Capítulo Cem: Como Segurar na Palma da Mão – Primeira Parte

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 2353 palavras 2026-02-07 13:18:57

— Ordem! —

O falso monge murmurava palavras ininteligíveis, depois lançou um talismã, que se transformou em uma chama no ar, atingindo um dos pinheiros baixos do outro lado. O tronco ficou marcado por uma mancha negra e cinzenta, e as agulhas caíram, cobrindo o chão.

Xu Changsheng ficou levemente surpreso. Aquele velho farsante estava a anos-luz de distância de ativar os meridianos extraordinários, mas mesmo assim o talismã lançado carregava um leve traço de poder místico. A seita Zhengyi transmitia seus rituais e talismãs de mestre para discípulo; só o poder daquelas insígnias já era notável, o que explicava seu sucesso e a razão de ser hoje a mais proeminente ordem taoista.

— Velho, seus talismãs estão muito bem desenhados, até melhores que os meus, mas confiar apenas no poder do talismã não é suficiente. A posição da Zhengyi hoje não vem só de artefatos secretos ou da proteção dos antepassados. Muitos taoistas de grande realização surgiram ao longo dos séculos. Por isso, não se pode descuidar da meditação diária e do cultivo do qi. Se os doze meridianos principais não estão abertos e os oito vasos extraordinários não circulam, nada disso será duradouro.

O falso monge ia concordar, mas Hei San, que estava meditando ao lado, fez uma careta e disse:

— Falar é fácil. Já faz mais de duas semanas e, tirando um fiapo de energia, não tive progresso algum. Minhas pernas estão dormentes...

Xu, acho melhor desistir. O Templo das Nuvens Auspiciosas já tem você, o pequeno mestre, e o velho com seus talismãs rabiscados, já é o bastante. Vou deixar pra lá. Eu vivo da minha aparência, não de habilidades reais!

— Cai fora! Isso é coisa de homem grande dizer? Viver da beleza dura quanto tempo? Agora você é jovem e bonito, mas quer virar um velho bonito no futuro?

Xu Changsheng ralhou, mas sorria:

— O mestre não é só meu, o maior desejo dele é ver o Templo das Nuvens Auspiciosas tornar-se famoso em todo o mundo e trazer prosperidade ao Tao. Como discípulos, é nosso dever ajudá-lo a realizar esse sonho.

Quando o templo crescer, não pode ficar limitado só a Chu Du. Teremos filiais em muitos lugares, e vocês precisarão comandar cada uma delas. Sem habilidades reais, como irão sustentar a reputação?

O falso monge sorriu amargo:

— Entendemos sua intenção, irmão, mas trilhar o caminho do Tao não é simples assim.

É estranho, somos amigos há anos e todos sabemos que você era um homem comum. Em perspicácia e inteligência, todos reconhecemos sua superioridade, mas em estudos taoistas, não era melhor que nós. Como, de repente, virou pequeno mestre, ganhou poderes sobrenaturais e até fez do prédio seu servo? Sem uma sorte dessas, como poderíamos ter sucesso?

— Tem razão, estou apressando as coisas. Mas fiquem tranquilos, não esqueci do seu progresso nem do de Qingping, só estou esperando o momento certo...

Xu Changsheng assentiu. Em tempos de decadência espiritual, estabelecer uma verdadeira base taoista era quase impossível; caso contrário, o mestre não teria passado a vida inteira sem sequer adentrar as portas do Tao.

Para seus amigos e Qingping alcançarem esse marco, métodos comuns não bastariam. Mas ainda não tinha plena confiança nem os recursos necessários — sem poder e influência, não conseguiria.

