Capítulo Quarenta e Quatro: O Segredo de Yan Yu – Primeira Parte
A história de Yan Yu parecia inacreditável para pessoas comuns. Não importava quantas explicações fossem dadas, sempre haveria perguntas sem fim, por isso Xu Changsheng nem se dava ao trabalho de explicar tudo para Hei San, Shou Yang e os outros. Qingpinger, porém, era uma garota de uma simplicidade desconcertante. Bastou Xu Changsheng contar uma vez para ela assentir com ênfase: “Ah, então foi isso, irmão Xu, sua casa foi vendida? Que pena! Ah, irmão Xu, quando você vai trazer aquela raposinha vermelha aqui no templo? Estou ansiosa...”
Xu Changsheng, com uma mão no estômago e outra afagando a cabeça de Qingpinger, respondeu: “Assim que tiver tempo, trago a raposinha para você ver. Agora, Qingpinger, o irmão Xu vai sair, mas antes, pegue um pão grande para mim, para matar a fome. Quando eu chegar onde a senhorita Yu está, vai ter muita comida gostosa. O que você quer comer? Peço para ela comprar para você.”
Qingpinger ficou animadíssima. Não estranhou o fato daquela mulher, que dizia estar morrendo de fome, ter tanta comida. Levantou a mãozinha e disse: “Sério? Então eu quero um sorvete Häagen-Dazs... de morango! Quero dois! Mas esse sorvete é muito caro, pode ser?”
Era raro Qingpinger descer a montanha. Da última vez que foi ao centro da cidade com o mestre, bastou algumas voltas para atrair a atenção de muitos curiosos, assustando a menina, que não se lembrava de mais nada, apenas que o sorvete Häagen-Dazs era o mais gostoso. Também se recordava do olhar de sofrimento do mestre ao vê-la comer, pois um só custava mais de cem yuan, caro demais. Desde então, Qingpinger decidiu: quando tivesse dinheiro, compraria um para o mestre provar também, pois da última vez, ele claramente ficou com água na boca!
Até agora, Qingpinger ainda não tinha dinheiro, mas tudo bem, pedir para o irmão Xu era o mesmo que ter.
No coração da pequena órfã, ela já tinha dois parentes: o mestre que a criou e o irmão Xu. Não sabia explicar por que, mas mesmo tendo o irmão Shou Yang, o irmão Hei San e o irmão falso-taoísta, era com o irmão Xu que se sentia mais próxima e à vontade para se maniar.
O Monte Dragão ficava perto do Monte Hu Fen. Xu Changsheng correu até lá segurando o pão, comendo enquanto andava apressado, chamando a atenção de muitas moças e donas de casa: “Que homem vigoroso! Até comendo pão ele é charmoso!”
Desde que teve uma súbita iluminação e avançou nos doze meridianos, Xu Changsheng passou a exalar uma energia diferente, embora parecesse comum por fora. Seu corpo começava a se transformar em algo além do humano, o que o tornava atraente para pessoas comuns. Até comendo pão, conseguia hipnotizar as mulheres; afinal, em casa, o marido comia como um gato ou cachorro, nada parecido com aquele jovem cheio de ímpeto.
“Changsheng, voltou! Esses dias você sumiu, viajou? E em casa apareceu uma moça linda, ela é sua namorada ou...? O quê? Ela comprou sua casa, o velho Xu saiu pelo mundo com o dinheiro junto com a dona Wang? Olha só... seu pai sempre foi esperto, desde jovem era levado, ficou velho e continua cheio de energia...”
Nada escapa aos vizinhos. Com Yan Yu, aquela bela moça, aparecendo todos os dias na casa dos Xu, era impossível ninguém perceber. Ainda mais porque ela era mesmo um furacão: só ontem, quase pôs fogo na casa ao tentar cozinhar, quase chamou os bombeiros e agitou todo o bairro.
Xu Changsheng foi cumprimentando todos com um sorriso amarelo, até que, já irritado, bateu à porta do pátio. Não estava nem aí se Yan Yu ia morrer de fome. Se não fosse pela lembrança do banquete de Chu Feng Lou que aquela rica avoada prometera, ou pela situação financeira apertada do Templo Xiangyun, ele jamais teria voltado ali.
No dia em que partiu, ensinou a ela o básico de cozinha, mas quem diria que ela seria tão desastrada?
Bastou uma batida e a porta se abriu rapidamente. Yan Yu saiu como um furacão, o rosto radiante ao ver Xu Changsheng: “Xu, você finalmente veio! Eu sabia que, ao ver minha mensagem no WeChat, ia vir me salvar!”
A pequena raposa vermelha também pulou do colo de Yan Yu, querendo enfiar-se nas axilas de Xu Changsheng, sendo afastada com um tapa carinhoso na cabeça. A raposinha também emagrecera, com os grandes olhos verdes brilhando de fome, não muito diferente do próprio Xu Changsheng.
