Capítulo Trinta e Cinco: O Bom Cidadão
O bife do Hotel Jamei chegou rapidamente. Xu Changsheng não se fez de rogado; afinal, era mesmo a primeira vez que um pobre como ele provava um bife que custava mais de dois mil yuans por porção. Só a taxa de entrega já eram oitenta e oito grandes notas, o coração até sangrava. Decidiu, então, provar com atenção, saborear lentamente.
Então era isso que chamavam de bife sofisticado de hotel cinco estrelas? Nada demais, não parecia melhor que o tradicional boi ao molho do velho Lü, lá ao pé da montanha. E aquele tal bife Wagyu do Japão? Agora, lembrando das histórias que o pai contava, Xu Changsheng percebeu que o velho só estava se gabando para ele; esse tipo de iguaria de luxo no fim das contas era mais uma questão de sentimento.
Para quem está acostumado com comida de rua, de repente experimentar as iguarias de um hotel cinco estrelas é só isso mesmo; além do simbolismo, resta apenas ostentar, exatamente como Xu Changsheng fazia agora.
Por outro lado, quem sempre comeu comida insossa de hotéis de luxo e de repente experimenta uma comida de rua, muitas vezes se surpreende, sente como se tivesse desperdiçado anos de vida e dinheiro, sendo enganado pelas aparências desses lugares chiques. Wang Xiaocong, aquele famoso herdeiro, era um exemplo típico: depois de provar comida de rua, Michelin virou coisa do passado. O mesmo acontecia com Yan Yu, que ao provar um pouco de carne de porco agridoce, olhava para Xu Changsheng com admiração nos olhos; se provasse ainda um pouco de tofu apimentado, o coração até se agitava — era bom demais, se saísse da vida daquele homem, talvez morresse de fome.
— Velho Xu, então é verdade que comida não tem hierarquia, nem preço determina sabor. Comida barata pode ser deliciosa, enquanto a de restaurante chique pode ser só comum. Hoje aprendi isso.
Objetivamente, Yan Yu ainda demonstrava muita elegância; afinal, era filha de família abastada, e certos hábitos não se perdem facilmente. Embora a comida feita por Xu Changsheng fosse deliciosa, ela se controlou, pelo menos não saiu cuspindo restos nem se atirou no prato para lamber tudo. Ainda deixou algumas porções de cada prato, misturou com arroz e deu para a pequena raposa, Honghong.
Honghong comia feliz, dava uma mordida, levantava a cabecinha para olhar Yan Yu, depois Xu Changsheng. Talvez porque estivesse muito à vontade, os olhos de raposa foram se fechando até virarem duas linhas, e com o formato natural do rosto do animal, passava uma impressão cheia de significados...
Yan Yu foi a primeira a notar algo estranho, lançou-lhe um olhar fulminante:
— Está olhando o quê!
De repente, sentiu-se desconfortável e ligou a televisão. No verão, era tradição da família Xu jantar no pátio assistindo TV; antes da refeição, Xu Changsheng já havia trazido o aparelho para fora. Não que tivesse interesse especial em algum programa, era hábito, sem isso parecia faltar algo, tirava o apetite.
Ao ligar a TV, estava no canal de Chudu, horário do telejornal. Uma apresentadora lindíssima sorria enquanto anunciava: “Queridos telespectadores, agora vamos acompanhar o policial Chang visitar uma personagem-chave desse caso: um comerciante comum, tão simples e, ao mesmo tempo, tão singular. No caso da fuga em massa dos pacientes psiquiátricos do dia 28 de agosto...”
Com a mudança de imagem, Yan Yu exclamou surpresa:
— É você, velho Xu! Você era um dos pacientes... Não, não, falei errado, foi você que ajudou a polícia a levar os pacientes de volta ao sanatório e ainda foi premiado como bom cidadão? Mas... por que estou sentindo que tem algo estranho nisso?
A reportagem especial de Fan Xue era extremamente profissional; embora ela não tivesse acesso aos "segredos do caso", expunha todas as pistas possíveis aos telespectadores. Com a inteligência de Yan Yu, percebeu logo a incoerência.
O caso inteiro demonstrava claramente a impotência da polícia: mais de cem agentes, até forças especiais, ficaram frente a frente com dezenas de pacientes psiquiátricos durante três dias? Mesmo sem poder usar armas, não tinham bombas de gás lacrimogêneo, dardos tranquilizantes? Nada de escudos ou bastões elétricos? Será que policiais treinados não davam conta de setenta e um pacientes, cada um contra um?
