Capítulo Trinta e Quatro: Causa e Efeito
Longo saiu do quarto, com o ânimo já dissipado, e logo avistou sob a árvore de paineira a bela Jade, com as pernas delicadas estendidas de modo preguiçoso, ajustando a roupa com desleixo, e segurando em seus braços uma pequena raposa.
Então realmente havia uma pequena raposa vermelha; parece que a culpei injustamente, pensou ele. Mas duas horas atrás ela dizia que não sabia se era raposa ou cão, e agora já a tem no colo, como se fosse um animal de estimação de longa data… tão rápido assim?
Longo, dono de uma cara de pau sem igual, aproximou-se sorridente: "Senhorita Jade, está aproveitando a sombra? Ora, que raposinha mais bonita... e vermelha mesmo! Espere, estou começando a perder a vergonha aqui..."
Jade sorriu suavemente: "Na verdade você não precisa se sentir envergonhado; se não fosse pela minha sorte, talvez eu também não encontrasse a Vermelhinha. Ela é bem desafortunada, sabe? Uma raposinha de rua, provavelmente veio ao seu quarto porque estava com muita fome. Bastou que eu lhe desse uns restos de macarrão e ela não quis mais me largar..."
"Percebe-se que ela é bem apegada a você, mas é melhor não deixá-la se esconder sob seu braço, senão, com o tempo, vai acabar pegando um cheirinho de raposa..."
"Você!"
Longo continha um sorriso ambíguo; Jade falava meio sério, meio brincando. Não havia dúvidas de que a raposinha foi quem destruiu o incenso valioso, mas Jade já a havia conquistado antes que ele voltasse. Ela fingiu desconhecimento, inventando histórias de raposa e cão só para que Longo se confundisse.
Agora, sentada diante dele com a raposinha nos braços, vestindo um qipao, com as pernas graciosamente à mostra, exibia uma vulnerabilidade encantadora. Qualquer jovem comum, ao perceber que causou sofrimento a uma beleza dessas, teria pedido desculpas imediatamente, tomado pela emoção. Se fosse alguém facilmente seduzível, estaria completamente sob o domínio dela.
Essa senhorita vinda da capital era realmente muito especial.
Longo achava curioso: ao conhecê-la, Jade parecia uma profissional de elite, sofisticada e resoluta. Mas bastaram poucos dias para que ela se transformasse numa jovem cheia de manobras, determinada a cativá-lo. Ele se lembrava bem de como ela não gostava dele no início e até ofereceu dinheiro para que ele se mudasse. Agora, em tão pouco tempo, empenhava-se tanto em agradá-lo? Vestida como uma feiticeira, segurando uma raposa felpuda, não era só para despertar o desejo instintivo dos homens?
Com toda a sua inteligência, Longo ainda não conseguia entender o motivo. Mas tinha uma qualidade: quando não compreendia algo, deixava de lado, encarava como normalidade, e assim vivia com leveza. Quem insiste em entender o inexplicável só se tortura. É pura tolice.
"Ha ha, foi só uma brincadeira, não se ofenda, senhorita Jade. Com sua beleza, mesmo que fossem dez raposas se aconchegando no seu colo, ainda assim seria tudo perfumado... Então foi mesmo essa pequena criatura que causou o transtorno. Peço desculpas mais uma vez! Deixe-me ver essa fofura, que pelagem magnífica, será que é uma ‘raposa de fogo’ lendária? Dizem que são raríssimas... De onde você veio, hein, pequena? Nas montanhas próximas não há raposas como você..."
Enquanto falava, Longo usava discretamente sua percepção especial para examinar a raposinha. Desde que esse animal entrou no quarto, o espírito da velha raposa sumiu, o que era estranho. Porém, por mais que ele investigasse, não parecia que a velha raposa havia possessado o corpo da pequena. E que a raposinha tivesse devorado o espírito da velha era ainda mais impossível. Longo tinha certeza: mesmo sem usar suas habilidades, podia ver que era apenas um animal comum. Nunca viu um monstro, mas sabia que toda criatura que se tornava espiritual tinha olhos profundos e enigmáticos, como se envoltos em mistério; um olhar desses poderia arrancar a alma de qualquer mortal, levando-o a tristeza ou êxtase. Mas o olhar da raposinha era claro, com um toque de selvagem, um pouco de confusão e até medo—apenas uma raposa normal.
