em seus estudos, o tempo passou rapidamente. Quando ouviu batidas à porta e despertou de sua concentração, o sol já estava alto no céu, marcando o meio-dia.
Deixou de lado o papel e o pincel, abriu a porta e viu, diante do umbral, uma bandeja com o almoço. Não muito longe, o criado que trouxera a refeição afastava-se silenciosamente.
Tudo isso era orientação de Xu Xingchen. Em sua vida anterior, como pesquisador, sabia bem como, ao entrar no estado de trabalho, facilmente esquecia de comer ou dormir. Antes, contava com o alarme do celular para lhe lembrar das horas. Agora, sem tal comodidade, só restava pedir a alguém que o avisasse.
Assim, sempre que o criado lhe trazia a comida na hora certa, Xu Xingchen lhe pedia que batesse à porta para chamar sua atenção.
A fusão entre a técnica da espada de Huashan e o método interno da mesma escola não era algo a ser alcançado em poucos dias. Com apenas oito anos, ele tinha ainda muito tempo para pesquisar, sem pressa.
Recolheu o material de escrita na mesa, guardou tudo em ordem e só então saiu para comer.
Na parte da tarde, Xu Xingchen praticava espada no pátio. Escolheu, de propósito, uma espada longa de três palmos, apropriada para adultos. Para ele, o peso era um pouco excessivo, mas não impossível de manejar; o movimento tornava-se lento, exigindo mais precisão e atenção na execução dos golpes.
Após algumas sequências, gotas de suor já brotavam em sua testa.
Ele desejava treinar a técnica do "tornar o pesado leve", mas, sendo seu corpo ainda de criança, sabia que iniciar um treinamento intenso de resistência tão cedo poderia lhe trazer sérios prejuízos no futuro. Não queria, de forma alguma, tornar-se o próximo "baixote Yu", famoso por sua estatura reduzida devido ao excesso de esforços prematuros.
Sem poder realizar o treino de resistência, Xu Xingchen optou por uma via intermediária: praticava a espada com uma lâmina não muito pesada, trabalhando a precisão dos movimentos, o controle do corpo e o fortalecimento dos músculos e ossos. Afinal, isso fazia parte do segundo estágio do plano de treinamento da técnica da espada de Huashan.
Praticava um pouco, descansava, hidratava-se e retornava ao treino. Os longos períodos da tarde escoavam assim, serenamente.
À noite, após o jantar, Xu Xingchen dedicava-se à leitura de obras clássicas do Taoismo, do Livro das Mutações e outros textos semelhantes. Desde sua existência anterior, esses temas lhe fascinavam; em momentos de lazer, aprofundara-se neles, já possuía uma base sólida.
Para fundir as duas técnicas de Huashan, não bastava dominar ambas; era preciso, ainda, reunir conhecimento de diversas áreas. Por sorte, o fundador da seita Huashan tivera suas raízes no Taoismo, e a escola possuía uma sala repleta de clássicos taoistas, além de outros livros.
E Xu Xingchen, com sua mente madura, lia esses textos com facilidade. Quando surgia alguma dúvida, podia, durante a audiência periódica com o mestre, a cada três dias, pedir esclarecimentos.
Ele sabia: quanto mais conhecimento acumulasse, tanto mais favorável seria para a criação e fusão das técnicas. Sempre gostou de estudar, e, quando envolvido por seu interesse, era capaz de passar noites em claro, esquecendo-se até das necessidades básicas.
Mergulhado nos textos taoistas e no Livro das Mutações, nem notou o avançar da noite. Só ao bocejar, fechou o livro, arrumou-o cuidadosamente, retornando ao quarto para sentar-se em meditação sobre a cama.
Respirando profundamente, aquietou a mente e começou a circular a energia interna segundo o método de Huashan, refinando o Qi.
Na verdade, desde que começou a cultivar energia interna nesse mundo, Xu Xingchen suspeitava que o Qi refinado pelo método de Huashan não provinha apenas dos alimentos consumidos durante o dia, mas também de alguma força misteriosa presente na natureza.
Afinal, se tudo dependesse da "eficiência na absorção e conversão de energia interna", não faria sentido tamanha diferença entre os métodos, já que, observando atentamente, percebia que até mesmo seu mestre e a esposa se alimentavam do mesmo que os discípulos, sem qualquer distinção…
O cultivo interno também demandava concentração; em menos de uma hora, a mente de Xu Xingchen se tornava turva e o sono o dominava.
Na manhã seguinte, com a luz apenas insinuando-se no horizonte e o sol ainda por trás das montanhas, ele já despertava. Pegava a espada curta e saía, escalando novamente até a pedra no meio do penhasco, onde, sereno, aguardava o nascer do sol para iniciar a prática.
Seus dias seguiam nesse ciclo: prática da espada, pesquisa, leitura e cultivo interno. Simples e puro.
Três dias se passaram sem alarde.
Era chegada a hora de visitar o mestre.
Após os exercícios matinais e o desjejum, Xu Xingchen dirigiu-se à residência do mestre.
Yue Buqun, homem de quarenta e poucos anos, exibia traços corretos e elegantes, com uma barba negra sob o queixo e um ar de erudição. Sua esposa, Ning Zhongze, era bela e gentil, mas não lhe faltava pulso firme. A pequena Yue Lingshan, com dez anos, era de uma graciosidade encantadora.
Ao vê-lo chegar, um brilho de ternura surgiu nos olhos de Yue Buqun, enquanto Ning Zhongze o olhava com uma expressão de afeto e preocupação, chamando-o com carinho: "Xingchen, venha, aproxime-se, deixe-me ver se emagreceu nesses dias!"
