Capítulo Vinte e Três: Eu Não Quero Ser o Mestre do Templo

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 2968 palavras 2026-02-07 13:16:19

— Na verdade, não é que não haja nenhuma novidade... — sussurrou Magro Yang, baixando a voz. — O Falso Daoísta voltou ontem das Montanhas Zhongnan, adivinha só? A viagem realmente não foi em vão. Ele recebeu a iniciação formal em Zhongnan e voltou com um certificado de daoísta legítimo. Ontem eu e Preto San fizemos um jantar para recebê-lo. O Falso Daoísta bebeu demais e acabou contando a verdade. Resulta que só conseguiu tirar o certificado graças a um parente distante que trabalha no Departamento de Assuntos Religiosos, que fez algumas movimentações e gastou algum dinheiro para ajudá-lo. Esse parente, sabendo que ele vivia em Chudu, comentou casualmente: “Parece que em breve o Templo das Nuvens Auspiciosas no Monte Yunlong vai trocar de abade. E esse novo abade não é uma pessoa qualquer...”

— Ah, não é uma pessoa qualquer? Vai ver chegou um imortal celestial, não é? — riu Xu Changsheng.

— Imortal celestial? Quem já viu um desses andando por aí? Não é sobre a prática ou o cultivo desse novo abade, o que falam é do seu forte respaldo: a Associação Daoísta e o Departamento de Assuntos Religiosos não ousam contrariá-lo. Mas, quando o Falso Daoísta perguntou mais, o parente não quis contar, talvez por não poder, talvez por não saber mais.

— Então é isso. O Mestre Yizhen não é bom administrador, e com esse novo abade cheio de apoio, a troca se tornou natural. Mas, se esse novo abade tem mesmo tanto respaldo, por que faria questão de ser daoísta? Será que veio mesmo cultivar de coração? — Xu Changsheng balançou a cabeça, sorrindo. — Estamos nos preocupando à toa. O que importa para nós se o Templo das Nuvens Auspiciosas troca ou não de abade?

— Para nós não faz diferença, mas tem certeza que para você não importa, Xu? — Magro Yang olhou para ele com um sorriso malicioso, o olhar cheio de significado.

— Que olhar é esse? O que tem a ver comigo?

— Ora, quem não sabe que o Mestre Yizhen queria fazer de você discípulo? Ele não te procurou diversas vezes? Se você tivesse aceitado, não seria você o novo abade hoje?

— Você sabe bem que o Mestre Yizhen é da Escola Quanzhen. Tornar-se seu discípulo é realmente se ordenar, virar daoísta de verdade. Ser abade, então, nem se fala. Agora sou livre, sem preocupações, levando a vida que quero. Pra quê pegar uns aprendizes para alimentar? Estou louco? E, no fim, Mestre Yizhen também não foi retirado do cargo?

— Não é bem assim. O Mestre Yizhen pode não ser gestor, mas se fosse você, Xu, com a tua esperteza, talvez tornasse o Templo das Nuvens Auspiciosas tão próspero quanto o Templo Shaoshi, até virasse uma empresa listada em bolsa. A Associação Daoísta pensaria duas vezes antes de mexer com você — continuou Magro Yang, tentando convencê-lo. — Xu, pensa bem, ainda está em tempo... Se você virar abade, nós todos vamos comer do bom e do melhor junto contigo, finalmente teremos uma posição de respeito.

— Vá se catar! Se eu virar abade, vocês vão sair por aí usando meu nome para enganar os outros, não é? Por que fui me envolver com amigos como vocês? Chega, vendi tudo, hora de fechar a barraca!

— Não adianta negar, Xu. Grava o que digo: mais cedo ou mais tarde, esse posto de abade é seu!

— Fala sério...

Xu Changsheng balançou a cabeça e, equilibrando o varal de mercadorias, desceu a montanha.

O que Magro Yang disse hoje, na verdade, Mestre Yizhen já havia dito a Xu Changsheng uns dois ou três anos antes. O mestre foi abade do Templo das Nuvens Auspiciosas por vinte anos e viu Xu Changsheng crescer. Sempre teve simpatia por ele, tentou diversas vezes torná-lo seu discípulo, mas Xu Changsheng recusou todas.

Não era preconceito contra o caminho daoísta; hoje, monges e daoístas são apenas mais uma profissão. Com a sorte de Xu Changsheng, azarado por natureza, nenhum emprego dura muito — ser daoísta talvez não fosse má ideia. Mas, cansado de tanta insistência, desenvolveu uma reação contrária.

O velho louco Ge Wuyou também vivia insistindo sobre o Caminho do Elixir de Ouro e a ascensão diurna, querendo fazer dele discípulo a todo custo, o que só aumentava seu aborrecimento. Assim, quando Mestre Yizhen trouxe o assunto novamente, Xu recusou sem pensar.

