Capítulo Oitenta e Dois: Ainda é você quem tem mais astúcia – Primeira Parte
Superstição e exploração do desconhecido são coisas distintas, embora ambas tratem de fenômenos misteriosos que a ciência moderna não consegue explicar.
Albert Einstein jamais se considerou supersticioso. O brilhante físico, dono do cérebro mais extraordinário da humanidade em cem anos, passou a acreditar em Deus no final da vida justamente porque seu entendimento dos mistérios do universo era centenas de vezes maior que o das pessoas comuns; quanto mais compreendia, mais dúvidas surgiam, até que deixou de buscar provas científicas e passou a crer que tudo era obra do Criador.
Por viver no Ocidente, Einstein escolheu a fé cristã; se tivesse nascido no Oriente, talvez algum antigo templo em uma montanha abrigasse um monge ou sacerdote versado na teoria da relatividade.
Fan Xue tinha apenas vinte e sete anos; mesmo casada, era considerada uma mulher jovem e atraente, daquelas maduras na medida certa, longe de ser chamada de “velha”. Contudo, os últimos três anos a fizeram acreditar cada vez mais que há fenômenos inexplicáveis pela ciência neste mundo.
Antes, ela desprezava aquelas senhoras idosas que se reuniam para falar sobre assuntos que “não devem ser mencionados”: histórias de sábios capazes de prever quinhentos anos para trás e para frente, de moças possuídas por espíritos, de alguém que passou dias e noites com febre e só se curou após receber um amuleto de paz no templo do Grande Buda do Monte Yunlong...
Se fosse há dois anos, Fan Xue teria caçoado dessas conversas, considerando tudo um absurdo, propaganda de superstição feudal. Mas agora, ela se juntava às rodas de histórias das idosas para escutar atentamente, e ainda buscava conhecer os “sábios” das narrativas, embora sempre acabasse descobrindo que eram charlatães — mas não se cansava disso.
Sempre que pensava nos últimos três anos, ela preferia se isolar no quarto, fechar as cortinas e chorar silenciosamente, incapaz de compreender por que as desgraças insistiam em recair sobre si.
Desta vez, parecia que a situação era melhor que nas anteriores; ela e o marido estavam cheios de esperança. Mas quando o médico lhe revelou a verdade ontem, Fan Xue soube que não podia mais hesitar: mesmo que tivesse de abandonar sua carreira como apresentadora famosa, iria ao Monte Yunlong. O abade do Grande Buda e o mestre Daoísta do Templo das Nuvens eram conhecidos como grandes sábios em Chu, e desta vez ela faria questão de visitá-los pessoalmente, não se importando com o escândalo que isso pudesse causar.
A maior dor de um personagem público é a possibilidade constante de exposição: aquilo que seria insignificante para uma pessoa comum vira manchete se envolve alguém famoso. Fan Xue podia visitar com cautela os “falsos mestres” de que as senhoras falavam, mas se fosse ao templo do Grande Buda ou ao Templo das Nuvens rezar e buscar respostas, talvez imediatamente fosse chamada pela direção da emissora para uma conversa.
A sociedade é estranha e mutável; nunca se sabe qual é o caminho correto.
Nos anos em que poderes especiais estavam em voga, todas as emissoras disputavam entrevistas com supostos mestres, mas depois que vários deles caíram em desgraça, esse tipo de assunto virou tabu nos grandes veículos. Para alguém como ela, mesmo visitar um templo reconhecido pelo governo para acender incenso e rezar poderia ser motivo de polêmica.
Ao chegar à encruzilhada diante do Monte Yunlong, Fan Xue hesitou novamente.
Sua posição de principal apresentadora da TV Chu era cobiçada por inúmeros jovens colegas; um deslize poderia tirá-la do posto. Além disso, tanto o Grande Buda quanto o Templo das Nuvens tinham reputação notável; qual deveria escolher? O abade do Grande Buda era mais famoso, com muitos relatos de acontecimentos milagrosos, mas contar seu problema a um monge lhe parecia embaraçoso...
Talvez fosse melhor pensar melhor antes de voltar. Não era medo, era apenas falta de clareza; haveria outra oportunidade no futuro... Mas será que realmente haveria?
