Capítulo Setenta e Sete: Comunhão com o Espírito do Céu e da Terra — Primeira Parte

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 2426 palavras 2026-02-07 13:17:13

O Templo das Nuvens Auspiciosas, na verdade, não era pequeno. Apenas, devido à má administração do mestre Daoísta Yizhen, o incenso e as oferendas rarearam, tornando-se difícil chamá-lo de grande templo por falta de recursos. Quanto à extensão de suas terras, não ficava atrás do grande Templo do Buda, situado mais acima.

O templo era dividido em três partes. A primeira consistia no pátio pavimentado com lajes de mármore branco, atrás do qual se erguia o Salão de Zhenwu. Passando por esse salão, chegava-se ao segundo pátio e ao Salão dos Três Puros, local onde Yan Yu assumira o cargo de abadesa e onde costumava medir forças com Xu Changsheng.

O terceiro pátio incluía o Pico das Nuvens Auspiciosas e o jardim dos fundos, bem como os dormitórios do abade e dos discípulos. Diziam que, nas épocas de chuva, o pico era envolto por espessas névoas; podia-se subir até o topo, colher o vapor das nuvens e contemplar o céu, razão pela qual o templo recebera esse nome.

Em dias claros, do alto do pico, era possível avistar um mar de flores. O mestre Yizhen, de temperamento caseiro e disperso, mas não desprovido de um certo romantismo, cuidou desse jardim durante décadas, tornando-o um dos belos cenários do templo. Não só encantava meninas de espírito pueril como Qing Ping’er, mas até mesmo Xu Changsheng, um homem feito e já iniciado nos mistérios do Dao, nutria grande apreço por ele.

— Irmão Changsheng, você é mesmo uma pessoa estranha. Ontem não fez uma aposta com aquela garotinha? Por que não vai logo transformar seu milhão? O que faz aqui, apreciando flores? Se quer saber, nem deveria ter apostado com aquela menina — é diminuir-se demais.

Naquele dia, Xu Changsheng não levou Qing Ping’er para cultivar juntos. O mestre acabara de partir, então era justo dar um pouco de liberdade à pequena, sempre sedenta por diversão e em busca de escapar dos estudos. Ele, por sua vez, sentou-se de pernas cruzadas no topo do Pico das Nuvens Auspiciosas, os olhos semicerrados, contemplando de longe o mar de flores lá embaixo.

O jardim era repleto de variedades: havia peônias, lírios, peônias-doce, deutzias, celosias — um verdadeiro jardim botânico em miniatura. Xu Changsheng, ao contrário dos visitantes comuns, apreciava as flores de modo diferente, com a mente presente mas o espírito distante; admirava a essência e a postura das flores, sem se entregar por inteiro à contemplação.

Esse estado de espírito era sutil, possuía uma aura de mistério e elevação, de modo que o velho fantasma Lou Jian Dong, recém-liberto da cabaça, não conseguia parar de observá-lo de cima a baixo.

Na véspera, Xu Changsheng e Yan Yu haviam trocado farpas no salão, terminando por selar uma aposta. Lou Jian Dong testemunhara tudo e, em sua opinião de fantasma centenário, a atitude de Xu Changsheng era incompreensível: um verdadeiro mestre, capaz de controlar o trovão e a eletricidade, em vez de buscar a imortalidade, estava a disputar com uma mera mortal? Para Lou Jian Dong, Yan Yu não passava de uma criança, e ver Xu Changsheng, um “pequeno verdadeiro homem”, implicando com uma menininha, era o cúmulo da ociosidade.

Na noite anterior, uma forte chuva caíra; pela manhã, o tempo transformou-se em uma garoa fina e persistente. Lou Jian Dong, abrigado sob um pequeno pinheiro, não passava, à distância, de uma figura diminuta envolta em névoa negra. Para provar sua lealdade, ele havia dispersado suas almas e foi selado com o talismã dos cinco fantasmas por Xu Changsheng, esgotando-se de tal modo que não sabia quantos anos seriam necessários para recuperar a antiga forma.

— É só um milhão, por que tanta pressa? Você mesmo disse que é apenas uma garotinha. Por acaso teme que eu perca para ela? —

Os olhos de Xu Changsheng continuavam fixos no mar de flores, e ele sorriu levemente: — Quanto à aposta, para você pode ser uma piada.

