Capítulo Cento e Onze: Dez Partiram, Nove Retornaram (Capítulo Principal)

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 4617 palavras 2026-03-31 12:23:01

Os moradores da montanha eram de temperamento simples e puro; para ganhar dinheiro, brigavam ferozmente por clientela, mas uma vez que alguém conquistasse um cliente fixo, todos automaticamente cessavam a disputa e passavam a parabenizar o estabelecimento de comida picante.

— O velho Huang é mesmo sortudo, tem uma filha tão capaz, bem melhor que meu filho bobo — comentou um.

— Sem dúvida! Essa garota é bonita e trabalha melhor que qualquer rapaz. Pena que seja muda, senão seria a nora perfeita para meu filho — disse outro.

— Cachorro da montanha, é melhor você parar com isso. Todo mundo sabe que seu filho também tem dificuldades, e mesmo assim você insiste no interesse pela filha do velho Huang, que não gosta dele — alfinetou um terceiro.

Os moradores cercavam o homem que cuidava dos cavalos, sorrindo animadamente, enquanto alguns aproveitavam para vender produtos da montanha a Xu Changsheng e Wang Qiang. Ma La Tang apenas sorria e permanecia ao lado.

Tendo levado o grande negócio para si, ele sabia que precisava deixar vantagens para os conterrâneos, conforme o pai lhe ensinara.

Wang Qiang inicialmente não planejava comprar nada, mas sob indicação de Xu Changsheng, adquiriu duas grandes sacolas de batatas brancas da região de Sichuan e vários pedaços de carne de porco criada na montanha, tanto fresca quanto curada. Ficou intrigado, pois as batatas eram incrivelmente brancas e saborosas, melhores que as de outros lugares, ótimas para dividir com colegas e amigos. A carne curada de Sichuan era boa, mas a carne fresca? Como poderia durar tanto tempo? Afinal, vieram ali para salvar alguém, não para fazer turismo. Por que, então, estavam comprando tantas coisas? Ele refletiu que, já que estavam em dívida com aqueles que viajaram milhares de quilômetros para ajudá-lo, não havia o que contestar. Mesmo apreensivo, seguiu o conselho de Xu Changsheng.

— Viemos de Chengdu atrás daquele ser, e quanto mais perto chegamos, mais sensível ficou minha intuição espiritual. Deve ser um velho demônio ancestral! — alertou Xu Changsheng, ao examinar os produtos da montanha, a voz ecoando em sua mente — Embora ainda não saibamos o que ele pretende fazer com sua namorada, Xiaoli, devemos agir com cautela.

— A natureza demoníaca não é inferior, e ele poderá ter uma percepção espiritual como nós, cultivadores. Se ele desconfiar, será muito ruim para Xiaoli. Portanto, a partir deste momento, somos apenas dois viajantes comuns, sem mencionar sua namorada e sem demonstrar ansiedade.

— Veja estes morangos da montanha, são excelentes, doces e azedos na medida certa, grandes e suculentos. Não perca a chance de comprar cem quilos. Em Xiangyunguan posso vender espetinhos de frutas para Qingping, que anda pedindo para vender esses doces... — continuou Xu Changsheng.

Com Wang Qiang, um experiente policial, e Xu Changsheng, encontrar alguém não era difícil; os dois chegaram quase simultaneamente a este vilarejo remoto. Mas assim que Xiaoli entrou na floresta, Wang Qiang não conseguiu mais rastreá-la, mesmo com o sistema interno. Xu Changsheng poderia usar magia taoista para seguir o rastro, porém, diante de um demônio, ele precisava ser cauteloso. Limitou seu poder e não se atreveu a usar sua percepção espiritual, fingindo ser um simples turista.

Mesmo para investigar o paradeiro de Xiaoli, tudo deveria parecer natural para não alertar o velho demônio.

— É, esses produtos da montanha são realmente bons. Se não comprar, será uma pena. Desta vez vamos levar bastante — disse Wang Qiang, que logo entendeu a situação, sorrindo para Xu Changsheng e começando a escolher os produtos com o entusiasmo de um turista encantado com a variedade.

No fundo da montanha havia produtos de primeira qualidade: morangos, batatas brancas, inhame, radix polygonati, cúrcuma, lingzhi e outros. Muito melhores que os das cidades, com preços que não chegavam a um terço, às vezes um quarto do valor urbano.

Wang Qiang ficou cada vez mais envolvido na diversão das compras, entendendo o motivo do amor de Xiaoli por passear e comprar. Gastar dinheiro era mesmo prazeroso. Agora só lamentava o pequeno espaço do porta-malas do carro; deveria ter vindo em uma picape.

— Está bom, já chega — disse Xu Changsheng, sorrindo. Entre os produtos havia ervas medicinais de alta qualidade, exatamente o que ele precisava. Fazer Wang Qiang gastar muito era também uma forma de retribuir um favor, mesmo que um pouco forçada, ajudando a resolver uma questão de carma.

