Capítulo Quarenta e Três O coração é como as montanhas distantes, onde o vento se levanta por si só; entre campos de amoreiras e mares antigos, a criação se realiza Segundo lançamento

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 2546 palavras 2026-02-07 13:16:34

Ao tocar o âmago do seu ser, Xu Changsheng teve uma súbita clareza e, ao contemplar novamente seu mundo interior, já não se percebia como antes: “eu sou eu, eu me observo, busco meu próprio método, me apresso em minha jornada”, mas começou a adentrar gradualmente um estado livre de apegos a si mesmo ou ao outro; onde, apesar da infinita mutação do céu e da terra, o coração permanece imóvel; ao abraçar o mundo, encontra-se além dele.

Na verdade, a realização das três escolas — confucionismo, budismo e taoismo — não difere em essência, apenas têm ênfases distintas e se complementam mutuamente. Nesse vislumbre tênue e nebuloso, Xu Changsheng começou a tocar pouco a pouco o verdadeiro sentido da “união das três doutrinas”.

A flor vermelha, o lótus branco, a folha de lótus azul: as três doutrinas são, no fundo, uma só família. O apego à diferença é o verdadeiro demônio; se ainda houver um demônio no coração, como se pode buscar o caminho supremo ou alcançar a longevidade?

Num instante de perfeita compreensão, Xu Changsheng sentiu a mente mais lúcida do que nunca, percebendo cada mudança e movimento em seus meridianos, vasos sanguíneos, cada célula do corpo — tudo se modificava.

O mais maravilhoso era que essa transformação seguia uma direção misteriosa e sublime, como se fosse resultado de sua própria vontade, mas também claramente um movimento espontâneo, o verdadeiro sentido de “agir é difícil, não agir nada deixa de ser feito”.

A flor de lótus do sublime princípio e a semente verdadeira do caminho surgiam repetidas vezes em sua mente, trazendo-lhe uma alegria imensa.

Nesse estado indescritível, os trinta e seis pontos misteriosos dos doze meridianos principais sofreram uma transformação radical!

Era como se, na escuridão, subitamente se acendessem trinta e seis fogueiras, ou como faróis brilhando num vasto mar noturno. Aqueles trinta e seis pontos, antes apenas emitindo uma tênue luz branca, explodiram de repente em radiante claridade, projetando milhares de raios.

Trovões ribombantes ecoaram, movendo-se, girando e avançando pelos doze meridianos! Por onde a luz do trovão passava, os meridianos que normalmente exigiriam anos, até décadas, de árduo cultivo para serem desobstruídos por praticantes comuns das artes marciais, eram atravessados um a um!

Dos doze meridianos principais brotavam inúmeros “galhos”, formando uma rede intricada de canais energéticos, como corpos celestes, vastos como o universo, todos iluminados um a um, de um pavimento ao outro… Num piscar de olhos, Xu Changsheng conectou doze pavimentos sucessivos, erguendo em seu corpo uma miríade de grandiosas moradas!

Desta vez, o avanço ocorreu sem esforço consciente, sem técnicas superiores de manipulação energética, sem fórmulas taoistas de cultivo — foi totalmente natural, como a água fluindo.

Existem muitas escolas de cultivo vital no taoismo: há o quietismo de Laozi e Zhuangzi; há métodos ferozes de forjar o corpo como uma espada; há aqueles que, por meio de talismãs, captam o poder do céu e da terra, transformando-se em encarnações do trovão; outros buscam o elixir da imortalidade através de alquimia externa; e ainda há os que, pela respiração e absorção das essências do céu e da terra, buscam reforçar o corpo…

No entanto, todos esses métodos são fruto do esforço consciente, pertencem ao domínio do agir. Mesmo o quietismo de Laozi e Zhuangzi requer um processo de “agir para alcançar o não agir”, o que, na verdade, ainda os coloca entre os métodos intermediários ou inferiores; comparado ao “caminho natural” proposto por Laozi em sua maturidade, em que tudo se dá espontaneamente, a diferença é descomunal.

É como plantar flores de propósito — o método mais inferior; inserir um galho de salgueiro ao acaso parece engenhoso, mas ainda é uma ação deliberada. Apenas as flores e ervas silvestres que brotam sob a chuva e o vento da primavera, cobrindo as montanhas e campos, representam a verdadeira criação suprema, em perfeita harmonia com a natureza.

A realização de Xu Changsheng pode ser resumida assim: “O coração é como uma grande montanha de onde o vento se ergue, transformando campos de amoreiras em oceanos, obra da própria criação”. Embora não tenha ascendido à imortalidade em pleno dia, seu feito iguala-se ao da própria natureza.

Trovões ribombam, chuvas torrenciais caem!

Se alguém estivesse ao lado de Xu Changsheng nesse momento, veria apenas um jovem sentado calmamente em meditação no topo da montanha, sem nada de extraordinário; mas, dentro de seu corpo, relâmpagos cintilavam, “chuvas” caíam copiosamente — como se representassem as mudanças do céu e da terra!