— Você, um velho monstro de trezentos, quatrocentos anos, sente isso porque sua vida foi dedicada ao estudo e, depois, às artes marciais. Se algo lhe prendeu o coração, foi apenas aquela senhorita Yue Ru, que reencarnou sete vezes. Para alguém como você, é difícil compreender que, mesmo no mundo dos mortais, há caminhos a serem trilhados: o caminho dos céus, o dos imortais, mas, sobretudo, o caminho dos pequenos, dos anônimos, com suas paixões e disputas. Acaso isso também não é Dao?

— Aquela Yan Yu deixou de viver confortavelmente na capital para vir a Chu assumir o papel de jovem sacerdotisa. Não creio que seja mera paixão por disfarces. É o caminho dela. E eu, seja como pequeno verdadeiro homem ou como simples Xu Changsheng, que diferença faz? Enquanto não alcanço o Dao e não adentro o mundo dos imortais, preciso viver neste mundo, ter em que acreditar, o que desprezar, compromissos a assumir, amores e ódios a nutrir.

— Às vezes, parece que seguimos a corrente, empurrados pelo destino, mas não é esse, afinal, o processo de temperar o coração no mundo dos homens?

Lou Jian Dong olhou para Xu Changsheng, surpreso. Tinha mais de trezentos anos de cultivo, mas, de homem a fantasma, foi sempre pelo caminho da luta, e nunca se deteve a ponderar sobre questões tão profundas. O discurso de Xu Changsheng o deixou confuso, e após um tempo, coçou a “cabecinha” e comentou: — Isso é profundo demais... não entendi muito bem. Mas, depois de tudo isso, veio ao pico só para ver flores?

Lou Jian Dong tentou, em vão, admirar o mar de flores à maneira de Xu Changsheng, mas logo desistiu. Sentiu que esse tipo de coisa só servia para meninas inocentes ou verdadeiros apaixonados por flores; não compreendia o que motivava Xu Changsheng.

— Você cultiva o caminho da matança. É feroz e rápido, mas não é a verdadeira senda... — Xu Changsheng mediu o fantasma de menos de um metro de altura e sorriu: — Você sabe que sua espada pode cortar qualquer um, mas sabe apreciar uma flor? Sabe como se deve olhar para uma flor?

— Admirar flores? — Lou Jian Dong ficou perplexo e, mesmo sendo fantasma, não resistiu a tocar a própria cabeça. — Que dificuldade há nisso? Quem não sabe admirar flores? Yue Ru, quando viva, amava flores. Plantei para ela uma ameixeira, de que gostava muito.

— Você é um erudito; nunca leu “Zhuangzi”? Ele dizia: 'Comunicar-se com o espírito do céu e da terra' é, na verdade, compreender o mundo ao admirar flores.

— Zhuangzi? — Lou Jian Dong, que em vida atingiu o grau de xiucai, sabia quem era Zhuangzi e chegara a folhear suas obras. Mas, nos exames imperiais, o que valia eram os clássicos confucionistas e os ensaios de oito partes; não lhe sobrava tempo para se aprofundar no pensamento de Laozi e Zhuangzi. Mais tarde, abandonou as letras pelas artes marciais e, depois de morto, seguiu o caminho do cultivo fantasmagórico, bem diferente dos cultivadores humanos, baseando-se mais em sorte e experimentação do que em estudo de textos antigos.

— Para um cultivador, o mais importante é aproveitar o momento de ‘ativação’, correspondente ao estado de ‘o yang retorna’ tão valorizado por taoistas e médicos: um breve instante em que a energia vital se acende. Se conseguir ativar os canais e fortalecer o poder interior, pode-se tornar um verdadeiro mestre de poderes vastos.

— Mas, tanto para mortais quanto para cultivadores, o momento de ativação é fixo, breve e incontrolável — uma lei natural. Modificar isso seria ir contra o céu. E o que significa ir contra o céu?

Essa relação de senhor e servo era apenas uma formalidade; Xu Changsheng nunca viu Lou Jian Dong como escravo, tanto que permitia que o chamasse de “irmão Changsheng”. Com pena de seu destino como cultivador fantasma, aproveitou para dar-lhe alguma orientação.

Lou Jian Dong captou o sentido e perguntou rápido: — Então, como se vai contra o céu?

Xu Changsheng sorriu de leve: — Isso pode ser tão complicado quanto simples. Como enxertar ameixa em salgueiro, pereira em amoreira: quando lhe falta força própria, pede-se auxílio ao exterior...