Capítulo Vinte e Dois: Até o Buda Disputa por um Incenso
Nos primeiros vinte anos de sua vida, Xu Changsheng foi duramente castigado pela deusa do destino, por isso aprendeu a ser cauteloso. Cauteloso diante das adversidades, mas também diante da sorte; quando enfrentava o inverno, conseguia transformar-se em um salgueiro primaveril, mas mesmo com a brisa da primavera, lembrava-se dos dias de neve. Aos vinte e seis anos, Xu Changsheng já era maduro como um velho gengibre de inverno.
Na noite anterior, portou-se como um veterano experiente diante do Grande Imortal, falando com segurança, envolto em trovões, caminhando como um ser celestial exilado. Revelou segredos, prendeu o espírito da raposa no cabaço de feng shui; entre risos e decisões, até o velho policial ficou à mercê de suas palavras, como se tivesse visto um verdadeiro imortal!
Que façanha! Como não se sentir orgulhoso e deixar que o ego se inflasse por dias e noites? Era de se comprar caixas e mais caixas de fogos de artifício, nem cinco mil explosões bastariam, ao menos vinte mil, esperando o momento em que a polícia viesse lhe entregar o prêmio de bom cidadão e o diploma, só para estourar tudo de uma vez!
Agitar todas as tias Wang, Li, Zhang e Zhao da vizinhança, fazê-las cochichar, espalhar boatos e correr atrás da verdade, que por ora continuaria encoberta, deixando-as ansiosas, inquietas, com mil perguntas sem resposta, até que no dia seguinte, ao ligarem a televisão, descobrissem que o rapaz da família Xu havia feito algo grandioso!
Isso sim era se exibir, era ostentar, era tornar-se famoso no bairro! Quem não diria então que a sorte finalmente sorrira para a família Xu?
Para ser honesto, essa ideia também passou pela cabeça de Xu Changsheng, mas logo ele a reprimiu. Ter aberto o terceiro olho, e daí? Ainda estava longe de ascender aos céus em pleno dia, a vida precisava seguir como sempre.
No dia seguinte, Xu Changsheng levantou cedo, deu instruções à velha raposa que passara a noite tremendo de frio dentro do cabaço de feng shui, colocou a bolsa de ervas nas costas e saiu, animado, em direção ao Monte Yunlong.
O Monte Yunlong ficava a apenas algumas centenas de metros do Monte Hufen, uma caminhada curta. Primeiro, Xu Changsheng passou na casa do senhor He para pegar seu varal de carga, depois foi ao mercado ao pé da montanha buscar ovos de chá e mingau de tofu que havia encomendado, preparando sua mercadoria. No topo da montanha, montou sua pequena banca, sentou-se ao lado, cruzou as pernas e ficou esperando os clientes.
Nos últimos anos, a cidade de Chu havia desenvolvido muitos pontos turísticos novos, o que fez com que os visitantes do Monte Yunlong diminuíssem bastante. Exceto nos dias de oferendas, o negócio monopolizado por Xu Changsheng não atraía muitos clientes.
Quase dez horas e ele havia vendido apenas duas caixas de incenso, sete ou oito tigelas de mingau de tofu e uma dúzia de ovos de chá.
Enquanto se sentia frustrado, uma figura apareceu diante de si, e uma voz clara soou em seus ouvidos:
— Xu, quanto ainda tem de mingau de tofu, bolinhos de óleo e ovos de chá? Quero tudo...
Xu Changsheng olhou para cima e reconheceu: era Qingping, a jovem monja do Templo Xiangyun.
A menina sorriu para ele, agachou-se abraçando os joelhos diante da banca, esticou um dedo delicado e foi contando:
— Deixe-me ver quanto ainda tem...
— É você, Qingping? Já não te disse para não me chamar de benfeitor? O Templo Xiangyun é grande e próspero, não sou eu quem pode fazer caridade.
— Eu vou pagar, seu pão-duro... — Qingping fez um biquinho, revirou os olhos e logo caiu na risada.
— O templo de vocês não faz a própria comida? Por que veio comprar aqui?
Apesar de pequeno e situado abaixo do Grande Templo Buda no Monte Yunlong, o Templo Xiangyun já tinha algumas décadas de história. Além do abade, o Mestre Yizhen, havia cinco ou seis jovens monges e monjas, que normalmente preparavam as próprias refeições e, por vezes, serviam comida vegetariana para os turistas.
Xu Changsheng estava ali há anos, mas era a primeira vez que alguém do templo vinha comprar comida. Já os monges do Grande Templo Buda, quando tinham algum trocado e vontade de comer algo diferente, vinham experimentar seu mingau de tofu.
