Capítulo Setenta e Nove: O Retorno da Vida e o Despertar Divino
Esta natureza originalmente veio do vazio, despojando-se de toda pureza ao mergulhar na lama e na sujeira; os seis desejos e as paixões de ganância e raiva podem maculá-la, as sete emoções de alegria e tristeza são provadas primeiro. Não havendo nada, ainda assim se tenta limpar; só ao se despir das ilusões se alcança a transcendência.
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Observar a chuva de dentro das montanhas é uma experiência completamente distinta de vê-la no meio do burburinho de uma cidade movimentada.
À medida que a chuva se intensificava, o som sussurrante das gotas preenchia os ouvidos, a névoa encobria a relva distante, o nevoeiro abraçava as árvores próximas, dando a sensação de estar em um reino celestial, como se todas as mágoas, apegos e preocupações mundanas fossem lavadas e purificadas.
Na bruma diáfana, as flores e ervas do jardim ao pé da colina também pareciam lavadas pela chuva, exibindo matizes de vermelho e verde que alegravam o olhar.
Xu Changsheng caminhava entre as flores, com um sorriso nos lábios e passos leves, contemplando as diversas flores como um antigo imperador revisitando suas belas concubinas: a mente presente, mas o espírito distante, sem se dedicar completamente a nenhuma.
O olhar era ao mesmo tempo atento e distraído, a consciência flutuando entre vigília e sonho; e, nesse estado, a essência vital das centenas de flores começava a se reunir, convergindo para seus olhos, transformando-se em feixes de luz multicolorida que atravessavam suas pupilas e se reuniam numa região misteriosa em sua nuca.
O velho fantasma Lou Jiandong seguia atrás, tentando imitar sua contemplação, mas logo se entediou; afinal, esse tipo de beleza natural não era algo que um "matador nato" como ele pudesse realmente apreciar. Após um tempo, seu olhar se desviou para onde não devia...
— Ora, Changsheng não me enganou mesmo! Bastou contemplar as flores por um instante para entrar no estado de "renascimento do yang"? Aquilo ali está mais firme e ereto do que jamais estive em vida, como pode ser?
Lá estava Changsheng entre as flores, olhos semicerrados, sorriso sutil nos lábios, por vezes apanhando suavemente uma flor, sua expressão plena e austera, postura altiva, e, por conta da espinha ereta, uma "pequena tenda" se formava discretamente abaixo da cintura, sugerindo que ali se escondia o bastão mágico do Rei dos Macacos, capaz de crescer ainda mais, demonstrando suas habilidades milagrosas...
Lou Jiandong olhou para seu próprio corpo envolto em névoa negra, sentiu uma súbita tristeza e, resignado, afastou-se alguns passos para sentar-se, decidido a proteger Changsheng enquanto este cultivava.
O momento do "nascimento vivo" finalmente chegou; agora, Changsheng não interagia apenas com as flores, mas com cada folha, cada grão de terra, cada gota de orvalho do lugar, sua percepção se estendendo ao vasto e ilimitado mundo.
Num estado maravilhoso de ação na inação, o mar renal fervilhava em seu corpo, e uma essência vitalíssima ascendia, depurando a energia turva e dando origem a dois fluxos de energia primordial inata.
Mal surgiram essas duas energias, os trinta e seis pontos celestiais dos meridianos principais responderam de imediato, e em seu corpo ribombaram trovões e lampejaram relâmpagos.
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Para uma pessoa comum, nada disso teria importância, mas o velho fantasma Lou Jiandong, com seus trezentos anos de cultivo do corpo de "yin misterioso", percebeu imediatamente as mudanças em Changsheng, saltando assustado e fitando-o com seus olhos turvos:
— Trinta e seis pontos celestiais!
Lembrou-se de duzentos anos atrás, quando seu corpo yin acabara de se formar; numa viagem pelas terras do Sichuan, encontrou um taoísta no Monte Qingcheng. Bastaram três movimentos para quase ser destruído. Não sabe se o taoísta ainda vive, mas jamais esqueceu que ele praticava a "Lei Celestial dos Trinta e Seis", e seu corpo possuía aqueles mesmos pontos celestiais, capazes de criar trovões a cada manifestação de poder, muito além das práticas comuns.
Na época, o taoísta ainda não possuía todos os trinta e seis pontos; se tivesse, Lou Jiandong não teria escapado vivo.
