Capítulo Quarenta e Sete: Chuva, Trovão e a Correria para Recolher as Roupas (Parte Dois)
Wang Qiang estava mais empolgado do que nunca. Dirigia calmamente, mantendo uma distância constante de Xu Changsheng, enquanto sua adrenalina disparava e sua mente se mantinha incrivelmente ativa.
Aquele caso estava, afinal, na lista negra da Secretaria de Segurança Pública da província. Lista negra significava os chamados “três impossíveis”: impossível de resolver, impossível de explicar, impossível de entregar. O caso estava arquivado na sede da polícia municipal havia três ou quatro anos. Lembrava-se bem de quando foi buscar o dossiê; a moça responsável pelo arquivo o olhou de modo estranho, como se estivesse diante de um herói que marchava para a morte.
Será que era mesmo tudo isso? Ele se recusava a acreditar!
Wang Qiang sempre fora um garoto teimoso. Da infância ao exército, da carreira militar à polícia, manteve essa teimosia até os trinta anos. Já era hora de se tornar mais flexível, sua namorada vivia lhe dizendo para amadurecer. No entanto, desde aquela noite no templo da terra, seu coração inquieto estava ainda mais difícil de conter.
Por fora, ele tratava Xu Changsheng como “irmão Xu”, mas, no fundo, já o considerava um verdadeiro “mestre Xu”. Depois que o mestre lhe disse que sua sorte era invencível, Wang Qiang sentia-se até como um robô gigante, pronto para enfrentar qualquer desafio e aceitar qualquer missão.
Uma simples “operação de remoção de risco”, que normalmente dois policiais do bairro resolveriam facilmente, não justificava a presença de um “superdetetive” recém-promovido da unidade de investigações criminais. Ele só estava ali por causa daquele caso, e tomara a iniciativa de participar, tudo de modo secreto, sem avisar nem mesmo seu superior, que sempre o apoiara.
Sem conseguir entender por que Xu Changsheng corria para o Lago Yunlong daquela maneira, Wang Qiang temia irritar o “mestre Xu”. Por isso, mantinha o carro a uns cinquenta ou sessenta metros, o suficiente para avistar a silhueta através da chuva e do nevoeiro, mas não tão perto para incomodar.
O vento e a chuva eram intensos, com rajadas que pareciam despedaçar o corpo. Ainda assim, o “mestre Xu”, com seus doze canais de energia desbloqueados, já havia notado o motor do carro atrás de si. Era óbvio para ele que só Wang Qiang teria tempo — e disposição — para segui-lo numa tempestade dessas. Mas Xu Changsheng não se importava. Se o velho louco realmente tivesse ido ao Monte Zhu enfrentar um teste de trovão, só Deus sabia o estrago que causaria. Era até bom ter Wang Qiang por perto para ajudar caso fosse necessário.
Apesar de jovem, Xu Changsheng era um veterano do submundo e entendia bem um princípio básico: “Grandes habilidades não passam despercebidas pelas autoridades.”
E quanto a Zhang Guolao? Dizem que era um morcego branco que se tornou espírito desde a criação do mundo, tendo visto impérios subirem e caírem. Quando Ye Fashan foi forçado a “entregá-lo”, tremia de medo, só o fez por ordem imperial. E quando o imperador da dinastia Tang o convocou, nem ele, um dos Oito Imortais, pôde recusar; teve de ir ao palácio exibir seus dons para se livrar.
Se um dia, no futuro, o Templo de Nuvem Auspiciosa tivesse alguém como o “mestre Xu”, sem apoio de pessoas influentes, a vida seria cheia de dificuldades e espinhos. Assim, “é fácil cultivar-se dentro das portas da autoridade”. Você pode até não entrar, mas não pode deixar de manter boas relações com eles. Quem se acha melhor que todos e não respeita ninguém acaba ficando para trás.
Wang Qiang era alguém de sorte e destino forte. Para garantir que ele o ajudasse de coração aberto, era preciso que também o admirasse. E, depois daquela noite no templo da terra, Wang Qiang já dividia um segredo com ele. Por isso, Xu Changsheng não fazia questão de esconder suas habilidades diante dele.
“Essa velocidade… caramba!”
No início, Wang Qiang mantinha uns cinquenta metros de distância de Xu Changsheng, sem prestar atenção ao velocímetro. Mas logo percebeu que estava pressionando cada vez mais o pedal do acelerador. “Mas que velocidade é essa do irmão Xu?”, pensou. Espiou o painel e quase perdeu o controle do volante de susto!
Sem perceber, já estava a cinquenta quilômetros por hora. A estrada da barragem, dentro da área turística, tinha limite de quarenta. E, com aquela tempestade, o correto seria ir ainda mais devagar.