Fan Xue começou a buscar razões e desculpas para sua indecisão, sua mente um turbilhão de pensamentos.
***
— Xu velho, esse seu jeito misterioso parece coisa de seita do Lótus Branco dos dramas de TV. Tem certeza de que não está brincando?
No quarto de nuvens recém-limpo por Qingping’er, Xu Changsheng estava sentado de pernas cruzadas ao lado da parede, olhos semicerrados e expressão solene, sem falar há muito tempo. Gotas de suor escorriam lentamente de sua testa, como se realizasse uma tarefa extenuante.
Parecia mesmo estar concentrado, não fingindo. Ali não havia estranhos: apenas os amigos e o velho fantasma Lou Jiandong; nem mesmo Qingping’er, a jovem sacerdotisa de confiança, estava presente. Xu Changsheng não tinha motivo para fingir.
Lou Jiandong, o velho fantasma, observava Xu Changsheng do canto da parede, sem conseguir adivinhar o que ele pensava.
Naquele dia, ao mostrar sua habilidade com a espada durante o banquete, os grandes nomes da humanidade já o reverenciavam como um ser extraordinário. Um milhão na mão desses homens não era nada; resolviam com um telefonema. Por que Xu Changsheng se esforçava tanto? Era masoquismo?
Xu Changsheng abriu os olhos devagar:
— Diante da lanchonete Liu de carne de porco na encruzilhada, há uma mulher de vinte e poucos anos, vestido preto longo, hesitando. Hei San, você tem um jeito sedutor, vá com o falso mestre Daoísta. Seja direto: pergunte por que ela ainda hesita. Será que a saúde da família é menos importante que sua reputação? O falso mestre deve vestir o robe Daoísta, para que ela se sinta à vontade...
— Ufa...
Shou Yang e os demais ficaram boquiabertos: Xu velho está mesmo se tornando um semideus?
— Aliás, vocês talvez conheçam essa mulher: é Fan Xue, a bela apresentadora da TV Chu. E eu já a encontrei uma vez.
Desde que desbloqueou seus canais espirituais, Xu Changsheng tinha intuições: não era como os monstros dos romances, capazes de prever tudo com um cálculo, mas conseguia sentir que Fan Xue estava ansiosa por causa de sua família.
Ele não queria aparecer pessoalmente, preferindo manter um ar de mistério. Os sábios dos livros nunca recebem visitantes pessoalmente; sempre enviam “discípulos”.
Shou Yang, que não conseguiu ser discípulo, reclamou:
— Xu velho, por que não posso ir? Sou mais simpático que Hei San!
— Vá também. Espere na entrada do Templo das Nuvens para o salão do Grande Buda. Dois caminhos para receber a visitante mostram importância e impedem que os monges do Grande Buda a levem. Fan Xue é só apresentadora, mas é a principal da TV Chu, tem influência enorme. O Grande Buda prega desapego, mas é mestre em marketing; meu mestre só não foi superado por eles porque são melhores nisso...
O Grande Buda não deve ser subestimado, especialmente o abade. Xu Changsheng não sabia ao certo sua capacidade. O que ele podia fazer, o monge talvez também pudesse.
— Entendi, Xu velho. Tudo isso é por causa daquele milhão em oferendas? Mas uma apresentadora talvez não tenha tanto dinheiro, e só restam dois dias; mesmo que tenha influência, não daria tempo.
— Nunca pensei em pedir um milhão... Fique tranquilo, o tempo é suficiente.
Xu Changsheng sorriu levemente, sem revelar o plano.
Quando os três amigos deixaram o quarto de nuvens, Lou Jiandong comentou:
— Por que não procura aqueles grandes empresários ricos? Parece um esforço desnecessário.
— Você não entende o coração humano...
Xu Changsheng levantou-se, serviu-se de chá e sorveu um pouco:
— “Pescar como Jiang Taigong, só pega quem quer morder.” Essa é a melhor estratégia. Fan Xue é apenas o peixe; os empresários são o rei Wen de Zhou. Só se ouviu falar que o rei Wen buscava sábios, implorando para Jiang Taigong sair da montanha. Já viu Jiang Taigong implorar para ver o rei Wen?
Lou Jiandong silenciou por um tempo e finalmente disse:
— Changsheng, sua astúcia é mesmo profunda!