Esses trinta e seis pontos agora dispersavam-se entre as duas energias primordiais, que, sem necessidade de controle consciente, transbordavam dos meridianos principais como águas em cheia, invadindo agora os canais extraordinários do corpo.
Changsheng estacou subitamente, sentindo-se como uma cidade antes permanentemente congestionada, onde nada fluía, mas que de repente ganhava dois novos anéis viários: um chamado Sexto Anel, outro Sétimo Anel.
“Ah, Sexto Anel, és um a mais que o Quinto...
Ah, Sétimo Anel, tens dois a mais que o Quinto...”
Tudo fluía naturalmente; o que para outros cultivadores exigiria uma vida inteira, ele conseguira de novo: desobstruíra mais dois canais extraordinários, e sua energia interna agora era mais de duas ou três vezes superior ao que fora ao abrir o canal anterior!
Com três dos oito canais extraordinários fluindo, seu poder circulava sem fim, permitindo enfim que Changsheng fizesse jus ao título de "pequeno homem verdadeiro". Se, com o tempo, abrisse mais dois canais, atingiria o nível de "imortal humano", com vida superior a cem anos, digno do nome Changsheng, "Vida Longa".
Changsheng, cultivando entre as flores, permitiu que a energia primordial fluísse pelos canais de acordo com o princípio da não-ação, permanecendo num estado de sonho e vigília, natural e espontâneo.
Durante mais de meia hora, uma sensação maravilhosa, impossível de descrever, surgiu em seu coração.
Aos poucos, sentiu-se como se deixasse o próprio corpo, mas não era aquela separação da alma descrita nos livros sagrados, e sim uma elevação e expansão da percepção e da audição.
“Viu” o velho fantasma, entediado, sentado entre as flores; “viu” a chuva caindo em mil gotas brilhantes...
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Sua percepção se estendia cada vez mais, subindo a encosta, atingindo o cume, descendo aos pés da montanha; via cada folha, cada flor, cada árvore. Um casal de jovens abrigava-se num quiosque, a moça ria docemente — o que terão sussurrado de tão íntimo?
No Mosteiro do Grande Buda, o jovem monge Qingyuan cometera outra tolice: foi perguntar ao abade se teria folga no Dia das Crianças. Ao ouvir que não, afastou-se resignado e caiu em pranto atrás do templo...
As coisas do mundo, todas se mostravam com clareza aos olhos de Changsheng. Experimentou então voltar sua percepção ao subsolo e, para sua surpresa, podia “ver” serpentes, escorpiões, insetos e formigas ocultos a vários metros sob a terra. As raízes das plantas formavam uma floresta subterrânea, veias e ramificações perfeitamente distinguíveis — um outro mundo sob seus pés!
“Isto é... a consciência adquirida!”
Uma brisa agitou-lhe o coração, e ele enfim emergiu do estado maravilhoso do "nascimento vivo", sentando-se em posição de lótus sob a chuva para consolidar o que havia alcançado.
A chamada consciência adquirida nasce do sangue e do sêmen dos pais, vem do vazio e, à medida que o feto cresce e a experiência se acumula, forma-se a percepção e o entendimento do ser. Por isso é chamada de adquirida, pois sofre as influências e impurezas do mundo.
No entanto, a consciência do homem comum não pode afastar-se do corpo; quando, como Changsheng, ela se separa, pode observar e ouvir tudo a qualquer hora e lugar, percebendo o oculto ao olhar e ao ouvido humanos. Embora ainda seja uma técnica menor, já se pode chamar de poder espiritual.
Com o crescimento dessa consciência, Changsheng verá o que os mortais não veem: espíritos, fantasmas, entidades da montanha, elfos das flores, peixes e dragões em transformação, portais ocultos e cidades sombrias!
Ainda não é um grande poder divino, mas é fundamental para si mesmo. Changsheng, ciente disso, não ousou descuidar, e segundo os preceitos dos livros sagrados, começou a recolher e liberar a consciência, polindo-a e refinando-a repetidamente.
Lou Jiandong percebeu imediatamente que Changsheng havia tocado a consciência adquirida — um momento de extrema importância. Aproximou-se, atento, para protegê-lo.
Nem que o céu desabasse, ninguém poderia perturbar Changsheng agora; caso contrário, na melhor das hipóteses sua consciência sofreria danos, na pior, tornaria-se um idiota, sem que nenhuma lei do mundo pudesse reverter isso.