Mas bastou Xu Changsheng, um vendedor desconhecido, aparecer e o problema se resolveu de imediato? Fan Xue e Yan Yu eram mulheres muito inteligentes; o que Yan Yu percebeu, Fan Xue já havia destacado na matéria, deixando a dúvida no ar...
Observando o comportamento do policial Chang Wei, notava-se que, como muitos outros, ele sabia pouco sobre os pontos-chave do caso. Os verdadeiros conhecedores do segredo do caso não apareciam para falar. Xu Changsheng, talvez, soubesse de algo, mas claramente não dizia uma palavra a mais...
Quanto mais assim, mais suspeito era! Relembrando o súbito aparecimento de Honghong, a pequena raposa, o estranho amuleto de Feng Shui no quarto de Xu Changsheng, as palavras do pai e a agitação do colar espiritual... os belos olhos amendoados de Yan Yu se apertaram em desconfiança.
A pequena raposa, Honghong, olhou para a dona, piou duas vezes, parecia ter reconhecido uma igual.
Xu Changsheng ignorou a “raposa fêmea” em que Yan Yu havia se transformado, concentrando-se em engolir o “bife caríssimo” à sua frente, elogiando:
— Até que é bom, mas não vale dois mil. Próxima vez não quero mais.
— Velho Xu, não precisa ser modesto. Só hoje descobri que você é um cidadão exemplar, ajudou a polícia a resolver um caso enorme. Eu faço questão de te oferecer algo caro...
— Ora, existe coisa boa assim? Ótimo, agradeço desde já.
Xu Changsheng riu:
— Na verdade, eu só faço questão, mas você gasta dinheiro e eu arrisco a vida, só não me responsabilize se eu morrer de tanto comer. Mas estou curioso, senhorita Yu, que mania é essa sua? Não come, mas paga para eu comer, só para se divertir?
Yan Yu respondeu séria:
— Deixe pra lá. Agora que somos amigos, vou te contar... Isso se chama ascetismo, entende?
— Ah, entendi, entendi...
Xu Changsheng teve uma súbita iluminação:
— Ou seja, não comer coisas gostosas, nem vestir ouro e prata, viver na dificuldade, quanto pior melhor. Sob o sol, usar casaco de algodão dizendo que está quente, pendurar ganchos de ferro nas costas e achar ótimo. Enfim, quanto mais sofrimento, melhor. Isso veio da Índia, né? Dizem que, se persistir, pode até fortalecer o espírito e desenvolver poderes especiais?
Yan Yu ficou furiosa:
— Que nada! Não é isso que eu estou dizendo. Você está falando dos faquires indianos, isso é automutilação. Eu sou assim? Meu ascetismo é só viver como uma pessoa comum, experimentar a vida, entendeu?
Xu Changsheng bateu na testa:
— Entendi, entendi... Veja só, realmente sou um pobre, não entendo a cabeça de uma moça rica como você. Ah, então você gasta dez milhões para comprar uma casa, mas faz questão de não comer nos banquetes do Chu Feng Lou, nem pagar dois mil num bife, e usa o dinheiro só para me tentar, um pobre, a cozinhar para você todos os dias, praticamente contratando um chef particular. Esse é o seu ascetismo? Impressionante, de verdade! Vocês “da cidade” sabem mesmo brincar...
Yan Yu o repreendeu:
— Velho Xu, já percebi que você está me tirando sarro...
— Não é deboche, é pura inveja, senhorita Yu. Mas não vou invejar por muito tempo. Se eu fosse você, aprenderia logo a cozinhar, porque na semana que vem vou subir a montanha...
Mal terminou de falar, ouviu batidas na porta. Xu Changsheng estranhou:
— Tão tarde, não deveria ter visitas aqui na montanha. Deve ser algum vizinho antigo. Senhorita Yu, recolha a louça, vou abrir a porta.
Yan Yu fez beicinho:
— Por que eu? Combinamos que, se te ofereço bife, o resto é por sua conta...
— Ora, isso faz parte da vida comum! Além disso, não é só recolher, lave tudo na cozinha, para usar depois.
Xu Changsheng falou sorrindo, indo em direção ao portão. Quem seria a essa hora?