Capítulo Cinquenta e Quatro: Jornada ao Sul do Rio – Primeira Parte

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 2803 palavras 2026-02-07 13:16:42

Cidade de Wu-Su, onde outrora três mil soldados Yue conquistaram a terra, é célebre na história por suas noites poéticas no palácio Wu, compartilhando a fama com a capital de Chu, ambas pertencentes à província de Jianghuai. Contudo, Jianghuai sempre foi uma província de dois mundos: ao norte do rio, o espírito é robusto, lembrando a generosidade das terras de Yan e Zhao; ao sul, floresce a verdadeira doçura da fala Wu, onde as moças são tão macias quanto arroz glutinoso, doces como mel, e até mesmo os homens são delicados, de linguagem suave, discutindo com ares de donzelas brincalhonas — um verdadeiro deleite.

Isso não é crítica ou elogio, mas sim constatação: entre Wu e Yue, a cultura sempre floresceu, produzindo homens talentosos, onde discussões não se elevam em voz e disputas são travadas com poesia e saber — sinal evidente de alto grau de civilização. Até mesmo as óperas populares, como o Pingtan e o Yueju, são consideradas refinadas, dignas de serem apreciadas ao lado da ópera Kun.

Na primeira visita a Wu-Su, os olhos de Xu Changsheng mal conseguiam abarcar tanta beleza. As paisagens pareciam pinturas, e as moças, todas dignas de retratos, reluziam em mil cores, suas vozes lembrando pequenas cotovias a cantar. Ye Tianming sabia mesmo aproveitar a vida — aquela "jovem senhora" devia ser alguém notável entre Wu e Yue, de beleza incomparável.

Sem qualquer autopercepção de cultivador, Xu Changsheng olhava curioso ao redor, até que avistou, entre as belezas de Wu e Yue, um homem de terno. Alto, com quase um metro e oitenta e cinco, ombros largos, cintura grossa e cabeça grande, nem mesmo o terno sob medida escondia os músculos impressionantes. Entre os homens do sul, ele era um verdadeiro marco.

O sujeito segurava um cartaz branco com quatro grandes caracteres tortos escritos a marcador: “Recebendo Xu Changsheng”.

Xu Changsheng bateu na testa, resignado... Aquele enviado de Ye Tianming certamente não era muito sutil. Para receber alguém, por que escrever o nome completo? Não seria melhor apenas “Senhor Xu” ou “Irmão Xu”? Não sabe que hoje em dia todos prezam pela privacidade? Por que não escreveu também o meu número de telefone?

Na verdade, não era nem reclamação, apenas achava o sujeito direto demais — um típico homem de ação, provavelmente um guarda-costas de Ye Tianming. Gente assim, muitas vezes, come e dorme junto com o patrão, e na hora do perigo serve de escudo humano — são leais entre os leais, dignos de respeito.

— Irmão, eu sou Xu Changsheng — disse ele, sorrindo ao se aproximar do homem de terno.

— É você mesmo? — O homem largou o cartaz e olhou Xu Changsheng de cima a baixo, pensando: “Achei que fosse um mestre, mas não passa de um garoto. Só porque ouviu a jovem senhora falar ao telefone a dezenas de metros? Tomara que não seja fraude. Outro dia ouvi do velho Liu Zhonghua que os vigaristas andam cada vez mais jovens... Vai ver é o caso deste aqui.”

— Eu sou Meng Meng, homem do presidente Ye, vim buscá-lo a mando dele.

Meng Meng sorriu, estendendo a mão enorme como um leque, e pensou: “Com meio esforço faço esse menino chorar de dor. Ou será melhor pegar mais leve? O presidente disse que tem a consideração do velho Ge envolvida...”

— Ah, irmão Meng, muito obrigado... Que nome forte, combina bem com seu porte — respondeu Xu Changsheng, sorrindo. — Se estivéssemos na antiguidade, você seria como Xiang Yu ou Lü Bu, um verdadeiro herói.

Ao ouvir elogio tão certeiro, Meng Meng se surpreendeu. Xiang Yu e Lü Bu eram seus ídolos! Esse rapaz é mesmo perspicaz, sabe falar! Meng Meng achou o rapaz cada vez mais simpático. Melhor ainda, decidiu usar menos força ao apertar sua mão — o presidente pediu discrição, afinal.

Xu Changsheng, com sorriso aberto, estendeu a mão sem hesitar. Em meio aos círculos do mundo, saber cumprimentar é saber viver: respeite os grandes, seja cordial com os valentes, e assim se faz um bom nome.

Meng Meng, sem perceber, relaxou. Mas quem era ele? Ex-monge do Templo Shaoshi, ex-soldado das forças especiais, lutador de MMA, chegou até a UFC — seu “aperto leve” esmagaria tijolos. Mas ao segurar a mão branca e macia daquele rapaz, parecia estar apertando aço!

