Capítulo Noventa e Oito: O Método de Negócios de Qingping – Terceira Parte
Na verdade, Qingping era uma menina muito orgulhosa. O irmão mais velho Xu sempre se preocupava que ela, sendo tão ingênua, não pudesse assumir grandes responsabilidades, então todo dia a fazia praticar todo tipo de coisas estranhas, mas nunca lhe atribuía nenhuma função. Os outros discípulos morriam de inveja, mas, para ela, isso era sinal de sua própria incapacidade, e seu orgulho era ferido.
Ela não tinha coragem de importunar o irmão Xu, então, todos os dias, corria atrás de Yang Magro e Hei San. O falso monge agora se ocupava apenas de desenhar talismãs para os devotos e peregrinos, algo que ela não achava interessante, mas adorava ouvir Yang Magro e Hei San interpretarem os talismãs das pessoas. Aqueles dois irmãos eram muito divertidos e, sempre que explicavam um talismã, ainda contavam histórias fascinantes.
No começo, Yang Magro e Hei San recebiam a pequena Qingping com muito entusiasmo, mas, aos poucos, começaram a se sentir em apuros.
Interpretar talismãs dependia muito da pessoa. Se não fosse um mestre do nível do irmão Xu, era preciso adaptar-se ao interlocutor: havia um jeito para os velhos, outro para jovens, e diferente ainda para viúvas ou viúvos. Especialmente Hei San, que, ao atender madames ricas que vinham flertar sob o pretexto de consultar talismãs, precisava às vezes contar histórias mais picantes. As madames, animadas, logo deixavam uma boa doação para o templo.
Mas como explicar essas coisas na frente de Qingping? Se o irmão Xu soubesse, brigaria com eles! Precisavam encontrar uma solução.
Conversando, os dois amigos deram a Qingping uma tarefa nova: sugeriram que ela vendesse gelatina de feijão em frente ao Salão de Zhenwu.
Agora o templo estava cheio de gente, entre devotos residindo para cultivo espiritual, fiéis trazendo oferendas e, principalmente, turistas. Por isso, era preciso vender alguns alimentos simples.
A gelatina de feijão do Templo das Nuvens Auspiciosas era muito famosa, tradição trazida pelo velho mestre Yizhen. Depois que ele se foi, o prato ficou um tempo fora do cardápio do templo. Qingping, como muitas meninas, era gulosa e também muito aplicada. Quando o mestre Yizhen partiu, levou consigo a discípula que fazia a melhor gelatina, então Yang Magro lembrou-se disso e passou essa tarefa gloriosa – e difícil – para Qingping.
Encontrando uma função, Qingping ficou radiante. Depois de uns dez dias, percebeu que o irmão Xu não se opunha, então se dedicou ainda mais.
Agora, a barraquinha de gelatina da jovem monja era uma atração do templo. Não só os mais velhos, mas também muitos jovens, atraídos pelas redes sociais, vinham provar e elogiavam sem parar. A fama da “Monja Gelatina” do Templo das Nuvens Auspiciosas crescia, ameaçando até substituir Xu Changsheng como o novo “queridinho” do círculo.
Era mais um dia que começava. Qingping levantou-se cedo e, seguindo as instruções de Xu Changsheng, meditou, cultivando o qi enquanto observava esterco de vaca. Só parou quando quase não aguentava mais o cheiro e, então, Xu teve piedade e deixou-a descer até o Monte das Nuvens Auspiciosas. Rapidamente preparou a gelatina com os ingredientes que deixara prontos no dia anterior, comeu uma tigela e instalou-se animada ao lado da barraca, esperando os clientes.
O dinheiro que ganhava com a gelatina podia guardar metade como mesada. Qingping já era, para todos os efeitos, uma pequena rica: quando tinha vontade de tomar um sorvete Häagen-Dazs, comprava logo uma dúzia de picolés, dividindo com todos os irmãos do templo – até Yan Yu, que ultimamente quase não aparecia, recebia sua parte.
