Capítulo Dezessete: Negociações com os Imortais
Se não fosse pelo fato de Wang Qiang, esse velho policial, ser ao menos dedicado ao trabalho, Xu Changsheng não se importaria em dar-lhe um pontapé no traseiro. O que ele mais temia era esse tipo de pessoa: não entendia nada, mas gostava de falar asneiras, desrespeitando todos os tabus. Os seres imortais não costumam ferir as pessoas à toa, mas se alguém irritasse verdadeiramente “aquele” lá dentro, uma punição leve seria o mínimo a esperar.
E, de fato, mal Wang Qiang terminou de falar, as pedras e árvores que serviam de “portão da cidade” explodiram com estrondo, liberando uma energia que irrompeu pela entrada, investindo contra Xu Changsheng e ele. Xu Changsheng, com os canais espirituais recém-abertos, já tinha uma percepção dez vezes maior que a de uma pessoa comum. Seu corpo começava a refinar a essência em energia, avançando o primeiro passo da prática da vida, e por isso reagiu muito mais rápido que Wang Qiang. Moveu-se de lado, desviando-se com leveza.
Aquela energia, ao atravessar a cortina de chuva, tomou a forma de uma garra de besta, atingindo violentamente o peito de Wang Qiang. No exato momento do impacto, as moedas dos Cinco Imperadores, envoltas pelo talismã de afastar o mal, tilintaram desordenadamente, emitindo um brilho tênue que conseguiu conter um pouco a força da garra. Assim, Wang Qiang não sofreu um dano maior, mas ainda assim foi lançado longe.
— Irmão Xu, você... — Wang Qiang foi arremessado a mais de dois metros de distância. Apesar da proteção das moedas e do talismã, não sofreu fraturas, mas caiu de mau jeito na lama, sujando-se todo. Esfregou a lama do rosto, olhando para Xu Changsheng com uma mágoa infinita.
— O grande espírito aí dentro já se acalmou? Posso entrar para conversarmos? — Xu Changsheng sequer lhe deu atenção. Velho policial, mas não sabia o perigo de falar demais? Se não fosse pelas moedas e pelo talismã, só aquele golpe já teria drenado metade de sua energia vital, encurtando-lhe a vida em três ou cinco anos.
Para dialogar com esses grandes espíritos, ou você se torna parte da família, abrindo o altar e tornando-se discípulo, ou precisa apresentar-se como membro da linhagem taoista, obrigando-os a um mínimo de respeito. Só assim o diálogo é possível; caso contrário, nada se resolve. No momento, Xu Changsheng só podia fingir-se de jovem monge...
No entanto, não era tudo mentira; afinal, o velho louco Ge Wuyou não dizia o tempo todo que queria tomar Xu Changsheng como discípulo? Ge Wuyou autodenominava-se Mestre Dragão de Fogo, sempre falando da suprema alquimia do ouro. Antes, Xu Changsheng achava que era só bravata, mas, desde que, com sua ajuda, abriu sem querer os canais espirituais, começou a acreditar um pouco.
No interior do templo da Terra, reinava silêncio absoluto. Xu Changsheng franziu levemente o cenho. Que tipo de espírito seria esse? Ele já havia declarado sua identidade, mas o outro nem ao menos lhe concedia uma pequena consideração, algo fora das regras do mundo espiritual!
Enquanto pensava se devia forçar a entrada, uma voz ressoou em sua mente: De que linhagem você vem? É seguidor da Escola Verdadeira ou da Tradição do Uno?
Ah! Este espírito não era simples! Xu Changsheng, embora fosse um falso monge, sabia que, no mundo taoista, a Escola Verdadeira e a Tradição do Uno eram consideradas ortodoxas. Quanto aos monges de Maoshan, tão populares em filmes e televisão, na verdade pertenciam a uma ramificação secundária.
Desde o mestre Changchun, Qiu Chuji, a Escola Verdadeira vinha definhando, e, embora a Tradição do Uno tivesse nome famoso, raramente seus discípulos apareciam nos tempos modernos. Hoje, para os taoistas, tanto a alquimia interna da Escola Verdadeira quanto a magia dos trovões da Tradição do Uno não passavam de lendas. Alguém como Xu Changsheng, capaz de desenhar um talismã básico de afastar o mal – e ainda fazê-lo funcionar – já era uma raridade. Mas aquele espírito, ao perguntar logo de início pelas duas escolas, só podia ser um ancião dos antigos tempos.