Na cidade de Songshihang, um famoso monge ajudava pobres gratuitamente, mas jamais poupava os ricos, exigindo-lhes um preço alto para aliviar problemas; esse era o princípio.

Compraram muitos produtos da montanha, beneficiando os vizinhos de Ma La Tang, que os acompanharam alegremente até a casa dele. Passaram por dois ou três lagos e duas pontes estreitas até avistar, no vale, algumas casas simples feitas de barro e palha, momento em que os vizinhos se dispersaram sorrindo.

— Menina, essas são suas casas? — perguntou Wang Qiang, franzindo levemente a testa.

Antes de entrar na montanha, ele sonhava com uma vida bucólica ao estilo de Tao Yuanming, imaginando a alegria de beber água pura da nascente e comer alimentos livres de pesticidas. Mas ao chegar viu os chiqueiros fedidos, os mosquitos e as casas frágeis de palha, sempre ameaçadas pelo vento do outono.

Olhou novamente para a jovem limpa e delicada à sua frente e não podia imaginar como ela viveu durante tantos anos. Talvez só quem enfrenta dificuldades de verdade sabe valorizar a vida e manter um sorriso tão puro.

Wang Qiang jurou que só vira dois sorrisos assim em toda a sua vida: o de Qingping e o da jovem muda diante dele.

Ma La Tang os conduziu animadamente até a porta de casa, onde Huang Zijian já os esperava apoiado em sua bengala há bastante tempo. Ao ver os visitantes, o rosto do velho iluminou-se; ele, que morara na cidade por anos, tinha mais percepção que os moradores comuns e logo percebeu que seus negócios teriam bons ganhos.

Ma La Tang queria dinheiro para o tratamento do pai, Huang Zijian desejava juntar uma boa dote para a filha, para que ela pudesse casar bem e deixar de sofrer na montanha. Dinheiro sempre traz um cheiro forte de ganância, mas para pai e filha Huang parecia ouro reluzente.

Eles receberam os dois visitantes na maior casa da aldeia. O velho Huang começou a conversar animadamente, enquanto Ma La Tang corria para a cozinha preparar o jantar. Após ferver água, tirou um novo tapete de palha e cobertores do único armário de madeira da casa.

Eram coisas novas, compradas há dois anos, guardadas para receber convidados. Pessoas da cidade tinham mania de limpeza, segundo o pai dela, e Ma La Tang entendia bem isso; inclusive entre os moradores da montanha, ela era considerada uma pessoa muito asseada, precisando tomar banho e lavar o cabelo todo dia.

Os hóspedes chegaram tarde, quase no pôr do sol, e certamente ficariam para passar a noite. Ma La Tang então colheu algumas ervas aromáticas, que não tinham nome, mas quando queimadas exalavam um perfume especial que afugentava mosquitos, garantindo uma boa noite de sono para os visitantes.

Com agilidade, antes do sol se pôr completamente, ela já havia disposto uma mesa farta. O cardápio era simples: inhame cozido com carne de porco da montanha, um refogado misto de cogumelos, sopa de carne de cobra, algumas porções de legumes frescos da estação, fatias de carne fresca e embutidos, tudo temperado com o caldo especial de Ma La Tang. Saboroso e nada enjoativo.

O prato principal era um pão branco do tamanho de um punho, servido com mingau de milho amarelo, suficiente para saciar.

Wang Qiang babava, mas se conteve e não pegou os hashis.

Viu que Huang Zijian e Ma La Tang carregavam grandes tigelas de mingau e pães para a cozinha, enquanto pai e filha não tinham sequer um prato decente, segurando apenas pedaços de conserva salgada. O homem forte, com os olhos marejados, gritou:

— Velho Huang, que é isso? Como pode deixar os convidados de lado?

— Essas carnes e legumes são para os hóspedes. Gente da montanha não está acostumada, pode fazer mal — respondeu Huang Zijian, balançando a cabeça.

— Sim, faz mal para o estômago. Ma La Tang não vai comer — completou ela, engolindo em seco e acompanhando o pai, com o rosto cheio de conflito.

Xu Changsheng sorriu:

— Não tem isso, velho Huang. Esta refeição é por nossa conta, depois acertamos. Veja quantos pratos Ma La Tang preparou! Nós dois não somos grandes comilões, não vamos conseguir comer tudo.

Depois de receber as duas essências vitais da relíquia óssea de Buda e de Ge Wuyou, Xu Changsheng já não era mais um estômago insaciável capaz de devorar meio boi; Qingping sempre lamentava, dizendo que ele deveria comer pelo menos meio balde do delicioso gelatinoso que ela fazia.

Sentindo-se desmascarado, Huang Zijian corou:

— Está bem. Ma La Tang, vá buscar no quintal um barril de vinho de noiva. Hoje o velho vai acompanhar os convidados direito. Meus caros, não estou me gabando, a família Huang não tem muita coisa, mas este vinho de noiva ancestral é um tesouro que nem com dinheiro se compra. Ma La Tang tem dezesseis anos e este vinho foi guardado durante todo esse tempo.

