Capítulo Vinte e Oito: Os Acontecimentos Sob o Mesmo Teto

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 2978 palavras 2026-02-07 13:16:23

Na velha casa nas montanhas, envolta por rajadas de vento frio, de repente se ouviu uma voz feminina suave e espectral. Parecia até cena daqueles contos fantasmagóricos! Até alguém experiente como Xu Changsheng levou um susto, quase engasgando.

Ao abrir a janela, viu Yan Yu com as mãos apoiadas no parapeito, olhando para dentro com olhos ansiosos. Seu rosto, já naturalmente alvo, sob a luz da lua parecia de um branco nevado – assustador de tão pálido!

Xu Changsheng, sem saber o que dizer, murmurou: “Senhorita Yan, ficar espreitando pela janela dos outros não é um bom hábito, sabia? Olhe só este lugar, este cenário, esta hora... Gente assustando gente pode até matar do coração! Eu entendo, você, moça da cidade grande, chegou de repente nesta velha casa nas montanhas, cheia de sombras. De dia ainda vai, mas à noite é normal sentir medo. Não se preocupe, com o tempo se acostuma...”

Yan Yu não tirava os olhos de sua marmita de inox dos anos noventa: “Senhor Xu, está jantando?”

“Ah?”

Xu Changsheng olhou para ela de cima a baixo. Era óbvio que estava comendo, até uma criança perceberia, mas por educação respondeu: “É... estou jantando. A senhorita já comeu?”

“O que está comendo? O cheiro está tão bom...”

Xu Changsheng suspirou: “Nada demais, só uma comida caseira simples, ainda por cima sobras de ontem. Senhorita Yan, não zombe de nós pobres, para quem já está acostumada a iguarias raras, estas refeições simples não têm graça nenhuma.”

“Não é bem assim... Você nunca me convidou, como posso saber se é bom ou não?”

A linda Yan agora não só fitava a marmita, mas também seguia cada movimento dos hashis de Xu Changsheng.

Ele fez uma careta, sentindo-se constrangido por ser encarado de tal forma por uma bela mulher, e acabou oferecendo, por gentileza: “Senhorita Yan, quer provar um pouco?”

“Quero sim!”

Yan Yu abriu um sorriso e estendeu a mão: “Me dá logo.”

“Mas você vai comer aí mesmo, na janela?” Xu Changsheng não pôde deixar de rir. Aquela moça não era nada acanhada, parece que já estava de olho nas sobras dele fazia tempo. “Senhorita Yan, por que não entra e come aqui dentro?”

“Não precisa, aqui na janela está ótimo.”

“E se for assim: a noite está linda, vou ao pátio apreciar a lua e você pode entrar para comer à vontade...”

Xu Changsheng pensou melhor; afinal, ela era uma moça solteira e ele um homem sozinho, não era conveniente ficarem juntos num mesmo cômodo. Tudo bem, quem manda ele ser tão boa pessoa? Melhor ceder o espaço.

“Não precisa complicar, aqui está ótimo, me dá logo...”

“Bem, está certo...”

Vendo o desespero dela, Xu Changsheng resignou-se: “Mas essa marmita eu já usei, vou pôr num prato para você.” Pensou consigo que, pelo apetite dela, metade bastaria e ele ficaria com o resto.

“Não tem problema, não me importo.”

Yan Yu estava faminta. Nem esperou que Xu Changsheng passasse a comida para um prato. Ficou na ponta dos pés, enfiou meio corpo pela janela, arrancou a marmita das mãos dele e começou a devorar tudo com avidez.

Xu Changsheng ficou boquiaberto.

Quantos dias fazia que essa moça não comia direito? Um pedaço de toucinho, com quase dois dedos de espessura e cinco de largura, uns duzentos e cinquenta gramas de carne de porco, ela engoliu em três bocadas. Depois, limpou o resto da comida como um furacão, em menos de dez minutos não sobrou nem farelo na marmita – estava mais limpa do que se tivesse lavado.

Satisfeita, Yan Yu pousou a marmita com um estalo no parapeito, acariciou a barriga já um pouco arredondada e suspirou profundamente: “Como é bom estar de barriga cheia...”

Xu Changsheng a olhou, pasmo: “Senhorita Yan... você...”

“Não precisa mais me chamar de senhorita. Agora que vamos morar sob o mesmo teto, isso é tão formal. Pode me chamar de Moça Yu...”

De barriga cheia, Yan Yu estava animadíssima.

“Então, Moça Yu, meus amigos todos me chamam de Velho Xu...”

“Ah, mas você é tão jovem! Não tem medo de ganhar esse apelido? Tudo bem, vou te chamar de Velho Xu. Olha, Velho Xu, sua comida é ótima, adorei!”

