Capítulo Doze: Impasse
Embora estivesse ansioso por dentro, Wang Qiang ainda assim não pediu a Xu Changsheng que fosse ao Templo do Deus da Montanha durante a noite. Agir de forma tão apressada passaria a impressão de falta de compostura, além do mais, Xu Changsheng estava ali para colaborar incondicionalmente com a polícia, não era seu subordinado.
Por fim, combinaram que viriam buscar Xu Changsheng na manhã seguinte. Wang Qiang, acompanhado de dois colegas, saiu apressado. Ao se despedirem, Xu Changsheng fez questão de acompanhá-los até a porta; mesmo depois que o carro policial se afastou, permaneceu sorrindo e acenando com grande elegância.
— Liu Bei teve de visitar Zhuge Liang três vezes para convencê-lo a sair da reclusão, você pode não ser um Zhuge, mas ele também não é Liu Bei, certo? Por que motivo, só porque lhe pedem, você corre para ajudar? Meu filho, hoje vou te ensinar uma lição: em situações como essa, mantenha a postura, especialmente diante da polícia, senão não te levarão a sério!
Apesar de sempre demonstrar respeito diante de Wang Qiang, isso se devia ao seu passado sombrio; gente como ele sente um temor instintivo ao ver policiais. Ainda assim, em seu íntimo, não tinha simpatia alguma pela polícia e, portanto, desaprovou a atitude de Xu Changsheng naquele dia.
Por que motivo? Hoje em dia, a polícia não é mais aquela de antigamente, sempre atrás de apostas e prostituição, agora têm recursos! Se querem bons cidadãos, que comecem falando do prêmio de bom cidadão, não é? No mínimo, uns bons milhares, e não basta oferecer direto — tem que vir um repórter, uma faixa comemorativa, muita insistência até que, constrangidos, aceitemos. Só então você faz um discurso breve e perspicaz, compartilhando sua filosofia de vida. Esse é o caminho certo.
— O senhor está falando de dinheiro, não é?
Xu Changsheng olhou para ele sorrindo.
— Sabe por que não pedi nada em troca?
— Por quê? — exclamou Xu Duonian, arregalando os olhos. — Porque você é tolo! Hoje em dia ninguém trabalha de graça, nem a polícia. Se pedisse uns quatro ou cinco mil, já dava para eu fazer uma viagem econômica para Xi Fan. Você parece esquecer que meu maior sonho é percorrer a Estrada Celeste, numa viagem para purificar a alma.
— Eu sei, não é aquela estrada cercada de perigos?
Xu Changsheng riu.
— Também quero ir, mas vamos deixar para quando tivermos dinheiro. Só que esse dinheiro não pode vir do diretor Huang nem dos setenta e tantos pacientes. Eles são meus antigos pacientes, alguns até amigos. Estou disposto a ajudar a polícia sem pedir nada em troca, justamente por causa deles. A polícia não está sem opções, só não quer ampliar o problema, por isso me procurou. Quanto mais eu demorar, mais perigosos ficam meus amigos pacientes.
***
Wang Qiang era um homem sensato. Na manhã seguinte, só apareceu para buscar Xu Changsheng às nove horas, temendo que seus horários fossem diferentes dos da polícia e não quisesse parecer apressado ou indelicado. Apesar da aparência rude, era alguém cheio de sutilezas.
O caminho de Hufenshan até Taishan levava menos de vinte minutos. O carro da polícia subiu a estrada da montanha até parar na metade do caminho; adiante estava o Templo do Deus da Terra, onde Huang Haoqiang e os outros haviam se entrincheirado.
Embora Taishan fosse a montanha mais alta de Chudu, não possuía tantos monumentos históricos quanto Yunlongshan. Fora o festival anual do templo, quase não recebia visitantes, o que facilitava a ação da polícia. Ainda no carro, Xu Changsheng percebeu policiais por toda parte ao redor do templo, alguns até armados.
"Esses policiais especiais portam armas apenas para dissuadir mal-intencionados de causar confusões. Não pretendem usá-las contra os pacientes", explicou Wang Qiang.
— Não precisa explicar, entendo perfeitamente — respondeu Xu Changsheng, lançando-lhe um olhar surpreso. Wang Qiang não precisava lhe dar explicações, mas fazia isso por respeito e para evitar que ele se sentisse desconfortável com as medidas tomadas. Era mesmo alguém cuidadoso e empático; não era à toa que tinha tanta sorte.