Xu Changsheng embrulhou todo o mingau de tofu, os bolinhos e os ovos de chá para Qingping, cobrou cento e cinquenta yuans e sorriu:
— Consegue carregar tudo? Quer que eu ajude a levar?
— Subestima as pessoas! Treino com a mestra há anos, carregar isso não é nada.
Qingping pegou a comida resmungando, deu alguns passos, mas depois se virou e disse:
— A mestra vai embora... Nós talvez tenhamos que segui-la para fora da cidade de Chu. Hoje ninguém teve ânimo de cozinhar...
— Como assim, o Mestre Yizhen vai embora? E o Templo Xiangyun?
Xu Changsheng ficou surpreso. O Grande Templo Buda e o Templo Xiangyun, um templo e um mosteiro no Monte Yunlong, eram pontos turísticos famosos, carregando as memórias de inúmeros habitantes de Chu.
Por ter nascido sob uma sorte frágil, desde pequeno, a mãe de Xu Changsheng o levava sempre àqueles dois lugares para acender incenso, orando tanto ao Buda quanto ao Dao. Com o tempo, como o Grande Templo Buda ficou lotado e começou a cobrar ingresso, passaram a frequentar mais o Templo Xiangyun.
Saber que o Mestre Yizhen estava indo embora e o futuro do velho templo era incerto deixou Xu Changsheng com um certo pesar.
Quis chamar Qingping para perguntar mais, mas logo avistou Shou Yang, vindo cambaleando pela trilha da montanha, apontando para as costas de Qingping e acenando para ele.
Apesar do apelido, Shou Yang estava longe de ser magro: com 1,60m e 90 quilos, não correspondia ao nome. Passou metade da vida tentando emagrecer, jurando que um dia ficaria esguio como um jovem choupo, e daí veio o apelido.
Como todo gordinho, Shou Yang era sociável. No Monte Yunlong, desde o porteiro senhor He até o monge gordo do Grande Templo Buda e a bela monja do Templo Xiangyun, todos gostavam dele. Era o verdadeiro “mapa vivo” da montanha, fofoqueiro e curioso.
Ao ver a expressão de Shou Yang, Xu Changsheng logo percebeu que ele sabia de tudo sobre o Templo Xiangyun.
Shou Yang sentou-se e, depois de revirar tudo em busca de comida, lamentou:
— Que movimento hoje! Nem um ovo de chá sobrou?
Xu Changsheng resmungou:
— Não jurou há meio mês que ia emagrecer? Vai quebrar o voto de novo? Para de procurar, a Qingping levou tudo, você viu.
— Emagrecer não precisa de pressa, devagar, devagar... — Shou Yang soltou uma risada sem graça. — Aquela garota comprou tudo... Parece mesmo que o Templo Xiangyun está em desassossego; nem cozinheira têm mais...
— O que você ouviu? Conta aí. O Mestre Yizhen era um bom abade, por que vai embora assim de repente?
— A notícia saiu ontem à tarde, você não estava, claro que não sabe... — Shou Yang suspirou. — Tudo por causa de dinheiro...
Xu Changsheng era muito esperto e logo deduziu:
— Será porque o Templo Xiangyun não recebe muitas oferendas e a Associação Daoísta quer substituir o Mestre Yizhen?
— Exato! Não é à toa que todos dizem que você é o mais inteligente. Se quisesse competir com a gente, nós íamos passar fome.
— Para de conversa fiada e fala sério.
— Não dá para culpar a Associação Daoísta. Hoje em dia tudo é questão de eficiência. Templos e mosteiros vivem de oferendas. Olha o Grande Templo Buda: já ampliaram três vezes, ingresso a dez yuans, e continua lotado. Diante do Buda, de Guanyin, dos Dezoito Arhats, dos Quatro Reis Celestiais, incenso e dinheiro se acumulam... Agora olha o Templo Xiangyun. O Mestre Yizhen já está há vinte anos lá, e tudo continua igual. As empresas de hoje só pensam em meritocracia, e a Associação Daoísta não pode viver de ar...
— Sabia que era isso — Xu Changsheng sorriu amargamente. — Desde sempre não existe refúgio absoluto, até o Buda compete por incenso... Sabe quem vai assumir como abade?
— Isso eu não sei mesmo. Estranho que, desta vez, a Associação Daoísta guardou segredo como nunca. Quem não sabe pensa que estão tramando uma revolução.
— Ora, até você não conseguiu descobrir? Isso sim é interessante.
Xu Changsheng sorriu, sentindo-se ainda mais curioso.