Capítulo Trinta e Sete: O Caso Insólito
Atualmente, restam apenas algumas dezenas de famílias no alto do Monte Hufen, o que faz com que o lugar pareça desolado; por isso, até uma simples brincadeira de Xu Changsheng fazia com que Wang Qiang, o velho policial, sentisse um arrepio na nuca.
Porém, ao pé da montanha, a antiga estrada de Hufen foi transformada numa rua vibrante de vida noturna, repleta de bares, casas de chá e casas noturnas que se amontoam umas às outras, formando um cenário de efêmero esplendor mundano.
Aquele era o território de Wang Qiang. Primeiro, ele despachou o outro policial e, em seguida, conduziu Xu Changsheng a um reservado em um bar mais tranquilo, onde, com a experiência de quem conhece o lugar, pediu duas taças de vinho tinto e um prato de amendoins e petiscos. Depois, acenou para o garçom se retirar e, abaixando a voz, disse:
— Aqui o isolamento acústico é bom, podemos falar sem medo de sermos ouvidos. Este é o meu território, a segurança é garantida.
Xu Changsheng assentiu. Quanto mais cauteloso Wang Qiang se mostrava, mais sua curiosidade aumentava.
— Pode beber? — perguntou Wang Qiang, pois, aos seus olhos, Xu Changsheng já não era mais uma pessoa comum. Pessoas desse tipo, geralmente, têm regras e costumes estranhos, por isso ele precisava perguntar. Na presença de Xu Changsheng, Wang Qiang até se tornava um pouco contido.
Sempre que se lembrava da noite no templo da terra, quando Xu Changsheng parecia envolto em relâmpagos, Wang Qiang sentia um calafrio profundo. Diante daquele jovem, sentia-se desconfortável, como se não pudesse agir naturalmente.
— Fique à vontade. Só não fumo, do resto não tenho proibições. Então, Wang, pode tentar me corromper à vontade...
Wang Qiang riu:
— Você nem é funcionário público, vai falar de corrupção por quê? Aliás, Chang Wei mudou muito depois de participar daquele programa com você. Antes, ele vivia me desafiando, nunca fomos amigos. Mas agora, ele me trata com respeito, me chama de irmão Wang, age como se quisesse ser meu braço direito. Estou até surpreso. Xu, foi você que conversou com ele?
— Falamos algumas coisas, mas Chang Wei é um bom rapaz: capaz, trabalhador, econômico. Não queria ver ele se perder, insistindo no caminho errado.
Wang Qiang citou Chang Wei, mas Xu Changsheng não se surpreendeu. Brincando com a taça de vinho, chamou Chang Wei de “jovem” mesmo sendo quase da mesma idade, como se fosse natural. Falou com tanta tranquilidade que Wang Qiang achou perfeitamente razoável.
— Disse a ele para não competir mais com você. Você nasceu com sorte, é um daqueles que parecem ter escolhido bem o momento de vir ao mundo. Competir com você é lutar para perder. Ele entendeu logo o recado; agora quer ser seu amigo, talvez até seu ajudante, para, no futuro, se beneficiar da sua sorte. Mas isso também é bom para você, acaba ganhando um aliado valioso...
Os olhos de Wang Qiang brilharam:
— Então, sorte existe mesmo? Até onde você acha que posso chegar?
— Sorte existe, sim. Para taoístas e budistas, isso não importa muito, mas para pessoas comuns é essencial. Embora não seja imutável, quem nasce com sorte tem mais facilidade na vida, precisa se esforçar menos anos do que os outros. Pode parecer superstição, mas veja: algumas pessoas nascem carismáticas, outras impõem respeito naturalmente. Os líderes gostam de promover esse tipo de gente, parece que sempre têm alguém ajudando. Não é esse o seu caso?
Wang Qiang pensou e percebeu que era mesmo verdade. Desde os tempos do exército até sua posição atual, tudo sempre correu bem, sempre havia alguém disposto a ajudá-lo nos momentos decisivos. Nos últimos anos, quando tudo parecia desfavorável, outros já teriam sido enviados para cargos insignificantes, esperando a aposentadoria, mas ele continuava firme.
Quanto mais pensava, mais se sentia impressionado. Não imaginava que fosse tão afortunado assim.
— Quanto ao quão longe pode chegar, isso depende de muitos fatores: sorte é uma coisa, mas o esforço pessoal e as oportunidades também contam. Se não fizer bobagens, o mínimo que te espera é um cargo de chefe distrital; se tiver uma oportunidade fora do comum, pode ir ainda mais longe.
— Sério mesmo!?
Wang Qiang deu uma gargalhada, segurou a mão de Xu Changsheng e disse:
— Irmão Xu, agora percebo que você é meu verdadeiro benfeitor! De hoje em diante, somos irmãos de sangue. Um dia ainda fazemos um juramento, cortamos a cabeça de um galo, bebemos vinho e selamos nossa irmandade, para sempre juntos, na vida e na morte!
Xu Changsheng apenas sorriu, sem dizer nada, olhando para ele com simpatia. Wang Qiang, vendo-o calado, apressou-se a explicar:
— Irmão, não me leve a mal por ter sido reservado antes, mas é que a moça que comprou sua casa é alguém muito importante. Tentei acessar o arquivo dela...