— Senhor Xu, seja bem-vindo!

Basta um aperto de mão para um conhecedor saber com quem lida. Meng Meng percebeu logo que estava diante de alguém formidável. Decidiu usar toda sua força: não a ponto de transformar ferro em pó, mas o suficiente para entortar um cano de aço do tamanho do braço de uma criança.

— Hehe, irmão Meng, obrigado pelo carinho... — Xu Changsheng, sem revidar, manteve o sorriso intacto, como se nada tivesse acontecido, enquanto Meng Meng sentia os dedos doerem.

Ficaram assim, mãos presas, por quase meio minuto, chamando a atenção das jovens ao redor. O grandalhão parecia o arco e o miúdo, a flecha... Quanto tempo não se viam, que não largavam as mãos?

Meng Meng ficou vermelho, depois pálido, constrangido, olhando para Xu Changsheng com um sorriso amarelo. O próprio Xu Changsheng, com um leve gesto, soltou a mão e disse, sorrindo:

— Irmão Meng, sua hospitalidade é notável, mas vamos deixar a aproximação para depois. O presidente Ye nos espera.

— Verdade, verdade! Veja só, de tanta empolgação até esqueci do mais importante! Irmão Xu, onde está sua bagagem? Deixe que eu levo...

— Homem feito não leva bagagem, não tenho nenhuma — respondeu Xu Changsheng, dando-lhe uma tapinha no ombro. — Seu kung fu é excelente, irmão Meng, mas treinou demais na juventude e ficou com lesões internas. Wu-Su é um bom lugar, precisa cuidar melhor da saúde...

Ao simples toque, uma energia interior se espalhou pelo corpo de Meng Meng, dissipando bloqueios antigos como uma brisa morna de primavera.

Meng Meng ficou atônito e, ao encarar Xu Changsheng, seu olhar mudou por completo, tornando-se respeitoso:

— Muito obrigado, irmão Xu. Eu, Meng, errei por não reconhecer um verdadeiro mestre. Fui presunçoso...

— Não há de quê, irmão Meng. Vamos.

Este sim era um mestre de verdade. Meng Meng, mesmo sendo um sujeito de força descomunal, só ouvira falar de alguém capaz de canalizar energia interna assim — jamais vira. Observando a silhueta esguia de Xu Changsheng, Meng Meng, cabisbaixo, seguiu atrás dele como um aluno repreendido, mais obediente que uma criança.

***

Eis por que um verdadeiro mestre não deve se expor: basta aparecer para atrair complicações. Agora, Meng Meng estava completamente fascinado, e vivia, ao volante, a lhe lançar olhares furtivos, como uma donzela apaixonada. Xu Changsheng não podia nem retribuir o olhar, pois o grandalhão, corado como um urso tímido, desviava a vista, o rosto curtido pela vida tingido de rubor...

Xu Changsheng quase enlouquecia. “Pode olhar, mas pra que tanta vergonha? Um homem desse tamanho, corando feito moça, não é ridículo? Tudo bem que sou bom de kung fu e até um pouco bonito, mas não precisa se apaixonar, né?”

Assim, entre divertimento e constrangimento, deixaram a cidade e só ao chegarem diante de um jardim em estilo chinês Meng Meng pareceu voltar ao normal, dizendo baixinho:

— Mestre Xu, o presidente Ye queria recebê-lo pessoalmente, mas hoje chegaram convidados importantes, então me incumbiu de acompanhá-lo. Espero que não se importe...

De “senhor Xu” a “irmão Xu” e agora “mestre Xu”, era evidente o crescente respeito. Xu Changsheng já dissera que não precisava de tantos títulos, pois lhe soava antiquado, mas Meng Meng insistia. Para ele, chamar de mestre era pouco — não fosse pelo decoro de ser o principal guarda-costas do homem mais rico de Jianghuai, já teria chamado de “grande mestre”.

Afinal, alguém capaz de canalizar energia interna e curar ou ferir num piscar de olhos, não é um verdadeiro mestre?

— Não tem problema. Sou como um da casa do presidente Ye, aqui me sinto em família.

— É verdade, mestre Xu...

Meng Meng sentiu-se aliviado — afinal, Xu Changsheng não se fazia de estranho.

Descendo do carro, mãos cruzadas nas costas, Xu Changsheng contemplou o jardim. Que maravilha! Não é à toa que é o mais rico de Jianghuai, para ter um jardim desses como residência. Realmente, ter dinheiro faz diferença...

Preparava-se para subir os degraus e apreciar o interior do jardim quando ouviu a porta principal ranger e algumas pessoas saíram para recebê-lo.