Capítulo Quarenta e Dois: A Montanha do Coração Espiritual e a Caverna das Três Estrelas sob a Lua Minguante – Primeira Parte

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 2595 palavras 2026-02-07 13:16:34

Esse método deve ser buscado no mais profundo do mistério; há três mil grandes vias e incontáveis portais. Se não se formar um coração sábio para servir de barco e remo, todos os artifícios não passam de vazio. O Caminho que pode ser trilhado não é o Caminho comum. O chamado “nada comum” é porque, com métodos extraordinários, se alcança resultados extraordinários. Os perigos e dificuldades, porém, não são para pessoas comuns. Sem um coração sábio a servir de embarcação para atravessar o mar da confusão, por mais astuto ou habilidoso que se seja, tudo o que se conquistar não passará de flores refletidas no espelho ou da lua capturada na água: no fim, será tudo em vão...

***

Não era de se espantar que Xu Changsheng, decepcionado, tivesse seu ânimo abalado. Ele havia lido muitos livros de cultivo nesse período. O mestre Yizhen era da Escola da Plenitude, que defendia a união das três tradições; assim, no templo não havia apenas textos taoistas, mas também muitos do budismo e do confucionismo: Dao De Jing, O Livro dos Portais Misteriosos, O Livro dos Símbolos Sombrios, Sutra do Diamante, Sutra do Grande Nirvana, Sutra da Flor de Lótus, Sutra dos Votos do Bodisatva Ksitigarbha, Sutra do Despertar Perfeito, Sutra Lankavatara, A Grande Escola, A Doutrina do Meio, Os Analectos, O Método para Cultivar o Espírito Reto... Uma confusão imensa. E, no fim, tudo se resumia a três palavras: o que entendia, não lhe servia; o resto, nem entendia...

Todos esses livros tinham o mesmo problema: eram escritos de forma ambígua, cheios de rodeios e nunca revelavam claramente o método do cultivo.

Os textos confucionistas, então, nem se fala, tratavam na maioria de governança e administração. Talvez Wang Chongyang tenha valorizado seus ensinamentos por experiência própria, mas Xu Changsheng não tinha grande interesse.

Os taoistas eram um pouco melhores; já os budistas, cada livro mais exuberante que o outro, prometendo lótus brotando do chão e flores celestiais. A pessoa lia, sentia entender tudo, capaz até de discutir com sábios; mas, ao refletir, percebia que, na verdade, não tinha compreendido nada.

Por isso, Xu Changsheng logo deixou os textos budistas de lado e se concentrou nos clássicos taoistas. Mas mesmo entre eles havia uma variedade imensa: alguns focavam em teorias profundas e abstratas, outros falavam de alquimia interna e externa. Tantos tratados dos grandes mestres, e nenhum parecia se aplicar à sua situação. Não era mesmo de desesperar?

Vendo Xu Changsheng de olhos fechados por tanto tempo, como se um monge em profunda meditação, Qingpinger olhou ao redor, tirou sorrateiramente o celular do bolso do manto, baixou o volume e pôs para rodar um vídeo que já tinha baixado.

"Você carrega o fardo, eu levo o cavalo, juntos saudamos o nascer do sol..."

A garota estava assistindo nada menos que o clássico conto mitológico nacional, a versão de 1986 de Jornada ao Oeste. Com a música de abertura tocando por um bom tempo e Xu Changsheng sem demonstrar reação, Qingpinger suspirou aliviada: "Graças aos céus, o velho Xu entrou em transe de novo. Por favor, acorde devagar, quero ver este episódio até o fim..."

"Está bom, Qingpinger? De novo esse? Quando assisti pela primeira vez, você devia estar no jardim de infância..."

Ela assistia fascinada, quando uma cabeça grande surgiu atrás de seu ombro com um sorriso travesso.

"Ah!"

Qingpinger deu um grito, empalideceu: "Irmão Xu, eu... não estava querendo enrolar, quer dizer, estava sim, pode me xingar..."

Mas Xu Changsheng apenas acenou, sem intenção de repreendê-la, os olhos presos na tela do celular, fascinado por aquele seriado clássico, repetido incontáveis vezes...

Era o segundo episódio, quando o Rei Macaco busca um mestre. Após inúmeras tentativas fracassadas, finalmente chega à Montanha da Plataforma Espiritual, na Caverna da Lua Inclinada. O Mestre Bodhidarma o aceita como discípulo, mas só após sete colheitas de pêssegos, e sete banquetes, decide transmitir-lhe o Caminho.

