Capítulo Vinte e Um: Dona Wang, a Vizinha

O verdadeiro medíocre Coração de Luz e Sombra 3037 palavras 2026-02-07 13:16:18

Dentro do guarda-chuva de tecido negro ainda estava o espírito sombrio da velha raposa, o que dificultava muitos movimentos. Por isso, Xu Changsheng recusou educadamente a oferta da polícia e, por conta própria, chamou um táxi de volta ao Monte Hufen.

De fato, ajudar alguém é como perfumar as próprias mãos ao oferecer rosas. Desta vez, ao salvar a velha raposa, apesar dos perigos, Xu Changsheng acabou sendo enormemente beneficiado.

O Monte Hufen fora, em outros tempos, um local de reunião dos ricos de Chu. Na era moderna, os jovens preferiam apartamentos altos em condomínios modernos, e desprezavam as antigas residências do monte. O local tornara-se deserto, nem mesmo havia serviço de zeladoria, e na estrada de mais de mil metros até o topo, apenas algumas lâmpadas amareladas iluminavam fracamente o caminho, impedindo que se enxergasse mais de dez metros à frente.

No entanto, a uns cinquenta metros de casa, Xu Changsheng já avistava a Yamaha 250 do pai, chegando a enxergar nitidamente a placa. Isso jamais acontecera antes; certamente era um benefício do cultivo do corpo pelo relâmpago.

Ao entrar no próprio quintal, de longe já percebeu duas silhuetas à janela do pai. Uma era, sem dúvida, o próprio pai; a outra, de coque no alto da cabeça, só podia ser a famosa dama-dançarina da praça do Monte Hufen, a vizinha Dona Wang.

Pois é! Pelo visto, o velho estava mesmo rejuvenescendo. Desde que, há três anos, derrotara adversários fortíssimos de cinquenta, sessenta e setenta anos e conquistara Dona Wang, o velho mantinha-se fiel, encontrando-se com ela quase toda semana para longas conversas à luz de velas, discutindo profundamente os mistérios da vida.

Nada é mais belo do que o rubor do crepúsculo... Xu Changsheng aprovava com entusiasmo.

Desde que conhecera Dona Wang, o pai quase não se misturava mais com os motociclistas. As moças bonitas que antes apareciam na casa dos Xu para paquerar o velho também rarearam, permitindo que Xu Changsheng, um jovem solteirão, finalmente respirasse aliviado, sem ter de questionar o próprio valor todo santo dia.

Se não fosse pela firme oposição do filho de Dona Wang, Xu Changsheng já teria empurrado o pai de braços abertos para os aconchegos da vizinha.

É isso que chamam de conforto tardio.

Ouvindo Xu Changsheng abrir a porta, Xu Nian e Dona Wang saíram do quarto. Xu Nian franziu a testa e perguntou:
— Por que voltou tão cedo hoje?

— Olhe só como fala, já são mais de oito da noite, como pode dizer que voltei cedo? — Dona Wang corou e, tentando quebrar o gelo, disse: — Está de volta, Changsheng? Veja só, menino, em poucos dias ficou ainda mais bonito.

— Ah, Dona Wang, lá vem a senhora de novo. Se for para falar de beleza, tem de ser meu pai, ainda estou longe disso.

Xu Changsheng não sabia se ria ou chorava. A última vez que se viram foi há apenas dois ou três dias, e já estava mais bonito?

— Ai, Changsheng, por que está com esse guarda-chuva preto? Melhor evitar usá-los por aqui. No Monte Hufen, onde o ar é pesado, esse tipo de guarda-chuva atrai maus espíritos. Deixe-o do lado de fora, só traga para dentro amanhã, quando o sol sair.

Dona Wang, apesar da idade, era tímida, especialmente diante de Xu Changsheng, corando facilmente. Ao ver o guarda-chuva preto, encontrou logo um assunto.

— Dona Wang, não se preocupe. Essas coisas só afetam quem acredita. E se acontecer algo, não tenho medo.

Dentro do guarda-chuva, a velha raposa resmungava: “Não nos deixe no pátio... estamos... estamos com frio... muito frio...”

“Mas veja só, um espírito sombrio e ainda está com frio?” pensou Xu Changsheng, batendo de leve no guarda-chuva. “Dona Wang, vou entrar, fiquem à vontade para conversar.”

Dona Wang era ótima, exceto pelo lado falante. E, desde que quase firmara o relacionamento com Xu Nian, insistia em apresentar sua filha viúva para Xu Changsheng, dizendo que assim a relação familiar ficaria ainda mais próxima. Xu Nian também tocara no assunto algumas vezes diante do filho.

Xu Changsheng até lembrava da filha de Dona Wang, formada em excelente universidade, agora trabalhando numa empresa de destaque na cidade.

