Capítulo Dezesseis: Os Imortais Não Deixam as Montanhas e os Mares (Parte Final)
Desde pequeno, Wang Qiang sempre teve um certo defeito: quando a curiosidade o acometia, gostava de girar em torno do alvo. Em menos de dez minutos, já havia rodeado Xu Changsheng umas sete, oito, nove, dez vezes.
— Capitão Wang, o senhor poderia se acalmar um pouco? Assim acaba atrapalhando minha concentração para desenhar os talismãs.
Xu Changsheng suspirou, ajeitou os papéis amarelos sobre a mesa, molhou novamente o pincel de pelo de lobo no vermelhão e voltou a reunir energia e foco.
Não tinha como não ficar nervoso. Ele entendia bastante sobre a arte de desenhar talismãs, mas era a primeira vez que realmente tentava fazê-lo. Yang Magro, de fato, era um especialista, mas a eficácia de seus talismãs era um mistério — na maioria das vezes, apenas um engodo.
Hoje, era absolutamente necessário que Xu Changsheng conseguisse desenhar o talismã. Caso contrário, que trunfo teria para negociar com o espírito divino do templo da terra? Por pura coincidência e sorte, seu canal espiritual havia se aberto, o corpo começara a refinar energia vital, e entre as sobrancelhas, podia guiar um fio de energia celestial. Xu Changsheng sentia que podia tentar.
E se falhasse? Ele já havia pensado nisso. O espírito divino, apesar de ter ido ao interior para causar confusão, não ousaria realmente ferir ninguém. No pior dos casos, teria de engolir o orgulho e tentar negociar.
Só não sabia a qual família pertencia o espírito: Hu, Chang, Huang ou Bai. Se fosse um espírito literato como Hu ou Huang, tudo bem; mas se fosse um guerreiro como Chang ou Bai, seria complicado. Se não mostrasse algum talento, mesmo que conseguisse negociar, sairia perdendo, tendo de fazer grandes concessões.
— O velho louco dizia que alguns praticantes passam décadas em treinamento, elevando suas habilidades a níveis de mestres de artes marciais de romances, mas ainda assim não conseguem abrir o canal espiritual. Agora que o meu está aberto, já sou meio mestre. Mesmo com pouca experiência, será que não consigo desenhar alguns talismãs de proteção?
Xu Changsheng animou-se, começando a traçar os símbolos lentamente.
Wang Qiang de repente parou de circular, fixando o olhar no pincel de Xu Changsheng.
Até aquele momento, Wang Qiang tinha enormes dúvidas sobre talismãs, esses objetos lendários.
Na verdade, desenhá-los não era tão difícil: os livros de Taoismo vendidos nas livrarias traziam registros, até mesmo no Baidu era possível encontrar muitos modelos. Mas, ao mesmo tempo, era algo extremamente complicado.
Primeiro, o modelo precisava ser o correto; talismãs desenhados de qualquer jeito não serviam para nada. Mesmo encontrando o verdadeiro, era necessário anos de prática para internalizar o método, conhecê-lo como o próprio corpo, e então desenhar de uma só vez, sem nenhum erro. E, ainda assim, a eficácia dependia da sorte.
Sem uma linhagem genuína de prática vital, era preciso ter a perseverança de Da Vinci desenhando ovos para aprender a arte, e a chance de sucesso era como encontrar um Da Vinci entre cem mil pintores.
Xu Changsheng havia conhecido muitos 'mestres' pelo país, como Yang Magro, mas raramente viu talismãs realmente eficazes. Na maioria das vezes, serviam apenas como conforto psicológico. Mas desta vez, ele queria criar um talismã genuíno!
Seu trunfo era o canal espiritual aberto, capaz de guiar um pouco da energia celestial para dentro do corpo. Embora tenha sido por pura sorte, seu cultivo de natureza e vitalidade era praticamente nulo, os doze meridianos e oito vasos extraordinários não estavam treinados, e aquela corrente de energia misteriosa não conseguia fundir perfeitamente a energia celestial, muito menos invocar forças do Yin-Yang e dos Cinco Elementos para criar talismãs poderosos. Contudo, com o canal aberto, sua atenção, memória e vigor eram dez vezes superiores ao de uma pessoa comum!
Após recordar mentalmente o método do talismã de expulsão de maus espíritos, Xu Changsheng desenhou com destreza, e em um piscar de olhos, surgiu um talismã de traços sinuosos e estranhos, repleto de símbolos misteriosos.
