Capítulo Dezenove: Tribulação do Trovão?
Sobre o pequeno templo de barro, trovões rugiam com fúria e relâmpagos caíam como cascatas, evocando a lenda das tribulações celestiais dos imortais. Sentado rígido na cadeira de madeira, Amarelo Fortão tremia como um pintinho diante de uma doninha, tomado de terror. Entre suas sobrancelhas, a imagem da velha raposa oscilava, revelando uma expressão de puro pânico.
— Jovem sacerdote, jovem sacerdote... Você não disse que não fizemos nada de errado? Por que então os trovões ainda querem nos atingir? Salve-nos, por favor, estamos suplicando! Só temos pouco mais de cem anos, ainda somos jovens, nem mesmo roubamos uma galinha! Não queremos morrer!
Um estrondo cortou o ar. Um raio perfurou o teto do templo, atingindo o chão ao lado de Amarelo Fortão e abrindo uma cratera profunda no piso.
Os internos do sanatório gritavam em pânico, correndo de um lado para outro, até que Wang Qiang bradou:
— Quem não quer morrer, deite-se no chão, mãos sobre a cabeça!
Alguns, como que iluminados, entenderam de imediato, deitaram-se com o rosto no chão e as mãos protegendo a cabeça. O Louco do Teatro, porém, permaneceu de pé, rindo alto, recitando versos em tom dramático:
— Oh, o poder celeste é avassalador, varre toda a maldade! Que deleite! Ah, ahahah, ahahaha!
Wang Qiang praguejou e, num movimento ágil, jogou-o ao chão, algemando-o.
Na verdade, aquele sujeito era ainda mais perigoso que Amarelo Fortão, possuído pelo espírito da raposa; controlá-lo era a escolha mais sensata.
Depois de dominar os internos, Wang Qiang também se deitou, protegendo a cabeça no lugar que lhe pareceu mais seguro.
O estrondo dos trovões se intensificava, cada vez mais próximo, até que um raio sacudiu o telhado do templo, estilhaçando dezenas de telhas.
Um relâmpago alvo caiu, rolou pelo chão e transformou-se numa esfera elétrica, avançando em direção à velha raposa escondida no corpo de Amarelo Fortão.
Diz-se que o espírito sombrio não nasce de modo natural, mas é fruto de cultivo. Entre budistas e taoistas há métodos legítimos para condensar esses espíritos, tornando-os invisíveis. Além disso, quem cultiva o coração no mundo, acumulando méritos, pode até adiar a chegada das tribulações celestiais. Contudo, criaturas como a velha raposa não são humanas; embora tenham recebido ensinamentos especiais, passaram séculos apenas em cultivo pessoal, sem praticar boas ações entre os homens. Faltava-lhe metade do caminho, e agora não havia como evitar o julgamento dos céus.
A majestade celestial era verdadeiramente assustadora, como se as divindades das tempestades pairassem sobre o templo.
Todos estavam em pânico, menos Xu Changsheng, que permanecia impassível, imóvel, como se meditasse.
Era a primeira vez que ele, através do orifício da senda, contemplava verdadeiramente o poder do céu e da terra.
Por esse portal, enxergava o mundo como uma infinidade de quadros. Pequenos pontos cinzentos se aglomeravam nesses espaços, especialmente ao redor da velha raposa, onde a densidade era maior. E as energias da tempestade, atraídas por esses pontos, convergiam para lá.
A velha raposa, lutando desesperadamente pelo controle do corpo de Amarelo Fortão, conseguiu escapar do raio, mas o medo fez com que dispersasse ainda mais pontos cinzentos, desviando parte da eletricidade, que caía em lugares aleatórios. Logo, o chão de tijolos do templo estava repleto de crateras de diferentes tamanhos.
"Que desastre! A velha raposa quase completou a formação do espírito, mas não tem o coração de um verdadeiro cultivador, nem conhece métodos para se esquivar das tribulações. Se continuar fugindo de forma desordenada, não só será atingida fatalmente, como pode acabar causando tragédias entre inocentes", pensou Xu Changsheng.
Ele rangeu os dentes e, cambaleando, deu uma dúzia de passos em direção a Amarelo Fortão. Apesar do aparente descontrole, cada passo era cuidadosamente calculado para evitar as zonas de maior concentração dos pontos cinzentos. O telhado do templo já estava quase inteiramente aberto por relâmpagos, que passavam rente a ele, mas nenhum conseguia atingi-lo.
No meio do mar de trovões e luz, Xu Changsheng parecia um ser celestial.
Aquele rapaz...
Wang Qiang, deitado sob a mesa de oferendas, olhava boquiaberto para Xu Changsheng, que avançava passo a passo na direção de Amarelo Fortão, envolto em clarões.
— Por que olha para mim? Um comandante da divisão de crimes da polícia de Chudu, escondido debaixo da mesa, que vergonha se isso se espalhar! Vá logo salvar seus colegas. Eles não estão aqui, devem estar presos em algum lugar próximo...
Enquanto instruía Wang Qiang a salvar Chang Wei e os demais, Xu Changsheng se aproximou de Amarelo Fortão, abriu de súbito o guarda-chuva preto que carregava e ordenou:
— Venha logo para baixo do guarda-chuva, eu o levo daqui!
— Nós... nós não conseguimos sair...
A velha raposa tornou a emergir entre as sobrancelhas de Amarelo Fortão, tomada de pânico.
— Saber entrar, mas não sair? Francamente...
Xu Changsheng balançou levemente a cabeça e, de repente, bateu com a palma da mão sobre o ponto vital de Amarelo Fortão.
— Se não sair agora, vai esperar o quê?
***
Na verdade, Chang Wei já tinha recobrado a consciência há algum tempo, mas preferia nunca ter acordado.
O famoso detetive de elite da polícia de Chudu, Chang Wei, planejara tudo com cuidado, ansioso por uma grande vitória, confiante em sua habilidade de humilhar Wang Qiang, pronto para inscrever seu nome na história. Mas o resultado...
Chang Sir agora era apenas um jovem indefeso, vestido apenas com uma pequena peça de roupa azul e branca, de estilo mediterrâneo, amarrado com cordas e pendurado de cabeça para baixo num galho torto atrás do templo.
Era uma cena tão constrangedora quanto provocante...
A seus pés, três colegas e o diretor Zhou estavam igualmente amarrados, despidos, deitados à sombra da árvore. Chang Wei só queria morrer de vergonha.
Até então, ele não entendia como fora derrotado. Aqueles loucos não seguiam as regras!
Ele, seus colegas e o diretor Zhou haviam acabado de entrar no templo. Zhou nem teve tempo de usar sua eloquência, e os policiais nem puderam sacar as armas de choque — de repente, tudo ficou preto e branco...
Depois, nada mais.
Ao abrir os olhos, Chang Wei se deparou com a cena que jamais esqueceria: noite cerrada, chuva torrencial, o corpo nu exposto ao frio, destacado sob os relâmpagos que envolviam o templo.
Nem sequer tinha ânimo para se perguntar por que tantos relâmpagos caíam ali. Queria apenas que um deles o fulminasse de vez.
Já era noite, a tempestade não cessava, trovões e relâmpagos não davam trégua. O que estariam fazendo os colegas lá fora? Não importava, só não queria que viessem resgatá-los!
Esse era seu único desejo agora.
— Capitão Chang, está bem? Céus! O que aconteceu aqui? Esses loucos... como puderam tratar nossos colegas assim?!
Wang Qiang, debaixo de um guarda-chuva preto, atravessou a chuva e chegou sob a velha árvore...