“Obrigado pelo elogio. Mas veja, Moça Yu, minha comida... você comeu tudo, e eu fiquei com fome...”

“Você ainda não comeu?”

Yan Yu arregalou os olhos, surpresa, como se tivesse ouvido algo absurdo.

“Veja só, estava começando quando você chegou, não viu que comeu tudo?”

Xu Changsheng estava indignado. A comida era pouca, mas não era por isso. O problema era: como uma jovem rica, criada no luxo, podia agir assim com um homem simples?

Afinal, ela tinha dinheiro de sobra, comprou esta velha casa por uma fortuna! Comer minha janta tudo bem, mas fazer de conta que não percebeu?

Xu Changsheng realmente não entendia. Uma pessoa como Yan Yu, que não trouxe sequer um cozinheiro, tudo bem. Mas se estava com fome e não queria delivery comum, a cidade tem bons restaurantes! Se receava pedir vários pratos e não conseguir comer tudo, eu, Velho Xu, poderia ajudar!

“Me desculpe, olha, posso te convidar para jantar também.”

Yan Yu pensou consigo: “Papai disse que o futuro da família depende desta viagem a Chu. Tirando esta velha casa milionária, como filha da família Yan, devo passar por provações. Não posso trazer cozinheiro, nem ir a restaurantes, nem pedir delivery, tudo tenho de fazer sozinha... Só que eu não sei cozinhar! Será que vou morrer de fome? Já sei, esse rapaz cozinha bem, vou comer sempre com ele! Se eu comer a comida dele, viramos amigos. E a família Yan nunca é mesquinha com amigos, retribuir um jantar não é quebrar a promessa! Está decidido, sou mesmo um gênio!”

“Então, Moça Yu, quer me convidar para jantar?” Xu Changsheng ficou surpreso.

“Sim, pode escolher o que quiser, eu pago!”

“Qualquer coisa mesmo? Posso escolher um banquete no Pavilhão Chu? Lá é o melhor restaurante da cidade, só um jantar comum passa de mil e quinhentos!”

“Só mil e quinhentos? Tranquilo, eu pago! Você tem o telefone do Pavilhão Chu?”

“...”

Xu Changsheng ficou sem palavras.

Não fazia ideia das estratégias de Yan Yu, não entendia nada disso... Se tinha tanto dinheiro, por que não pedia comida e vinha disputar minhas sobras?

Será que eu, Velho Xu, sou mesmo tão talentoso? Será que nunca percebi meu próprio potencial e minhas receitas superam as do Pavilhão Chu? Aqueles simples pratos de batata com pimentão, ovos mexidos com tomate?

Será que essa ricaça está maluca? Talvez devesse ser internada no Hospital Psiquiátrico da cidade.

Com esse pensamento, Xu Changsheng ficou alerta, lançando olhares furtivos para Yan Yu: “Moça Yu, vi outro dia um teste na internet, mas não consegui responder, achei que tinha pegadinha. Ajuda a resolver?”

“Que teste?”

Yan Yu estranhou a mudança de assunto, afinal estavam falando de jantar e, de repente, ele veio com teste.

“É assim: imagine uma banheira cheia de água. Para esvaziá-la, você só tem duas ferramentas: uma concha ou um balde. Como faz para tirar a água mais rápido?”

Yan Yu franziu a testa, pensou um pouco e caiu na risada: “Isso é fácil, basta tirar o tampão! Assim a água sai rapidinho.”

Xu Changsheng olhou para ela, bateu na testa, fingindo ter se dado conta: “Claro! Eu estava pensando em escolher o balde... mas sentia que havia uma pegadinha. Então era isso.”

“Pois é! Se escolher a concha ou o balde, está maluco e precisa ir ao hospital... Mas espere aí, Velho Xu, precisava mesmo me perguntar isso? Aposto que foi de propósito! Olha, não sou doida!”

Yan Yu lançou-lhe um olhar indignado: “E então, vai me dar logo o telefone do Pavilhão Chu?”

“Que tal fazermos um acordo, Moça Yu? A comida lá é cara, me dói gastar tanto. Que tal você me dar o dinheiro e eu escolho o que comer...”

Agora Xu Changsheng estava sem dinheiro, e quem é pobre, sonha pequeno.

“De jeito nenhum, vou pagar o que você pedir, mas não te dou dinheiro! Se não, vira outra coisa.”

“... Está bem, se insiste, vai ser no Pavilhão Chu. Espere aí, vou procurar o telefone...”

Enquanto procurava o número, Xu Changsheng observava Yan Yu de soslaio, sentindo que havia algo estranho nessa história.

Não, amanhã preciso chamar Shou Yang e Hei San para conversar... Vai que essa moça está armando alguma para mim? Não posso passar uma vida caçando gansos para, no fim, ser bicado por um!