“Não exagere, ninguém morre de fome assim. Ops, desculpe, lá vou eu ser grosseiro de novo. O que quero dizer é: você tem dinheiro, não precisa passar fome à toa, preferindo gastar com minha comida e ficar sem comer. Isso é coisa de... bem, você é mesmo uma ‘heroína altruísta’, não é?”
Xu Changsheng pegou a raposa no colo: “Olha só como a Honghong está magra.”
Yan Yu o encarou, aborrecida: “Eu também emagreci, não vi você dizer nada.”
“Você é diferente, faz isso por escolha, não merece pena. Vamos logo, estou com fome. Você já conhece minhas regras na cozinha...”
“Sei, sei. O banquete do Chu Feng Lou e os bifes da Jiamei já estão prontos para você. Coma, depois faz comida para mim e para a Honghong!”
“Olha só...”
Xu Changsheng olhou e viu que o banquete do Chu Feng Lou já estava montado no quintal, e ainda por cima era um banquete de aleta de tubarão! Ficou satisfeito, pensando que ao menos ela sabia agradar. Perguntou à raposa: “Ela não come, você também não?”
Honghong olhou para ele com os olhinhos negros, choramingou duas vezes e disparou para a cozinha. Logo voltou trazendo um coelho selvagem, deixou aos pés de Xu Changsheng e levantou o focinho, esperando ansiosa.
“Ela pegou ontem na montanha. Está esperando você voltar para assar para ela...” explicou Yan Yu sorrindo.
“Vocês duas são mesmo um caso perdido.” Xu Changsheng balançou a cabeça, sentou-se à mesa e começou a devorar tudo.
As duas raposas, uma grande e outra pequena, observavam Xu Changsheng devorar o banquete. Honghong tentava várias vezes se aproximar com as patinhas, mas, ao olhar para a dona, se conteve.
O coelho era só um pretexto; a raposinha era esperta e sabia que dividir as dificuldades com a dona era obrigação de todo animal de estimação.
Felizmente, Xu Changsheng comia rápido. Quando limpou toda a mesa, olhou para as duas raposas famintas e, um pouco sem graça, sorriu: “Esperem um pouco.” Entrou na cozinha e, logo depois, o cheiro de comida espalhou-se: era o legítimo macarrão de feijão preto e coelho assado.
Com o macarrão, cuidadosamente servido com oito acompanhamentos diferentes, Yan Yu quase chorou de emoção. Havia quanto tempo não comia um autêntico macarrão de Pequim? Esse rapaz sempre a enganava com macarrão comum, mas hoje, finalmente, mostrou compaixão. Não pensou duas vezes: encheu a boca, fazendo questão de produzir barulho ao comer, só assim se sentia satisfeita!
A pequena Honghong segurava o coelho assado com as patinhas, comendo e ao mesmo tempo olhando ao redor, rosnando para proteger sua refeição. Não adiantava Xu Changsheng explicar que ninguém ia roubar seu coelho!
As duas raposas devoravam a comida com energia, formando um quadro pitoresco.
Satisfeita, Yan Yu, de bom humor, pulou no balanço que armara sob a parreira nos últimos dias, uma perna dobrada, outra esticada, e sorriu para Xu Changsheng: “Você cozinha muito bem, seu macarrão de feijão preto já rivaliza com as melhores casas de Pequim. Decidi: de agora em diante, você vai cozinhar para mim...”
“Nem sonhe.”
Yan Yu, no balanço, estava deslumbrante, como uma pintura de uma dama da dinastia Tang. Mas Xu Changsheng só lançou dois olhares e balançou a cabeça: “Impossível, já te disse. Agora sou um praticante, vou passar a maior parte do tempo nas montanhas. Hoje só vim porque você estava realmente faminta, não vou poder vir sempre.”
“Eu não como de graça, o banquete do Chu Feng Lou é muito mais caro que seu macarrão.” Yan Yu sorria astutamente, cada vez mais parecida com uma raposa.
“Mesmo assim não dá...”
Hoje, tendo alcançado um novo estágio em sua prática, estava faminto, o templo sem dinheiro para bancar banquetes, então abriu uma exceção. Não podia repetir isso todo dia, não era porco!
“Se eu digo que vai ser assim, vai ser.” Yan Yu sorriu, mas seu olhar ficou mais profundo e brincalhão: “De qualquer forma, não falta muito tempo. Já vou te avisando: Xu Changsheng... aquele velho Daoísta não te contou quem é o novo abade do templo? Ah, claro... talvez ele mesmo não saiba, foi tudo muito repentino, com o status dele, duvido que tenha recebido aviso prévio...”
“Ah, até parece que meu mestre não tem status... você fala como se...”
O coração de Xu Changsheng disparou e ele olhou para Yan Yu assustado. Não pode ser! Será que estou pensando demais?