Nessas horas, a pequena raposa vermelha, Honghong, que ninguém sabia onde ficava durante o dia, surgia de repente e sentava-se ao lado de Qingping. Quando turistas ou devotos passavam, estendia as patinhas e miava, como se estivesse ajudando a promover a gelatina. O público achava graça e, mesmo quem não queria comer, acabava provando.
Mas Qingping, nos negócios, era um pouco avoada e péssima em matemática. A gelatina custava quatro moedas por tigela, cada uma cortada em dezoito tiras, mas ela sempre acabava dando duas ou três tiras a mais. Esse pequeno “erro” ninguém nunca apontava, o que fazia sua barraca ficar cada vez mais popular.
Naquela manhã, a barraca mal abrira e já metade da gelatina havia sido vendida. Qingping, de olhos semicerrados, agachada ao lado da banca, contava e recontava seu dinheiro, mesmo já sabendo a quantia certa, só para ter a sensação de segurança – algo essencial para alguém que, como ela, crescera órfã.
— Menina, desde que cheguei aqui, você já contou esse dinheiro três vezes. Vai continuar contando ou vai atender os clientes? — perguntou uma mulher diante da barraca.
Ela era de feições marcantes, porte distinto e voz muito agradável, clara, melodiosa, mas com uma força difícil de descrever, como se suas palavras não admitissem contestação.
— Ah, irmã, quer gelatina? Quatro moedas a tigela, preciso receber antes — disse Qingping, estendendo a mãozinha branca, olhando para a mulher cheia de esperança.
— Haha, claro, pode caprichar na pimenta.
A mulher sorriu, acariciou a cabeça da raposinha Honghong e colocou cinco moedas na mão de Qingping:
— Fique com o troco, pequena.
— Não pode, só recebo quatro! — insistiu Qingping, devolvendo uma moeda junto com a tigela de gelatina pronta. — Irmã, quer vinagre também?
A mulher balançou a cabeça, provou uma colherada e seus olhos brilharam:
— Que delícia, você tem mesmo talento! Aposto que o movimento está ótimo. O templo parece muito mais movimentado do que dias atrás.
— Claro! Agora tudo mudou. Antes quase não vinha ninguém, agora temos mais de mil pessoas por dia. O irmão Xu disse que, depois da reforma do templo, vai vir ainda mais gente. Irmã, quer mais óleo de pimenta? O meu não é apimentado, é gostoso!
— Assim está ótimo. Pequena, como se chama? Como entrou tão jovem para a ordem?
— Me chamo Qingping, não tenho pais, fui acolhida pelo mestre. Depois, quando a irmã Yan Yu virou abadesa, o mestre se foi... Mas, agora, quem manda mesmo é o irmão Xu.
— Qingping, que nome bonito.
Ao saber que Qingping era órfã, um olhar de tristeza passou pelos olhos da mulher. Ela se sentiu um pouco mal por estar tentando tirar informações daquela monja tão inocente, mas precisava cumprir sua missão. Os monges que desenhavam talismãs eram todos espertos, só aquela menina parecia confiável — e distraída.
— Qingping, esse irmão Xu de quem fala é o mestre Xu Changsheng, não é? Ele está famoso na internet, dizem que até o presidente Liu da Lianhong veio visitá-lo. Me conta, ele é mesmo tão poderoso?
— Com certeza! Até o mestre me mandou aprender com o irmão Xu. Sabe, irmã, eu acordo cedinho todo dia e vou para o fundo do templo treinar. Se não faço tudo, levo bronca do irmão Xu.
— Sério? E o que ele te ensina, pode contar para mim? — os olhos da mulher brilharam.
— Bem, todo dia eu medito, cultivo o qi e fico olhando esterco de vaca. Um montão!
— Esterco... de vaca?
A mulher, que saboreava a gelatina, ficou enojada e quase cuspiu tudo. Que tipo de excêntrico era esse Xu Changsheng, obrigando uma menina tão ingênua a encarar montes de esterco toda manhã?
— Qingping, com quem está conversando aí?
Yang Magro tinha acabado de trocar de turno com Hei San. Viu de longe uma jovem sentada na barraca conversando sem parar com Qingping e sentiu algo estranho. Apressou-se para ver o que estava acontecendo.