Essa chuva não vinha do alto, nem dos rios ou mares; não era obra dos céus, nem dos reis-dragão; mas sim surgia da fonte vital do corpo, das águas mais profundas e misteriosas dos rins. Assim que os relâmpagos chegavam, era como ondas invertendo o mar: fluxos de energia vital subiam direto pelos doze pavimentos, circulando por todo o corpo.

No entanto, ainda era uma energia impura, produto do pós-céu. Após atravessar os doze meridianos de Xu Changsheng, era gradualmente refinada pela energia pura e luminosa dos trinta e seis pontos, transformando-se em energia interna extremamente pura, que começava a se concentrar no baixo abdômen.

Esse processo durou duas ou três horas. Só então pararam de surgir fluxos do mar dos rins. O baixo abdômen de Xu Changsheng expandia e contraía, emitindo sons como o mugido de um boi — havia sido aberto um espaço misterioso e profundo, praticamente impossível de descrever em palavras: o tão sonhado “mar de energia” dos praticantes das artes marciais!

Uma vez formado o mar de energia, para um artista marcial comum isso já seria o auge: a partir desse ponto, há energia interna disponível, a base para romper os grilhões do ser humano comum e tornar-se sobre-humano.

Se Xu Changsheng subisse agora numa pista olímpica, facilmente se tornaria o rei do atletismo; se entrasse num ringue de boxe, poderia desafiar campeões como Tyson sem se preocupar com categorias de peso. Quem ousasse tentar desmascará-lo, em minutos seria transformado em um saco de pancadas…

— Que fome! —

Xu Changsheng abriu os olhos de repente, segurando o estômago que roncava como trovão, a saliva pingando no chão. Sentia-se capaz de devorar um boi inteiro!

Dessa vez, ao alcançar tal estado, desobstruíra de uma só vez os doze meridianos, subira doze pavimentos, ativara a água dos rins e refinara a energia; embora não fosse a essência primordial, mas apenas a energia impura do pós-céu, sentia-se mais exausto do que Ximen Qing depois de lutar três dias e três noites seguidos. Como não estaria faminto? Agora, tudo ao redor lhe parecia alimento.

O sucesso no cultivo e o aumento do apetite são uma verdade absoluta, não uma piada; isso respeita a lei da conservação da matéria, é pura ciência.

A mente de Xu Changsheng estava repleta de pratos das diversas cozinhas, iguarias de mar e montanha, miojo, churrasco, sopa picante, panquecas recheadas e ensopados… Ansioso, seus passos aceleraram sem perceber, e acabou dando um salto de mais de dois metros. Felizmente, no Pico das Nuvens Crescentes crescem apenas pinheiros baixos, caso contrário teria batido a cabeça.

De longe, viu Qingpinger correndo ao seu encontro desde a base do pico. A elevação não passava de cinquenta metros, um pequeno morro. Agora, com sua audição dez vezes mais aguçada, mesmo contra o vento, conseguia ouvir a voz entrecortada de Qingpinger:

— Lao Xu… tem… comida…

— Comida? —

Xu Changsheng ficou surpreso, sentindo uma onda de calor no peito.

No fim das contas, Qingpinger era quem mais cuidava dele. Mas como ela sabia que ele estava com fome justo naquele momento? Não era apenas sua estrela da sorte, mas também parecia adivinhar tudo o que se passava com ele. Mas onde estaria a comida? Será que estava escondida sob o amplo manto da garota?

Ao pensar nisso, Xu Changsheng se sentiu ainda mais comovido, certo de que não era em vão o carinho que tinha pela pequena irmã taoista. Apresou-se em ir ao seu encontro, dizendo com carinho:

— Qingpinger é mesmo a melhor, sabe que o irmão Xu está com fome e veio trazer comida… Mas onde está a comida?

Qingpinger, intrigada, respondeu:

— Não tem comida, não. Ainda não está na hora da refeição. Ah, lembrei! Alguém deixou uma mensagem para você no perfil do nosso templo das Nuvens Crescentes. Venha ver…

Ela parecia conter o riso, o rostinho ficando vermelho.

— Perfil do templo? —

Xu Changsheng lembrou que tinha pedido para Heisan e os outros criarem isso dias atrás. Afinal, já era tempo do templo se modernizar. Não imaginava que fariam isso tão rápido, ainda mais que já houvesse mensagens!

Pegou o celular de Qingpinger e viu que a mensagem era simples e direta, indo ao cerne da questão:

“Lao Xu, sou Yan Yu, a Yan Yu que está morrendo de fome. Minha comida ficou horrível. Se você não voltar logo, eu e Honghong vamos morrer de fome.”

Qingpinger também esticou o pescoço para espiar e, rindo, disse:

— Quem é Yan Yu? E quem é Honghong? Irmão Xu, você não é nada honesto…