Capítulo Oitenta e Nove: A Primavera do Velho Louco (Parte Um) Primeira Atualização
O médico responsável pelo filho de Fan Xue e o residente que acompanhava o caso sentiam-se à beira da loucura, lançando olhares cheios de incompreensão ao apresentador renomado.
Tudo bem que você seja uma figura conhecida na cidade, até o diretor do hospital lhe concedeu certa consideração, mas não pode fazer o que bem entende, não é? Seu filho sofre de um problema médico de âmbito mundial; especialistas das capitais vieram para discutir o caso, mas nem conseguiram identificar a causa da doença e acabaram por voltar de mãos vazias.
Compreende-se a angústia dos familiares, mas não é razão para recorrer a tratamentos desesperados. Mesmo que trouxesse um velho médico sem licença, vestido de túnica longa e barba de bode, talvez aceitássemos, pelo menos ele teria uma aparência decente; mas esse rapaz diante de nós, o que é afinal?
Parece ter pouco mais de vinte anos, veste-se de forma pouco convencional, evita contato visual, e ainda carrega um enorme cabaço roxo na cintura. Se tivesse uma espada de madeira nas costas, seria o retrato de um charlatão. Além disso, segura um guarda-chuva de tecido preto, mesmo sem sinal de chuva há dias.
O médico Sun, temendo estar enganado, olhou pela janela para confirmar o céu claro e ensolarado. Em um dia tão bom, até criaturas fantásticas se atreviam a circular pelo hospital? Será que não há ninguém para desmascarar falsos mestres por aqui?
— Apresentador Fan, eu sou o médico responsável pelo seu filho. Se algo acontecer, sou eu quem responde. Chamar alguém de fora para tratar o paciente assim, sem mais nem menos... E se houver problemas, como fica? Não é apropriado.
O doutor Sun esforçou-se para conter a irritação e manter a voz calma. Só porque era Fan Xue, pois se fosse um cidadão comum, já teria sido expulso do hospital. Não queria se envolver em tratamentos improvisados!
— Doutor Sun, este... este é...
Fan Xue ainda estava profundamente abalada. O acontecimento no Monte Zhu na véspera fora tão extraordinário que, mesmo tendo presenciado, parecia um sonho. O velho fantasma Lou Jian Dong envolto em névoa negra, o espírito da espada vermelho suspenso no ar, e aquela criança com rosto de espada, tão parecida com seu filho...
Mesmo com Xu Changsheng explicando tudo de forma calma e gentil, quase transformando a experiência assustadora numa fábula entre Branca de Neve e sete pequenos homens, Fan Xue ainda suspeitava de estar com algum distúrbio mental. Talvez tudo não passasse de uma ilusão?
O distintivo do velho Wang serviu de prova concreta, e o policial Wang Qiang, após beber a água encantada preparada por Xu Changsheng, recuperou-se instantaneamente, o que deu a Fan Xue alguma esperança. Caso contrário, aquele momento não teria acontecido. Ainda assim, mesmo decidida a enfrentar a incompreensão e a ira do doutor Sun, Fan Xue não sabia como apresentar Xu Changsheng.
Dizer que ele era discípulo secular do mestre Daoísta Yizhen do Templo das Nuvens Auspiciosas, com poderes sobrenaturais? Fan Xue imaginava que seria enviada diretamente ao pavilhão do chá, sem ter habilidades para fugir do manicômio; quem cuidaria do filho ainda lactente?
Percebendo o embaraço de Fan Xue, Xu Changsheng sorriu levemente e estendeu a mão para o doutor Sun:
— Doutor Sun, certo? Aprendi medicina daoísta. Não uso agulhas nem medicamentos, tampouco recorro a ultrassons ou radiografias... Veja, basta que eu toque a testa dele e chame seu nome. Se for possível curar, a criança acordará. Se não, não haverá qualquer prejuízo; você não terá responsabilidade. Está de acordo?
— Você diz que aprendeu medicina daoísta, não usa agulhas nem medicamentos, apenas toca a testa e cura?
