Capítulo Oito: O Despertar do Portal Espiritual
No momento em que a abertura do Dao começa a se mover, é possível construir uma ponte entre o céu e a terra, conectando-se ao sagrado vazio. No entanto, esse prodígio dura apenas um instante; logo desaparece, tornando-se o maior pesar dos seguidores do Dao.
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Xu Changsheng voltou para seu quarto bufando de raiva, fechou a porta, abriu a janela, pulou na cama, cruzou as pernas de qualquer jeito e repousou as mãos abertas sobre os joelhos, adotando uma postura com as cinco extremidades voltadas para o céu.
Começou então a acalmar a mente, ajustando a respiração até mantê-la num ritmo constante. Após dezenas de ciclos, o som de sua inspiração e expiração tornou-se quase imperceptível, embora a cada fôlego seu peito se inflasse como um grande fole.
O ser humano, por natureza, é um animal desconfiado. Xu Changsheng, que já vira de tudo neste mundo, conhecia charlatães de toda espécie, o que o tornava ainda mais difícil de se convencer. Contudo, paradoxalmente, sua curiosidade pelo desconhecido superava em muito a das pessoas comuns.
Ge Wuyou, o velho louco, passava os dias falando da Grande Via do Elixir Dourado, gabando-se de ser um velho imortal. Apesar de, por vezes, molhar a cama, sua doutrina parecia convincente e, quando entoava cantos do Dao, era digno de um mestre. Xu Changsheng, embora não acreditasse nele, sentia-se irresistivelmente curioso e, às vezes, pensava se não estaria diante de um verdadeiro sábio, como aquele personagem do filme “Kung Fu”.
Ge Wuyou lhe causava uma estranha mistura de familiaridade e mistério; Xu Changsheng era tomado tanto de curiosidade quanto de hesitação.
A técnica de meditação e respiração também fora ensinada por Ge Wuyou. No início, Xu Changsheng nem queria aprender, mas diante das chantagens e insistências do velho, acabou cedendo. Embora não acreditasse muito naquilo, também não viu mal algum; afinal, ajudava a acalmar a mente e a dormir melhor, então praticava de vez em quando.
Naquele dia, estava verdadeiramente enfurecido com o pai; a cabeça doía muito. Resolveu, então, praticar a respiração para dormir melhor e, quem sabe, acordar renovado no dia seguinte.
Afinal, lá fora estava seu próprio pai, um velho de gênio difícil, que nunca fora razoável na vida. Se não tentasse se acalmar, acabaria adoecendo de raiva.
Desta vez, porém, a prática da respiração foi diferente. À medida que mergulhava o pensamento no ritmo do ar, a dor na testa desapareceu. O incômodo frio que sentia antes deu lugar a uma frescura agradável, como se um ar-condicionado tivesse sido ligado dentro do corpo em pleno verão.
No início, a sensação era de frescor interno; logo depois, parecia que a temperatura do quarto inteiro baixava. Mas Xu Changsheng não percebeu as mudanças externas, pois, pela primeira vez, sua mente adentrava um espaço misterioso e inefável.
Lá fora, o pai ainda estava irritado, lavando a louça com estrépito e resmungando: “Moleque, por que se trancou tão cedo? Não vai conversar com seu velho? Já pensou que esta casa antiga está caindo aos pedaços? Se conseguíssemos vendê-la por dez milhões, eu te comprava um apartamento novo, dava mais dois milhões para o teu casamento e o resto garantiria minha velhice. Não vale a pena pensar nisso?”
Xu Changsheng, porém, não dava ouvidos. Estava completamente absorto, mergulhado numa esfera misteriosa e profunda.
Mesmo praticando essa técnica de respiração de forma intermitente por mais de dois anos, jamais tivera uma experiência como aquela. Como descrever? Era como se uma paisagem oculta se descortinasse diante dele, revelando um novo mundo.
Uma corrente morna, como o degelo na primavera, surgiu silenciosa de dentro do corpo e começou a se espalhar, lenta e suavemente. Xu Changsheng ficou extasiado e tentou, a princípio, direcionar aquela energia, como nos romances de artes marciais, fazendo-a circular pelos canais do corpo. Logo percebeu, porém, que não tinha controle sobre ela.
Desde pequeno, enfrentara muitas adversidades, o que o tornara alguém resignado diante dos infortúnios. Assim, não se incomodou e deixou que a corrente seguisse seu curso natural. Surpreendentemente, ao abandonar o controle, ela fluiu ainda melhor, tornando-se mais vigorosa, até subir diretamente para o ponto entre suas sobrancelhas, prestes a atingir o chamado “Palácio do Elixir Superior”.
Um som metálico ecoou!
Xu Changsheng sentiu como se uma lâmina golpeasse seu osso frontal; ouviu em seus ouvidos um estrondo como de metais colidindo, e diante dos olhos tudo pareceu se iluminar.
Com os olhos semicerrados, deixou a corrente morna circular sozinha pelo corpo, mergulhado num estado de ausência de si e do mundo, sem iniciativa própria. A luz parecia atravessar sua testa, vinda de dentro.
Através daquele brilho tênue, Xu Changsheng “viu” o mundo ao seu redor: os móveis, os eletrodomésticos, o pai limpando a Yamaha 250 no pátio...
Tudo parecia envolto numa neblina azulada, real e irreal ao mesmo tempo. O coração de Xu Changsheng disparou: “Abertura do Dao? Este é o processo mítico que todo verdadeiro praticante do Dao deve vivenciar? Nunca pratiquei de verdade, só conheci charlatães. Será que existe mesmo uma via autêntica? Será que o velho Ge é um sábio oculto? Não pode ser, não há magia neste mundo. Só posso estar enlouquecendo de raiva do meu pai!”
Ao pensar nisso, Xu Changsheng sentiu um calafrio. Ele já sofrera de depressão antes; sabia que, sob forte estresse, poderia ter recaídas graves, ou mesmo desenvolver esquizofrenia. Os sintomas que sentia agora eram exatamente como descreviam os médicos.
“Isso não é bom!”
Quis sair daquele estado estranho, lavar o rosto para se recompor, mas, por mais que tentasse, era como se estivesse paralisado. O corpo não obedecia à mente; até mexer o dedo mínimo parecia impossível.
Xu Changsheng entrou em pânico. “Estou acabado! Se soubesse, não teria discutido com meu pai por causa da velha casa. Se ele quer vendê-la, deixe-o! O dever de um filho é ser obediente, mesmo que o pai seja um gastador.”
Mil pensamentos tomaram sua mente: arrependimento, autocomiseração, revolta e dor. Sentiu até mesmo sua consciência se fragmentar; se não saísse logo daquele estado, talvez de fato enlouquecesse.
Por outro lado, sua audição nunca estivera tão aguçada. Ouvia o vento, os pássaros, os insetos, até o som da lama caindo da moto enquanto o pai a lavava. De repente, ouviu o ronco de um motor subindo a montanha, aproximando-se cada vez mais, até parar diante da casa.
Já passava das seis da tarde. Quem poderia fazer uma visita a essa hora, e ainda de carro? Seria o comprador de que o pai falara?