Xu Changsheng refletiu e, adotando um ar solene, respondeu: — Meu mestre é o Mestre Dragão de Fogo, que já transmitiu os segredos dos Cinco Trovões e a senda do ouro. Mas sua cultivação está além do seu alcance. Ao ver que ainda não cometeste grandes maldades, vim dialogar amigavelmente. Caso meu mestre tenha que intervir, temo que será tarde demais para arrependimentos.
— Irmão Xu, está falando sozinho? Vamos logo prender esse... esse espírito! — Wang Qiang levantou-se, massageando o ombro ainda dolorido, mas não ousou pronunciar a palavra “demônio”.
Será que esse rapaz sabia mesmo o que fazia? Não estaria só enrolando? Mal conseguia desenhar um talismã e ainda precisava de ajuda; agora, ali, falava sozinho sobre alquimia dourada e trovões sagrados...
E esse tal de Mestre Dragão de Fogo... Se tudo isso funcionasse, ele, Wang Qiang, não teria sofrido agora há pouco. O espírito nem mostrara o rosto e já lhe causara tanto prejuízo; e esse rapaz, falando sozinho com o vento, esperava resolver algo?
De repente, ouviu-se um alvoroço. Wang Qiang virou-se e viu, sob o arco da muralha de terra, um grupo de pessoas saindo. À frente vinha o louco das encenações, visto durante o dia, seguido por mais de uma dúzia de pacientes psiquiátricos, todos trajando uniformes hospitalares impecáveis e empunhando pequenas bandeiras feitas de trapos remendados. O louco aproximou-se de Xu Changsheng, fez uma profunda reverência e, em entonação teatral de Pequim, anunciou: — Nosso mestre o convida a entrar para uma conversa.
Wang Qiang ficou boquiaberto. Era possível mesmo?
Xu Changsheng acenou para o louco das encenações: — Conduza-me à frente.
— Pois não! — O homem fez uma pose dramática, marchando à frente em passos de palco em direção ao templo da Terra. Os dezoito pacientes se dividiram em duas alas em formação de ganso, cada um mais animado que o outro, peitos estufados, glúteos empinados, exibindo uma energia que superava a dos policiais sob o comando de Wang Qiang.
Xu Changsheng lançou um olhar para Wang Qiang, indicando: — Venha logo.
Negociar com grandes espíritos exige base e testemunhas. Como o caso estava sob jurisdição policial, Wang Qiang precisava participar. Além disso, Chang Wei e os outros ainda estavam dentro do templo; sem Wang Qiang, Xu Changsheng teria dificuldades para agir.
Ao entrar no templo, viu vários pacientes dispersos, sentados ou de pé. Huang Haoqiang, não se sabe como, havia conseguido uma cadeira de magistrado e estava sentado acima dos demais.
Mas sua postura era estranha: as pernas encolhidas, as mãos não apoiadas nos braços da cadeira, mas suspensas no ar, dorso das mãos para cima, palmas para baixo.
Era claro que não era um médium experiente. Se fosse um verdadeiro médium, ao receber o espírito, jamais teria uma postura tão desleixada. Isso mostrava que o espírito havia possuído o corpo há pouco tempo, sem conseguir fundir perfeitamente essência e vida.
O que Huang Haoqiang exibia agora devia ser o verdadeiro semblante do espírito.
Xu Changsheng ergueu o olhar de súbito, e entre as sobrancelhas surgiram dois redemoinhos em sentido horário, enquanto seus olhos fixavam intensamente Huang Haoqiang.
Com os canais espirituais abertos, viu, no centro da testa e no baixo-ventre de Huang Haoqiang, o rosto de uma raposa.
E não era uma raposa jovem, mas sim uma velha e magra, exalando um ar de decadência, como um ancião humano.
Xu Changsheng sorriu friamente: — Ora, ora! Seus olhos já caíram em triângulo, não é de admirar tanta pressa, a ponto de violar as regras e tomar posse de um corpo à força. Isso não é buscar um médium, é usurpar um corpo, desafiando os céus! Aposto que essa chuva estranha de Taishan é por sua causa. Se não me engano, quando a noite cair, os céus enviarão trovões para pulverizá-lo! Então, seu espírito será aniquilado, e não haverá tempo para se arrepender!
— Você... Você realmente consegue ver minha verdadeira forma? — O rosto de raposa ficou visivelmente espantado e assustado.
— Com os canais abertos, posso enxergar as energias do céu, da terra e dos homens, bem como fantasmas e espíritos. Como poderia você escapar aos meus olhos?
Xu Changsheng riu baixinho, frio: — E então? Vamos conversar?