Apesar de Dona Wang, mesmo com mais de cinquenta anos, conservar sua elegância a ponto de fazer o velho tremer só de pensar nela, a filha provavelmente também era uma bela viúva.

Mas Xu Changsheng nunca deu importância a isso. Para começar, quem se interessaria por um jovem sem carreira, sem dinheiro, vivendo de um altar de incenso no Monte Yunlong? E ainda que a bela viúva se interessasse, Xu Changsheng talvez não aceitasse!

Dizem que viúva é de sorte forte, difícil de controlar. Agora que Xu Changsheng não era mais um homem comum, e com a perspectiva de um dia superar a vida ordinária e se tornar um mestre, por que se contentaria com uma viúva?

Xu Changsheng era apenas um sujeito comum, que esperara mais de vinte anos por uma chance. Quem sabe, um dia ficaria rico, e então poderia escolher melhor. Qualquer um sabe que uma bela jovem é melhor do que uma viúva encantadora.

Por isso, evitava o máximo possível. Além do mais, dentro do guarda-chuva ainda havia um espírito raposo para acomodar.

A velha raposa, atingida por um raio, estava enfraquecida e sem abrigo, e poderia se dissipar se não encontrasse logo um lugar. Apesar de ter salvo a raposa por impulso, Xu Changsheng sempre levava uma boa ação até o fim, nunca ajudando pela metade. Se decidiu salvar, deveria cuidar até o fim.

— Ei, rapaz, não vá embora, eu e Dona Wang ainda temos algo a dizer!

— Pai, estou cansado hoje, podemos conversar amanhã?

— Amanhã será tarde demais! Ei, menino!

Vendo que Xu Changsheng não lhe dava ouvidos e entrava direto no quarto, Xu Nian bateu o pé e disse a Dona Wang:
— Esqueça, não importa! Eu, como pai, decido isso, pra que consultar ele? Você que insiste em falar com ele!

— Xu, vocês deviam conversar mais, afinal, metade da casa era da mãe dele...

— Conversar pra quê se ele nunca concorda! Quando vamos realizar nosso sonho? Dizem que o entardecer é o mais belo, mas quanto tempo dura esse crepúsculo? Lifeng, não posso esperar mais, preciso cumprir minha promessa enquanto estou vivo! Fique tranquila, sou o pai, vou pensar nele. Esse menino é mais preguiçoso do que eu! É hora de dar pressão! E, vendendo a casa, vou deixar parte do dinheiro pra ele, em respeito a ele e à falecida mãe!

— Ah, Xu, você só tem esse defeito: é teimoso.

— Depois de tantos anos não conhece meu gênio? Pronto, não fale mais. Está decidido!

Xu Changsheng entrou no quarto com o guarda-chuva, trancou portas e janelas, e só então perguntou em voz baixa:

— Como está?

— Estamos... estamos com frio... não aguentamos mais... rápido, encontre-nos um abrigo, obrigado...

— Roubar corpo alheio está fora de questão, você nem teria poder pra isso, e mesmo que tivesse, jamais permitiria. Com sua condição, mesmo que alguém prepare um altar, você não teria forças para comparecer. Faça assim: fique dentro deste cabaço. Não é um artefato mágico, mas é centenário, custou-me caro conseguir. Fique quietinho aí e não quebre nada!

Xu Changsheng apontou para um grande cabaço feng shui pendurado na parede.

— Não tem um melhorzinho? Dizem que um velho plantou uma trepadeira de cabaço, nasceram sete frutos de cores diferentes, uma maravilha...

— Onde ouviu isso? Se encontrasse esses cabaços, morreria ainda mais rápido.

Xu Changsheng, impaciente, perguntou:
— Vai entrar ou não?

— Vamos... vamos entrar...

Do guarda-chuva saiu uma fumaça cinzenta que entrou rapidamente no grande cabaço feng shui.

— Pronto, fique aí quieto. Vou acender um incenso pra proteger seu espírito, o quanto recuperar, depende do seu destino...

Xu Changsheng tirou do saquinho pendurado na parede um incenso especial, acendeu com certo pesar, e colocou sob o cabaço. Só aquele incenso custava mais de cinquenta, seu faturamento de um dia ruim.

Assim que terminou, ouviu um baque do lado de fora. Curioso, abriu a janela e espiou, mas não viu nada. Não era raro gatos selvagens ou guaxinins correrem pelo monte, então não deu importância.

No instante em que abriu a janela, uma pequena silhueta avermelhada rapidamente se escondeu na sombra do muro.

Depois de um momento, a cabecinha apareceu, espiando na direção do quarto de Xu Changsheng. O pequeno focinho farejou o ar, como se tivesse sentido um cheiro especial. A pequena raposa avermelhada soltou dois gritinhos excitados...