Na tela, o Mestre Bodhidarma falava dos portais do método, da quietude e do movimento, mas Sun Wukong perguntava apenas: "Conseguirei a imortalidade?"

O mestre balançava a cabeça: "É como flores no espelho, lua na água." E o Rei Macaco retrucava: "Então não quero aprender..."

Ao ver isso, Xu Changsheng sentiu-se tocado. O problema do Grande Sábio era o mesmo que o seu! Já vira Jornada ao Oeste antes, como podia ter esquecido desse detalhe?

O mestre, então, bateu três vezes em sua cabeça e se retirou. Sun Wukong, inteligente, entendeu que deveria procurar o mestre na terceira vigília da noite e assim aprendeu as Setenta e Duas Transformações.

Xu Changsheng sentiu até inveja do Rei Macaco. Que sorte a dele, encontrar um mestre iluminado! Ele, por sua vez, revirara todos os livros e não achava método algum que lhe servisse. Como pode o homem ser mais tolo que o macaco?

De repente, Qingpinger perguntou baixinho: "Xu, por que ninguém mais encontrava a Caverna da Lua Inclinada, só Sun Wukong? E por que o Mestre Bodhidarma ensinou só ele as Setenta e Duas Transformações? Só porque nasceu da pedra? Não é justo!"

"Que bela pergunta!"

Aquilo, dito sem pensar, caiu como uma revelação para Xu Changsheng.

Ele ficou estupefato, encarando Qingpinger até ela corar: "Por que me olha assim, Xu..."

Essa menina era realmente sua estrela da sorte. Não é simples, não é simples... De fato, não existe mestre esperando discípulos numa caverna perdida. Como alguém comum poderia encontrar a Montanha da Plataforma Espiritual ou a Caverna da Lua Inclinada? O verdadeiro Bodhidarma está no coração do Rei Macaco. Ele precisou de esforço próprio para encontrar o mestre.

Isso não é justamente o que aqueles textos budistas, que pareciam tão vazios, tentavam dizer? Ele havia lido, mas sempre de maneira superficial, até com certo desprezo. Sabia, repetia, mas nunca sentira de verdade. Agora via o quanto fora superficial!

Seja budismo ou taoismo, quem busca o Caminho precisa, como Sun Wukong, experimentar e vivenciar por si mesmo, encontrar seu próprio Bodhidarma, sua sabedoria, e assim achar o caminho que mais lhe convém.

Por que invejar as Setenta e Duas Transformações? Mesmo que Sun Wukong descesse do céu para ser seu mestre, esse método serviria para ele?

Xu Changsheng sorriu.

Naquele instante, finalmente entendeu: cultivar o Caminho é buscar um processo, não um resultado previamente definido. Sem destino fixo, que estrada poderia ser "a sua"? Buscar um caminho pronto nos livros é pura ilusão.

Lembrou-se então do famoso canto de Mestre Sanfeng:

"Seguir o fluxo é ser comum, nadar contra é ser imortal; tudo depende de inverter o olhar..."

Que lição! O coração do cultivador é mutável, busca a verdade no paradoxo. Assim como ele agora, vivenciando novas perspectivas. Uma frase reveladora, que expunha o mistério do Cultivo. Saboreando cada palavra, Xu Changsheng não conteve a alegria, coçou a cabeça, sem saber o que fazer...

"Xu, o que houve?"

Qingpinger olhava boquiaberta. Xu Changsheng sempre fora sério na frente dela, ainda mais ao guiá-la nos exercícios, como um verdadeiro mestre. Que acontecera? Viu dois minutos de Jornada ao Oeste e virou macaco?

"Ah... não é nada. Muito bem, Qingpinger, parabéns!"

"Sério?" comemorou ela. "Se você gosta de ver séries, tenho até novela coreana..."

"Hum, novela coreana não precisa. Se quiser ver, assista no seu quarto. Ainda tenho exercícios a fazer."

"Oba, então vou indo! Não fique sentado tanto tempo, o vento no pico é forte, não se resfrie..."

Qingpinger saiu quase pulando de alegria. Nos últimos dias, sempre fora puxada por Xu para estudar e já quase adoecera de tédio. Hoje, enfim, poderia mergulhar numa novela coreana – que maravilha!