Desceram do carro e entraram no posto de comando improvisado. Wang Qiang lhe entregou um binóculo militar, sorrindo, meio desconcertado:
— Veja o que Huang Haoqiang e seus pacientes fizeram. Transformaram o templo numa verdadeira fortaleza!
Os outros policiais presentes balançaram a cabeça, com expressões entre o cômico e o perplexo.
— É para tanto? — perguntou Xu Changsheng, pegando o binóculo. Ao olhar, não conseguiu conter o riso, dobrando-se e tossindo. Wang Qiang teve que lhe dar umas palmadas nas costas até se recompor.
Era inacreditável como aquele grupo sabia se virar, mantendo viva a reputação do antigo hospital psiquiátrico.
Em menos de três dias, Huang Haoqiang liderou mais de setenta pacientes na construção de uma muralha diante do templo, digna de verdadeiros engenheiros.
A muralha tinha quase dois metros de altura, feita com pedras e galhos encontrados na montanha, com um portão rudimentar na base e ameias no topo, imitando perfeitamente uma estrutura defensiva medieval.
Havia até uma torre de observação feita de galhos secos. Com o binóculo, Xu Changsheng reconheceu um rosto familiar, empunhando um arco artesanal e espiando o movimento do lado de fora.
Sobre a muralha, várias bandeiras improvisadas com galhos e trapos estavam fincadas, exibindo desenhos de um abstracionismo pós-moderno ininteligível, exceto por uma bandeira ao centro onde se liam claramente quatro grandes caracteres: "Seita dos Três Punhados de Arroz". A caligrafia lembrava os traços de Yan Zhenqing, obra evidente de Huang Haoqiang.
A muralha era estrategicamente posicionada junto ao templo, protegido por penhascos de dezenas de metros nas laterais e nos fundos; só seria possível entrar rompendo a muralha frontal. Os pacientes estavam em posição vantajosa, armados com lanças e facas de madeira afiadas. Era realmente uma situação de “um homem defendendo um desfiladeiro contra mil”, e, a menos que a polícia usasse armas de fogo — o que seria impensável —, nem bombas de gás lacrimogêneo teriam muito efeito ao ar livre.
Xu Changsheng pediu à policial uma lista dos pacientes, examinou-a rapidamente e sorriu:
— Então Huang Zi está entre eles, agora tudo faz sentido... Esse paciente, Zhang Xuanhuang, estudou engenharia civil, é especialista em construções antigas. Com certeza, o projeto da muralha é dele.
— Ele pode ter se divertido projetando, mas para nós a situação ficou crítica. Uma muralha dessas, normalmente, não seria problema: dois especialistas em explosivos resolviam. Mas estamos falando de pacientes psiquiátricos, não criminosos comuns; não podemos usar força excessiva. Se você conseguir convencê-los a depor as armas e "abrir as portas", fico lhe devendo um favor. Depois, faço questão de solicitar o prêmio de bom cidadão para você — com troféu, diploma e até prêmio em dinheiro.
— Tudo isso é secundário. O que me importa são esses pacientes, do contrário, não teria vindo — respondeu Xu Changsheng. — Vocês estão sitiando o templo há pelo menos dois dias, certo? Se esperarem eles ficarem sem água e comida, desistirão da resistência. Por que tanta pressa?
— Esses seus pacientes, às vezes, são mais espertos do que gente comum. Assim que tomaram o templo, saquearam um mercadinho ao pé da montanha. Conseguiram mantimentos para uma semana. Não podemos esperar tanto. Se isso vazar, vão rir da polícia: um contingente de mais de cem homens cercando um grupo de pacientes psiquiátricos por uma semana inteira!
Wang Qiang suspirou.
— Por isso, a chefia me deu três dias. Hoje é o último.
— O tempo está apertado... — Xu Changsheng franziu a testa, percebendo a complexidade da situação.
Enquanto ele avaliava o problema, um policial entrou apressado no posto de comando.
— Capitão Wang, Chang Wei do segundo batalhão chegou!
— O que ele veio fazer? Esse caso é de nossa competência, o que o segundo batalhão tem a ver com isso?
Ao ouvir isso, Wang Qiang imediatamente mudou de expressão.