— Tão rápido!
Ao ver Xu Changsheng concluir um talismã tão complexo em um único traço, Wang Qiang arregalou os olhos, surpreso.
Para ele, aquele talismã básico já era mais complicado que as questões de matemática avançada que a filha fazia.
— A arte dos talismãs não permite erros, nem mesmo um mínimo desvio, por isso só pode ser feita de uma única vez. Vou desenhar outro, observe como espectador e veja se há alguma diferença. Se não houver, podemos usar!
Xu Changsheng abriu outra folha de papel amarelo, molhou bem o pincel no vermelhão e desenhou mais um talismã de expulsão. Empurrou os dois para Wang Qiang avaliar.
— Deixe-me ver...
À primeira vista, os talismãs pareciam comuns, mas para o olhar experiente de Wang Qiang, havia algo especial.
— Impressionante! Existe mesmo tal habilidade no mundo? Se esse rapaz fosse pintor, será que poderia se tornar outro Zhang Daqian ou Qi Baishi?
Quanto mais observava, mais Wang Qiang se espantava.
Esses dois talismãs foram mesmo desenhados por uma pessoa? Não são produtos de linha de montagem ou obra de robôs inteligentes?
Ambos foram feitos em papel amarelo perfumado, com textos e símbolos idênticos. Para alguém comum, pareceriam apenas 'iguais'.
Mas o olhar de Wang Qiang, velho investigador, era mais aguçado.
Mesmo que as folhas fossem do mesmo lote, sempre haveria diferenças mínimas: espessura, polpa, textura. Cada vez que se molha o pincel, teoricamente ninguém consegue manter a quantidade de vermelhão e a saturação do pincel exatamente igual.
O peso do traço, o percurso do pincel...
Com tantas variáveis, seria impossível desenhar dois talismãs idênticos. Mas aquele jovem parecia ignorar tudo isso, criando duas obras exatamente iguais! Cada letra, símbolo, profundidade dos traços, tudo igual! Wang Qiang apostava que mesmo sob um microscópio, seriam idênticos.
Quantos anos de treino seriam necessários? Que técnica sublime? Para compensar as diferenças do papel, controlar a quantidade de vermelhão, isso seria possível para alguém comum?
— Iguais, completamente iguais.
Ao olhar novamente para Xu Changsheng, Wang Qiang estava tomado de espanto e respeito, dissipando todas as dúvidas.
— Vamos.
Xu Changsheng assentiu, colando os talismãs em moedas dos Cinco Imperadores. Ficou com um conjunto, entregou outro a Wang Qiang:
— Pendure no pescoço. Não tire por nada, aconteça o que acontecer. Entendeu?
— Entendi.
Wang Qiang rapidamente colocou as moedas no pescoço, decidido a não tirá-las até sair do Monte Tai.
Xu Changsheng olhou para a chuva cada vez mais forte, pegou o guarda-chuva de tecido preto ao lado da mesa, abriu e foi em direção ao templo da terra.
Wang Qiang seguia de perto, e não sabia por quê, mas ao ver o céu escurecendo, Xu Changsheng com o guarda-chuva preto avançando lentamente e o misterioso templo à distância, sentiu-se nervoso pela primeira vez em sua carreira de investigador.
Xu Changsheng parou a três metros do muro de terra, moveu o guarda-chuva para trás do ombro, mostrando o rosto por completo, e bradou:
— O filho legítimo do céu já proclamou: por quinhentos anos foi concedida a proteção aos espíritos; nestes cinco séculos, sem grandes mudanças, os espíritos não cruzam os portões de Shanhaiguan! Não sei qual divindade habita este templo: não vejo altar, nem oferendas, não vejo salvação nem auxílio aos necessitados! Entre as quatro famílias, Hu, Huang, Chang e Bai, há regras rígidas para tudo. Você atravessa as fronteiras causando mal, e pensa que seus seguidores ficarão impunes? Hoje, este humilde praticante passa por aqui; pergunto: não teme o trovão e o relâmpago?
Wang Qiang, atrás de Xu Changsheng, ficou estupefato. Será que realmente havia um espírito divino no templo? Vendo a seriedade de Xu Changsheng, não resistiu e, baixando a voz, perguntou:
— Irmão Xu, será que há um monstro lá dentro?
Xu Changsheng lançou-lhe um olhar, murmurando:
— Não diga isso. O espírito divino e um monstro são fundamentalmente diferentes. Estou tentando negociar, comentários imprudentes só irão irritá-lo.