— E conseguiu? — Xu Changsheng se interessou.
— Não tive permissão suficiente.
— E apareceu algum aviso sobre qual nível de permissão seria necessário?
— Nenhum...
Wang Qiang ficou sério:
— Perguntei discretamente a um velho superior, e sabe o que ele disse? Quando o sistema apenas informa falta de permissão, sem dizer qual seria suficiente, é porque se trata de alguém que devemos evitar. Só alguém do mais alto escalão do governo estadual, talvez mais, teria acesso ao arquivo dela...
— Veja só, tão poderosa assim? — Xu Changsheng sorriu enigmaticamente. — Fique tranquilo, Wang, não importa o quão poderosa ela seja, quem manda no estômago dela sou eu.
— Como assim? — Wang Qiang não entendeu.
— Coisas que acontecem sob o mesmo teto, nada de especial. Não precisa se preocupar.
Xu Changsheng sorriu e mudou de assunto:
— Diga, o que a nossa entrada no Templo das Nuvens tem a ver com a polícia? Em que posso te ajudar?
— Procurei você porque preciso de ajuda para investigar um caso estranho...
Wang Qiang pousou a taça, sentou-se direito e olhou para ele com seriedade.
— Caso estranho? Wang, você só pode estar brincando. Agora sou só um vendedor de incensos no Monte Yunlong; semana que vem, entro para o Templo das Nuvens como discípulo leigo da escola Quanzhen. Embora a nossa tradição valorize a prática no mundo, nunca ouvi falar de um taoista que ajuda a polícia a resolver crimes...
Xu Changsheng balançou a cabeça.
— E outra, se eu realmente ajudar, não seria uma humilhação para a polícia de Chudu? Você acha que eu faria uma burrada dessas?
— Irmão Xu, não se apresse em recusar, ouça primeiro o caso. Tenho certeza de que vai te interessar.
Wang Qiang sorriu, seguro de si:
— Desde aquela noite no templo, venho consultando os arquivos de casos não solucionados, tentando descobrir se realmente existem fenômenos inexplicáveis no mundo. Se existem, devem ter deixado registros...
Xu Changsheng se surpreendeu, mas logo entendeu. Depois do choque que sofreu no templo, era natural que Wang Qiang tentasse encontrar provas para negar o que presenciou, mantendo sua visão de mundo intacta. Mas, infelizmente, ele encontrou exatamente o que não queria.
Isso, sim, despertou o interesse de Xu Changsheng, que assentiu:
— Continue.
— Esse caso aconteceu há dezessete anos, e nunca foi resolvido...
Ao mencionar o caso, o rosto de Wang Qiang ficou tenso e sua voz tremia:
— No setor de obstetrícia do Hospital Central de Chudu, todos os recém-nascidos de um dia morreram!
— Todos morreram? — O semblante de Xu Changsheng mudou drasticamente. Como isso seria possível? Nem a medicina moderna, nem mesmo nos tempos antigos, em que parteiras faziam os partos, jamais se ouviu falar de tragédia assim.
— O mais estranho é que houve partos normais e cesáreas, todos sem complicações, nenhum erro médico. Mas todos os bebês, ao nascer, não choravam, não conseguiam respirar... As enfermeiras faziam de tudo, batiam neles, mas não conseguiam fazê-los chorar...
— O que você disse!? — Xu Changsheng se levantou de repente, fitando Wang Qiang com intensidade. — E qual foi o resultado da investigação?
Para a maioria, isso talvez não significasse nada, mas para um praticante como Xu Changsheng era alarmante: quando uma criança nasce, recebe uma centelha espiritual inata, que, ao entrar em contato com o mundo, se transforma no “espírito adquirido”, que carrega o carma de vidas passadas e é a verdadeira essência que transmigra entre as existências.
Se ao nascerem não choraram e morreram por não conseguir respirar, é porque a centelha espiritual foi bloqueada por alguma força misteriosa. Sem ela, não se forma o espírito adquirido e a vida não se sustenta. Se isso foi provocado por alguém, é aterrorizante!
— Nada foi descoberto. O hospital assumiu a culpa. Médicos e enfermeiras foram suspensos, duas enfermeiras se suicidaram...
— E a Associação Taoísta? E a Associação Budista? A polícia não os notificou?
— Irmão Xu, isso foi no final do século passado... Você sabe que, naquela época, a polícia nunca faria isso. E ainda era fácil controlar a opinião pública, então o caso foi abafado.
— Mas... — Wang Qiang olhou fixamente para Xu Changsheng. — Houve uma exceção. Uma menina. O pai morreu antes do nascimento, a mãe morreu no parto, então ela nasceu órfã. Naquele dia, todos os bebês morreram, exceto ela, que chorou no último instante... Hoje, ela tem dezessete anos.
— Ela está em Chudu? — Ao ouvir isso, Xu Changsheng sentiu o coração acelerar.
— Você a conhece. É a jovem monja do Templo das Nuvens, Qingping...