De fato, o vinho estava pela metade, mas seu aroma forte já se espalhava. Servido em uma tigela de barro preta, tornou-se vermelho púrpura, espesso como mel, doce e perfumado.

Wang Qiang não resistiu e tomou metade da tigela de uma vez, mas Huang Zijian logo o repreendeu, dizendo que o vinho guardado por dezesseis anos era muito forte e poderia embriagá-lo. Ele deveria beber com moderação.

Xu Changsheng provou um gole e assentiu satisfeito; para um erudito taoista, um bom vinho era sempre bem-vindo. Embora não tão refinado quanto o néctar celestial que ele desejava, era uma raridade na terra. Pena que fosse o vinho de noiva, reservado para Ma La Tang; ele até pensou em comprar alguns barris para levar de volta ao templo Xiangyunguan.

Sob a insistência de Wang Qiang, Ma La Tang serviu para si meia tigela, mas não ousava beber, apenas a girava nas mãos e cheirava timidamente.

Vendo Wang Qiang beber a tigela em poucos goles, os olhos de Ma La Tang se encheram de lágrimas que ameaçavam cair.

— Wang, vá com calma, este é o vinho de noiva da Ma La Tang. Se você beber tão rápido, ela vai sentir pena — advertiu Xu Changsheng.

Assim que ele falou, Ma La Tang assentiu repetidamente, lançando a Wang Qiang um olhar estranho que o deixou envergonhado e sem coragem de continuar a beber.

Huang Zijian queria repreender a filha, mas Xu Changsheng o segurou, dizendo:

— Velho Huang, não a castigue. Toda jovem tem seus sentimentos... Quando um ‘convidado indesejado’ chega, e bebe o vinho da noiva, como a menina não vai se entristecer?

— Ah, ah... — Ma La Tang balançava a cabeça, como se dissesse que não era verdade, mas seus olhos marejados denunciavam sua tristeza.

Diante daquela cena comovente, Wang Qiang perdeu a coragem de beber e se concentrou em comer o Ma La Tang, que era ainda melhor que o dos chefs da cidade, viciante e ardente, fazendo-o suar profusamente.

— Quando uma garota da montanha chega aos dezesseis anos, deve casar... Mas vocês viram nossa situação. Quem vai querer uma muda? Difícil... — suspirou Huang Zijian.

— Hehe, o céu sempre tem seus desígnios; quando uma porta se fecha, outra se abre. Ma La Tang ainda não encontrou seu destino, velho Huang, não precisa se preocupar tanto — respondeu Xu Changsheng.

Desde o primeiro momento, ao ver Ma La Tang, Xu Changsheng sentira que aquela jovem era pura e rara como um orvalho celestial, uma pérola digna de seu destino. Ele desejava ajudá-la, mas como era a primeira vez que a via, não perguntou nada diretamente, apenas deixou uma pista.

— Velho Huang, nós dois somos viajantes experientes, cansados dos pontos turísticos comuns. Gostamos de explorar lugares naturais pouco conhecidos. Seu lugar tem alguma atração bonita? — perguntou Xu Changsheng sorrindo.

— O melhor seria um local com belas paisagens e lendas cativantes — acrescentou.

Huang Zijian olhou para ele e balançou a cabeça:

— Se fosse assim, já teríamos nos tornado um ponto turístico famoso como Jiucun Valley ou Huanglongdi. Por isso ainda somos tão isolados. Se querem apenas apreciar a paisagem e provar comida caseira, fiquem por alguns dias. Mas se vieram com outras intenções, é melhor irem embora logo e visitarem os lugares famosos.

— Velho Huang, pense melhor. No caminho ouvi dizer que este lugar se chama Montanha do Dragão Trancado. Um nome tão incomum não poderia estar vazio de histórias. Ou talvez você tenha seus motivos para não nos contar...

Antes que Huang Zijian pudesse responder, Ma La Tang já começou a gesticular e falar animadamente, como se quisesse explicar algo a Xu Changsheng.

Huang Zijian lançou-lhe um olhar severo:

— Pare com isso! Se os visitantes querem ir até lá, não podemos impedir, mas como pode convidá-los? Você esqueceu as regras da aldeia?

— Velho Huang, vocês não entendem. A maior diversão de viajantes experientes é descobrir os lugares mais belos, remotos e misteriosos. Se a Montanha do Dragão Trancado tem algum segredo, não deveria escondê-lo.

— Ah, vocês sabem, na verdade este lugar não se chama Montanha do Dragão Trancado. Antes era Montanha do Pãozinho. Depois mudaram o nome por causa de uma cordilheira chamada Cordilheira do Dragão Trancado...

Huang Zijian suspirou profundamente e falou com pesar:

— Montanha do Pãozinho, Cordilheira do Dragão Trancado, belas montanhas e águas, mas nenhum bom destino. Dez pessoas entram, nove voltam... significa que, não importa quantos entrem na Cordilheira do Dragão Trancado, sempre um fica para trás...