Depois que abriu os portais da percepção, Xu Changsheng soube que realmente existiam métodos superiores de cultivo, e que nem todo daoísta era só um profissional. Seu coração já começava a vacilar. Mas, tendo recusado tantas vezes, e até os monges gordos do Grande Templo Buddha sabendo disso, não podia mais voltar atrás facilmente. Além disso, a situação atual do Templo das Nuvens Auspiciosas era complicada e, com seu temperamento, não queria se envolver naquela confusão.

Como de costume, deixou o varal na portaria do senhor He e decidiu não voltar para casa naquele momento. Desde a noite anterior, percebera algo estranho entre seu pai e a senhora Wang — o casal estava animado demais. Ao sair pela manhã, notou que o quarto do pai, que normalmente já estaria arejado, estava trancado e com as cortinas fechadas.

Ou seja, a senhora Wang não tinha ido embora durante a noite.

Casais jovens, depois de uma noite intensa, ainda dormem até tarde, imagine então um casal de mais de cinquenta anos... Xu Changsheng calculou que só seria seguro voltar para casa depois das quatro da tarde.

Decidiu então passar no abrigo de chá. Com o velho raposa fora, Huang Haoqiang não deveria ter problemas. Os setenta e um pacientes, no máximo, estavam como noras mimadas, tendo saído de casa alguns dias, mas logo voltariam. Nada com que se preocupar. O que queria mesmo era confrontar o velho louco Ge Wuyou: o diretor Huang te fez algum mal? Se não era capaz de ensinar o Caminho do Elixir de Ouro, por que passou um método incompleto de invocação de espíritos, causando tamanha confusão? Não dá para parar com essas encrencas?

Mal saiu pelo portão da montanha, deparou-se com Chang Wei, o inspetor de polícia de segundo grau, e Fan Xue, a famosa apresentadora da TV de Chudu, acompanhados de um cameraman alto carregando o equipamento.

— Ah... senhor Xu! Apresentadora Fan... Este é o senhor Xu Changsheng, que ajudou a polícia a resolver pacificamente o caso 822... — Ao ver Xu Changsheng, Chang Wei ficou visivelmente nervoso, gaguejando e desviando o olhar, quase corando feito moça tímida. Xu apenas sorriu de leve, enquanto o renomado chefe de polícia, um dos melhores detetives da corporação, ficava ruborizado.

Agora, bastava Chang Wei encontrar alguém envolvido no caso 822 para corar, sempre lembrando daquela noite de tempestade, trovões e relâmpagos, quando ficou pendurado no velho olmo — uma situação nada digna...

Ninguém jamais mencionou o ocorrido diante dele, mas quanto menos falavam, mais ele se sentia angustiado... Todos sabiam, todos sabiam! Por que ninguém tocava naquele assunto? Ah, não aguento mais...

— Capitão Chang, olá. O que os traz aqui? — Xu Changsheng pensou que, no máximo, a TV mencionaria seu nome no noticiário. Mas, vendo a cena, percebeu que a emissora queria fazer um programa especial.

E faz sentido. Com as tensões entre pacientes e hospitais, ainda mais se tratando de pacientes psiquiátricos e suas famílias, resolver pacificamente o surto do caso 822 era prato cheio para a assessoria de imprensa de Chudu.

Cauteloso, Xu Changsheng não recusava aparecer um pouco — podia aproveitar para mudar a imagem do “filho da família Xu” entre os vizinhos, o que faria bem tanto para ele quanto para o pai.

— Prazer, senhor Xu — Fan Xue, intrigada, lançou um olhar ao “grande maçã” Chang Wei, aproximou-se de Xu Changsheng e estendeu-lhe a mão delicada e alva. — Viemos ao monte procurá-lo, mas olha só, cruzamos com o senhor aqui mesmo. Que coincidência! Queremos fazer uma reportagem especial sobre o caso 822, e o senhor é uma das figuras centrais. Podemos contar com sua colaboração?

— Claro, posso colaborar. Mas seria aqui mesmo, diante do portão da montanha? — respondeu Xu, apertando-lhe suavemente a mão, sorrindo.

— Não, minha intenção era convidá-lo a ir conosco até o Hospital Psiquiátrico do Abrigo de Chá. Assim, podemos entrevistar o senhor, o diretor Huang e alguns pacientes...

A postura tranquila de Xu deixou Fan Xue surpresa.

— Ótimo, melhor ainda. Eu mesmo queria ir ao Hospital Psiquiátrico do Abrigo de Chá, assim ainda economizo a passagem — brincou Xu Changsheng.

Fan Xue sorriu encantada: — O senhor Xu sabe mesmo fazer piada.

Ela não deixava de se admirar. Famosa em Chudu, bela e repórter de renome, estava acostumada a ver entrevistados nervosos diante das câmeras e de sua presença. Mas aquele jovem, com pouco mais de vinte anos, mantinha-se à vontade e até bem-humorado.

Seria Xu Changsheng apenas um simples vendedor de incensos no monte?