O desaparecimento da velha raposa era estranho; o surgimento da pequena, também. Mas, com suas habilidades limitadas, Longo não via ligação entre os dois fatos, talvez fosse só coincidência—talvez estivesse pensando demais.
"Esse é o seu pedido de desculpas?"
Jade olhou para Longo, duvidando que ele tivesse algum sentimento humano. Por um instante, ela se sentiu insegura, arrependida do compromisso com sua família, das promessas feitas ao avô e ao pai de ‘cumprir tudo com sacrifício’. Até os cosméticos, tão essenciais para uma moça, ela trazia em quantidade contada, e já estavam no fim após poucos dias em Chu. Agora, nem ao sacrificar sua beleza conseguia afetar um simples comerciante!
"Ha ha, não gostou do meu pedido de desculpas, senhorita Jade? Não tem problema... posso compensar de outra forma, desde que esteja ao meu alcance. Mas outros pensamentos, eu aconselho: não insista. Não sei porque você investiu milhões para comprar a casa ancestral da minha família, nem porque faz questão de permanecer nessa mansão milionária, vivendo de modo tão modesto, pedindo pratos sofisticados para os outros enquanto come restos e macarrão simples, como se fosse uma celebração..."
Longo sorriu, e de repente seu olhar tornou-se afiado: "E eu também não quero saber. Que tal simplesmente sermos bons vizinhos? Você me chama de Longo, eu te chamo de senhorita Jade, com o coração aberto, e quem não gostaria de viver ao lado de uma bela mulher como você? Mas devo lhe aconselhar, não busque o que não deve, nem investigue o que não convém—é o princípio dos experientes. Saber demais nunca é bom, especialmente sobre ‘certos’ assuntos..."
Depois dessas palavras, Longo voltou a ser gentil: "Está na hora do jantar, senhorita Jade. O que vai querer hoje? Eu preparo rapidinho para você. E não vou ser tímido: sempre quis provar o bife do restaurante ocidental do Hotel Jiamei de Chu, mas sou pobre, não posso pagar por luxo de cinco estrelas... Que tal pedir um para mim?"
Jade lançou-lhe um olhar de desdém: "Que ambição a sua, já vou pedir! Mas hoje eu quero o mais autêntico tofu apimentado e carne de porco com molho de peixe, já comi os originais, será que você consegue?"
"Ha ha, se não sei, vou aprender! O importante é a atitude, não o resultado. Fique à vontade, senhorita Jade, Longo já vai para a cozinha."
Longo riu e deu alguns passos, mas parou como se tivesse lembrado de algo: "Melhor não ficar sob essa velha paineira, atrai energia negativa, pode pegar um resfriado mesmo no verão. E esse banquinho é muito desconfortável, embora realce suas curvas, beleza não mata a fome, né? É cansativo... Não prefere a poltrona de freixo que meu pai lhe deu, que está na sala norte? Deixe que eu a levo para debaixo da cerejeira, que é uma árvore de energia quente, ótima para moças."
"Esse sujeito..."
Jade observou Longo, que foi cambaleando buscar a cadeira, e não resistiu a torcer os lábios, lançando um olhar de desprezo para as costas dele. Ela tirou do pescoço um pingente de jade amarela, semicerrando os olhos: "Não pode estar errado. Quando hoje de manhã eu segui a Vermelhinha até o quarto desse sujeito, ainda a mais de um metro do grande vaso de feng shui, meu ‘pingente espiritual’ já reagiu; mas quando a raposinha tocou o vaso, o pingente parou de vibrar. Nos primeiros dias, ao encontrar esse homem, o pingente não reagiu, mas agora, ao vê-lo sair do quarto, pulsou ainda mais forte do que diante do vaso... Meu pai dizia: se o pingente espiritual se agita repetidamente, ou chega a se quebrar, é porque o grande destino da família Jade está próximo..."
"Será que esse destino se fixa nesse homem? Mas ele é mais astuto que uma raposa, ao me encarar parecia lidar com uma velha de oitenta anos... Só de pensar dá vontade de suspirar!"
Com a raposinha nos braços, Jade ficou perdida em pensamentos, e suas sobrancelhas delicadas se franziram em um desenho de inquietação...