Yue Buqun passava pouco tempo na montanha, sempre ocupado com afazeres fora. Desde os três anos, Xu Xingchen fora criado por Ning Zhongze até os oito. Tanto ela quanto o marido tratavam-no como um filho, assim como faziam com Linghu Chong e Yue Lingshan.
"Saúdo o mestre!" Xu Xingchen fez uma reverência respeitosa a Yue Buqun e, voltando-se para Ning Zhongze, sorriu: "Mestra, estou muito bem; além disso, foram apenas três dias, não teria como emagrecer tanto!"
"Maninho, você veio! Chame a irmã mais velha!" exclamou Yue Lingshan, apenas dois anos mais velha, brincalhona ao lado.
Após um breve momento de carinho entre os quatro, Yue Buqun conduziu Xu Xingchen ao escritório para avaliá-lo nos estudos e no progresso com a espada.
Xu Xingchen evitava exagerar em suas habilidades. Nos estudos, não havia o que comentar; ao demonstrar a técnica da espada, os movimentos eram precisos e rápidos, transmitindo plenamente o espírito peculiar e arriscado da arte.
Yue Buqun assentiu satisfeito, ponderou por um instante e aconselhou: "Sei por que seu pai o trouxe para a montanha e escolheu esse nome, mas você ainda é muito jovem. Seja no cultivo interno ou na prática da espada, não se precipite."
Xu Xingchen acatou obediente, então aproveitou para tirar dúvidas sobre os textos taoistas que vinha lendo.
Ora o mestre explicava de pronto, ora refletia antes de responder. O diálogo entre ambos era harmonioso e demonstrava a relação entre mestre e discípulo.
No íntimo, Yue Buqun sentia que seu discípulo era precoce demais; muitas questões já beiravam seus próprios limites de conhecimento, forçando-o, por vezes, a recorrer aos textos antigos para preparar respostas.
Ao meio-dia, Xu Xingchen almoçou com o casal, ambos demonstrando cuidado com o discípulo órfão desde os três anos. Yue Lingshan insistia para que ele a chamasse de "irmã mais velha", o que Xu Xingchen fez algumas vezes, alimentando o pequeno sonho da garota.
À tarde, Yue Buqun convocou todos os discípulos para uma avaliação coletiva. Sua rotina na montanha era breve, e, quando retornava, aproveitava ao máximo para acompanhar o progresso de cada um, corrigindo e orientando.
O mais velho, Linghu Chong, com dezesseis anos, já acompanhara o mestre em várias viagens e desenvolvera uma afeição pelo vinho, em excesso, inclusive, motivo de repetidas reprimendas. Ainda assim, nos dias de retorno do mestre à montanha, mantinha-se contido, bebendo apenas às escondidas.
O segundo discípulo, Lao Denuo, era mais velho que o próprio mestre e viera de outra escola. Pela sua vasta experiência no mundo marcial, Yue Buqun o incumbia de tarefas externas. Sua verdadeira identidade era conhecida por ambos, mestre e Xu Xingchen.
Os demais discípulos, Liang Fa, Shi Daizi, Gao Genming, Lu Dayou, Ying Bailuo... eram mais jovens, mas já revelavam diferentes personalidades: alguns honestos e bondosos, outros calados, alguns de coração generoso, outros travessos, e até havia quem... gostasse de macacos?!
A convivência diária, aliada ao exemplo do mestre, cultivara entre todos boas relações. Até Xu Xingchen, o nono discípulo, de temperamento reservado, encontrava seu espaço no grupo.
"Maninho, faz dias que não te vejo, você parece mais alto!"
"Não pratique espada o tempo todo, você ainda é pequeno, deveria brincar mais!"
"Quer ir ver os macacos comigo?"
"Quer beber um pouco de vinho? Haha, eu te ofereço!"
Todos o saudavam com animação e Xu Xingchen respondia a cada um. Até Lao Denuo, sempre sério, demonstrava cuidado: "Maninho, precisa de algo? Quando eu for à cidade, trago para você."
Com a chegada de Yue Buqun, o pátio se aquietou.
Na avaliação, Linghu Chong destacou-se entre todos pela maestria com a espada. Os demais também haviam progredido, sem sinais de negligência. Até a pequena Yue Lingshan executava a técnica de Huashan com notável destreza.
Yue Buqun levou meia hora a analisar os pontos fortes e fracos de cada um, indicando métodos de aprimoramento. Em seguida, promoveu disputas entre os nove, explicando, durante os combates, como variar os golpes, reagir a situações perigosas, virar o jogo e aproveitar oportunidades.
Aquela tarde de ensinamentos rendeu a todos grandes aprendizados. Até mesmo Xu Xingchen saiu com novas compreensões, provando como o debate e a troca de ideias podem ser valiosos.
O jantar foi animado. Linghu Chong, espertamente, conseguiu beber mais alguns goles de vinho; Lu Dayou, apaixonado por macacos, fazia algazarra; Yue Lingshan gargalhava alegremente...
O mestre, observando os rostos jovens de seus discípulos, sentia-se inspirado. Em mais alguns anos, quando todos estivessem formados, a seita Huashan certamente alcançaria nova glória. Olhando, mesmo sem querer, para Linghu Chong e Xu Xingchen, não pôde deixar de pensar que aqueles dois seriam o pilar da escola no futuro.
Na mesa, Xu Xingchen falava pouco, mas sentia-se profundamente acolhido, desfrutando daquela atmosfera calorosa. Afinal, ninguém é de ferro, todos precisam de afeto!
Ao final, satisfeitos com comida e vinho, os discípulos despediram-se do casal e retornaram a seus aposentos.
Tanto o cultivo interno quanto a prática da espada eram atividades íntimas. Como havia muitas casas desocupadas na montanha, cada discípulo ocupava um pavilhão próprio.