Cinquenta quilômetros por hora… qual a velocidade nos cem metros? Wang Qiang ficou momentaneamente confuso, até se dar conta: aquele rapaz estava correndo mais rápido que Usain Bolt!
Por um instante, Wang Qiang quase se deixou levar pela ideia de comunicar à Federação Nacional de Atletismo que o “irmão Xu” podia quebrar o recorde mundial com facilidade. Afinal, a China precisava de talentos no atletismo, e ele também era um patriota.
Mas logo descartou esse pensamento absurdo. Qualquer um via que aquilo não era normal. “Irmão Xu” não era só um irmão — era o mestre Xu!
Se possível, Wang Qiang queria que esse “mestre Xu” fosse só dele, como um segredo particular. Como acontece no amor, ter alguém misterioso assim só para si dava uma satisfação egoísta e uma felicidade que o fazia até sorrir durante os sonhos.
Em 2013, os projetos de desenvolvimento do Monte Zhu haviam acabado de ser incluídos na agenda. Era só uma montanha desconhecida, localizada na parte de trás do Lago Yunlong, cheia de túmulos antigos, infestada de animais selvagens, cobras e ratos. Em dias bons, quase ninguém ia lá, imagine então com vento e chuva. Só um louco subiria a montanha como um para-raios humano naquele tempo.
Não havia trilha na montanha; os caminhos só existiam porque casais corajosos os tinham aberto a força de tanto passar. O terreno era íngreme, escorregadio com a chuva, subir ali era um grande desafio — com risco real de vida.
Wang Qiang estacionou o carro ao pé da montanha e viu, ao longe, Xu Changsheng subindo como um macaco, usando mãos e pés. Murmurou, resignado: “Ele subiu mesmo… e eu, sigo ou não sigo? Ora, quem nasceu para morrer deitado não morre em pé. Que seja!”
Na verdade, ele nem precisava subir. Bastava esperar Xu Changsheng descer, oferecer uma garrafa de água, segurar o guarda-chuva e puxar conversa, seria ótimo! Mas a curiosidade do velho detetive falou mais alto e ele não se conteve.
Xu Changsheng olhou de relance para Wang Qiang, em meio à chuva, sem chamá-lo, mas sentiu admiração: tanto esforço só para ficar próximo de mim? Não é à toa que tem sorte de “mandar no destino de um condado”. Esse Wang é gente boa. Não mora ao lado do Templo de Nuvem Auspiciosa, mas talvez possa ser um verdadeiro amigo.
Elogiando Wang Qiang em silêncio, acelerou a subida. Aquela era a montanha mais alta do sul da cidade, mais alta até que o Monte Yunlong. No topo, nuvens negras se acumulavam, raios cortavam o céu, às vezes explodindo contra o chão e lançando pedras e terra para todos os lados. Xu Changsheng temia de verdade que Ge Wuyou tivesse vindo ali passar por uma provação de trovão.
No século XXI, alguém enfrentar um teste de trovão? Só de falar, seria motivo de riso. Antes, Xu Changsheng jamais acreditaria nisso, mas agora não só acreditava, como até sonhava em um dia também passar por uma provação extraordinária dessas.
Mas, ao pensar que o para-raios humano podia ser Ge Wuyou, Xu Changsheng preferia que a tempestade se dissipasse logo. Se o velho louco morresse, o jovem louco sofreria de verdade…
Justamente o que temia aconteceu. Ao chegar ao topo, Xu Changsheng viu, sentado sob uma árvore torta, aquele homem…
Ge Wuyou ainda vestia o pijama de hospital, mas sem a camisa, que fora jogada sabe-se lá onde. Estava só de calças, peito nu, magro como um tronco velho, cabelos longos esvoaçando ao vento, cantando uma música energética que Xu Changsheng jamais ouvira.
“Quanto mais forte o vento sopra,
mais o meu coração se agita,
Como um grão de poeira,
danço livre na tempestade.
Quero apertar com firmeza
a coragem que se esvai entre os dedos!
Vou tornar-me um gigante,
pisando sonhos com força e vontade,
quanto mais forte o vento sopra,
mais o meu coração se agita.”
Xu Changsheng ficou encantado. Que bela canção! Perfeita para alguém que enfrenta uma provação. De onde o velho tirou essa música? Embora gostasse de música, nunca ouvira essa antes.
De repente, lembrou-se do motivo principal de estar ali e não podia se deixar distrair por uma canção. Circulou a energia interna, ativou os canais principais, e uma explosão de força subiu do abdômen, produzindo um grito trovejante:
“Está chovendo, troveja, recolham as roupas!”
Lá embaixo, Wang Qiang sentiu a cabeça zumbir com o grito e quase rolou morro abaixo de susto.