O doutor Sun e o residente trocaram olhares e riram juntos, até perceberem o rubor de Fan Xue e se controlarem, olhando Xu Changsheng com um misto de ironia:
— Muito bem, já que não vai usar agulhas ou medicamentos, em consideração à criança, deixarei você tentar. Mas exijo acompanhar todo o procedimento. Nada de imprudências. E se não conseguir resolver, peço que se retire e não engane mais familiares de pacientes, eles já sofrem demais.
Xu Changsheng assentiu:
— Como quiser.
Aproximou-se do leito, abriu parcialmente o guarda-chuva, enfiou a mão dentro e, ao retirar o punho fechado, aproximou-o da testa da criança, soltando-o e dizendo:
— He Chu Peng, acorde! Se não despertar agora, quando será então?
Esse homem é realmente louco!
O doutor Sun fez um sinal ao residente, que saiu discretamente do quarto.
Nem era preciso chamar um psiquiatra para perceber que aquele jovem era perturbado: abrir o guarda-chuva em um quarto ensolarado, apanhar o ar, realizar um ritual diante dos médicos... Era risível, difícil entender como Fan Xue, uma mulher moderna e instruída, podia ser ludibriada por esse rapaz. Era o exemplo perfeito de desespero.
O doutor Sun aproximou-se de Xu Changsheng, pronto para detê-lo assim que terminasse sua performance. O residente já havia ido buscar a segurança, era melhor controlar o paciente antes que ele causasse problemas.
— Hm...
O filho de Fan Xue, que completara três meses e acabara de ser transferido da UTI para o quarto comum, de repente abriu os olhos lentamente. Seus lábios se moveram e ele conseguiu emitir sons!
Aquele pequeno que nunca chorara desde o nascimento agora soltava murmúrios, com olhos grandes e vivos, demonstrando uma expressão incomum para a idade.
Ele olhou para Xu Changsheng, depois virou-se para a mãe. Os bracinhos tentaram se erguer na direção de Fan Xue, como se pedisse colo.
— Pengpeng, Pengpeng!
As lágrimas de Fan Xue transbordaram, e como uma leoa protegendo o filhote, correu até o leito, abraçou o filho e o beijou da cabeça aos pés, sem esquecer nem mesmo suas partes íntimas, sentindo aquele cheiro peculiar, entre o ranço e o almíscar, que a inebriava.
O doutor Sun sentou-se no chão, completamente perdido. Não por ter sido desmentido por Xu Changsheng, mas porque o que acabara de ver derrubava todo o conhecimento adquirido em mais de trinta anos de medicina, como se tudo o que aprendera tivesse sido em vão; sua confiança estava prestes a ruir.
— Dê-lhe leite, de preferência materno.
Xu Changsheng sorriu para Fan Xue, que se agarrava ao filho sem querer soltá-lo:
— Até os três anos, cuide para que não se perca repentinamente. Essa criança não é como as outras, passou por muita coisa. Depois dos três anos, com o fechamento da fontanela, o passado será esquecido e nada mais será relevante.
Além disso, nesses três anos, acenda um incenso após ele dormir, isso protegerá seu espírito e evitará que se perca novamente. Evite sustos, fuja de festas ou lutos, e após três anos, leve-o ao Templo das Nuvens Auspiciosas para me encontrar.
Essa criança tem uma ligação comigo, e eu lhe devo uma dívida de gratidão, que deve ser paga.
No cabaço roxo já havia o remanescente do espírito da espada, agora sem controle, como um embrião adormecido. Mesmo com Fan Xue recusando terminantemente aquele objeto estranho, dizendo que só queria salvar o filho, ficou claro que uma dívida enorme havia sido contraída. Quanto mais Xu Changsheng avançasse em seu cultivo, mais forte seria o vínculo.
— Lembrei de tudo...
Fan Xue olhou para Xu Changsheng com emoção, gratidão e uma pontinha de temor.
— Você pode contar sobre isso entre pessoas próximas, não me importo em ser conhecido. Mas em público, prefiro que não mencione. Não quero virar médico, nem transformar o Templo das Nuvens Auspiciosas em hospital, roubando o trabalho desses profissionais.
Xu Changsheng sorriu, passou levemente a mão na testa do doutor Sun e saiu do quarto.