Hei San ficou mais um tempo sentado, depois levantou-se, rangendo os dentes:

— Não dá mais, Xu, minhas pernas estão dormentes. Vou até o salão principal, buscar o Gordo. Ele está quase desmaiando, não passa de um porco tarado ultimamente…

O falso monge concordou:

— Isso, faça-o treinar! Tanta experiência de vida e ainda se derrete por qualquer mulher, uma vergonha para os Quatro Bravos de Yunlongshan. Se ele se dá esse luxo, nós não podemos. E você, Xu, se perceber algo errado, mande logo essa tal de Hu Ziqing embora. Essa mulher não é simples.

Xu Changsheng apenas balançou a cabeça e sorriu em silêncio.

— Por que balança a cabeça, Xu? Todos sabemos de sua habilidade de observar o mundo do alto, mas não me diga que não analisou essa mulher? Eu já vi todo tipo de mulher e percebo de longe que ela não é uma simples devota em busca de cultivo. O motivo dela vir ao templo me cheira a segundas intenções.

Hei San, impaciente, ia atrás do Magro Yang, mas Xu Changsheng o deteve:

— Velho, San, não culpem o Magro Yang. Cada um tem sua pedra no sapato, pode chamar de sina sentimental — se dá errado, vira inimizade; se dá certo, serão companheiros. Um veterano não pode se apaixonar à primeira vista? No amor, não só as mulheres perdem a razão, os homens também.

Velho, você busca o Tao, mas quem garante que no futuro não vai se apaixonar? Será melhor que o Magro Yang? E você, San, viveu de prazeres até agora, não sabe o que é fome de amor. Esqueceu que é o primeiro amor do Magro Yang? Seja sucesso ou fracasso, é um processo que ele precisa passar, também é uma forma de cultivo. Interferir seria errado.

— Xu, não teme que o Magro Yang saia machucado? E se os dois realmente ficarem juntos, não te preocupa a origem misteriosa da Hu Ziqing? Ela pode ser perigosa para o templo.

— Se ele se magoar por amor, não é o Magro Yang que conheço. Com seu temperamento, basta um frango assado e um pouco de vinho para se animar. Quanto à origem dela... se ela realmente ficar com o Magro Yang, passa a ser dos nossos, e eu saberei como conquistá-la por completo. Aí, quem enviou a Hu Ziqing sairá perdendo em todos os sentidos!

Xu Changsheng sorriu levemente:

— Não esqueçam que agora me chamam de “pequeno mestre”, e não é à toa!

Hei San entendeu, levantou o polegar:

— Agora está claro, Xu. Você está cozinhando a Hu Ziqing para o Magro Yang devorá-la de vez? Você é mesmo astuto!

— Quero que “certos indivíduos” entendam que o pequeno mestre do Templo das Nuvens Auspiciosas nunca cede à força, só se alia por boa vontade. Querem me controlar como fazem com os outros? Ora essa!

Embora Hu Ziqing também tivesse apoio de pessoas influentes, em tempos de decadência espiritual, esses “mestres” com verdadeiro poder eram raríssimos, quanto mais alguém como Xu Changsheng, que já começava a manifestar dons extraordinários.

Hu Ziqing se achava cuidadosa, mas não sabia que todos os seus passos eram vigiados por Xu Changsheng, velho lobo de estrada. Se não levasse em conta quem a apoiava, e não tivesse pena do Gordo, ela já teria sido enxotada do templo há tempos.

Xu Changsheng já tinha tudo sob controle; ela era apenas uma macaca em sua palma...

O falso monge mudou de expressão:

— Xu, quando fala de “certos indivíduos”, não está se referindo àqueles, está? Se for mesmo, tenha muito cuidado...

Ele era o mais antigo entre eles nos círculos taoistas e discípulo legítimo da Zhengyi; sabia bem de onde vinha Hu Ziqing.

Xu Changsheng riu, e de repente fez um gesto com a mão. A espada de madeira de pêssego do falso monge voou até ele; com um leve movimento dos dedos, a espada brilhou em amarelo e cortou um pinheiro ao meio, deixando o corte chamuscado, como se atingido por um raio.

— Velho, esse truque simples de controlar a espada aprendi com o prédio. O que acha?