Capítulo Setenta e Três: A Sacerdotisa Toma os Portões da Montanha
A memória é um remédio capaz de fazer alguém rir num instante e, no seguinte, chorar com o coração ferido, lamentando o tempo que passa, as pessoas queridas que envelhecem, o amor de juventude que se esvai, a musa que se transforma numa dona de casa... Até mesmo o mestre Yizhen, um praticante com décadas de cultivo, por vezes se perdia nas alegrias e dores das recordações. Naquela manhã, Qingping sentiu algo estranho: o mestre levantara-se especialmente cedo, tomou um café da manhã apressado e começou a perambular pelo Templo das Nuvens Auspiciosas. Chegou a pedir um pano ao monge encarregado e limpou pessoalmente o altar, ficando absorto diante da estátua já desgastada do Grande Imperador Zhenwu...
Depois de contemplar a estátua, o mestre foi ao jardim dos fundos cuidar das plantas, regando, adubando, e conversando baixinho com as flores e folhas, como se acreditasse que elas entendessem palavras humanas. Após “incomodar” as plantas, foi importunar as tartarugas do tanque; como elas não subiam à superfície, ele pegou um bastão e mexeu na água até que uma velha tartaruga, resignada, emergiu e o encarou fixamente, ouvindo-o começar a falar com ela...
Os irmãos e irmãs de Qingping ainda eram jovens, e jovens raramente se deixam levar por recordações. No início, ainda seguiam o mestre, arrastando-se sem ânimo pelos arredores, mas logo todos foram fugindo discretamente, restando apenas Qingping. Ela não entendia por que o mestre estava agindo assim, mas sentia um aperto no peito e uma vontade de chorar.
— Qingping, ainda se lembra do que lhe disse?
— Lembro sim, mestre. O senhor disse que o novo abade está para chegar, que o templo mudará muito, mas que eu não preciso me preocupar com nada, basta obedecer ao irmão Xu e cultivar ao lado dele...
— Diga “irmão mais velho”.
— Sim, irmão mais velho...
Qingping cutucou a velha tartaruga com o dedo; ao ver que ela abriu a boca ameaçando mordê-la, riu e se esquivou, levantando o rosto para o mestre:
— Por que o senhor não me ensina a cultivar, mas quer que eu siga o irmão Xu?
— Porque o seu irmão Xu, no futuro, alcançará feitos muito superiores aos meus.
Mestre Yizhen afagou a cabeça de Qingping com doçura:
— Não serei mais abade, não posso deixar muitos discípulos. Você é a melhor de todos, e como tenho uma predileção por você, este privilégio deve ser seu...
— Ah... — Qingping olhou confusa para o mestre. Não conseguia entender: tantos irmãos e irmãs eram mais fortes, saltavam mais longe, desenhavam talismãs melhores. Por que o mestre dizia que ela era a melhor?
Mas, já que o mestre disse, Qingping não duvidou. "Então sou mesmo tão boa assim?", pensou, erguendo o queixo com orgulho:
— Eu ouvirei o mestre!
— Eu sabia que Qingping era a mais obediente.
Desta vez, quem falou não foi o mestre Yizhen, mas Xu Changsheng, que se aproximou sorrindo, curvou-se respeitosamente diante do mestre:
— Mestre.
Atrás dele vinham Yang Magro, Hei San e o Falso Monge, que também cumprimentaram o mestre.
Nos últimos tempos, o trio descobriu as vantagens de ter “documentos”: todos os dias, davam conselhos aos visitantes do templo, liam fortunas, explicavam presságios. Se não fossem trapaceiros, seriam ótimos conselheiros espirituais, e arrecadaram bastante dinheiro honesto com as oferendas. Assim, o Templo das Nuvens Auspiciosas começou a prosperar um pouco.
— Vocês chegaram na hora certa... — disse o mestre Yizhen. — Esta manhã recebi aviso da Associação Taoísta e do Departamento de Assuntos Religiosos: em meia hora, a mestra Yan Xuanji chegará ao templo. Embora vocês sejam discípulos laicos, precisarão de sua aprovação para permanecer aqui.
— Mestra Yan Xuanji? — Yang Magro coçou a cabeça. — Xuanji? Esse nome me soa familiar, acho que há um histórico, era um velhote... Céus, será que é mesmo um velho monge? Dos três, só o Falso Monge talvez passe nesse teste!
Xu Changsheng lançou-lhe um olhar de desdém:
— Você, tão rechonchudo, nem parece monge, aposto que o “velho mestre” vai te mandar embora. Só não me envolva nisso.
Hei San também comentou com desprezo:
— E diz que entende de taoismo... Confunde tudo! Xuanji era Yu Xuanji, uma bela sacerdotisa, não um velho. Já te disse: nesse ramo, é bom conhecer história. Isso é ter lastro...
O Falso Monge, depois de cumprimentar o mestre Yizhen, ficou de olhos semicerrados, calmo, perdido em pensamentos, até que murmurou:
— Chegaram visitantes...
Antes de se tornar monge, ele havia estudado na Academia de Segurança Pública, e sua observação era aguçada. Nem o mestre Yizhen notara que um grupo atravessava o pátio em direção ao salão, mas ele percebeu antes.
— Ali está uma sacerdotisa; será que é mesmo a mestra Yan Xuanji?
— Uma sacerdotisa? — Os olhos de Hei San brilharam. Em sua vida, conhecera inúmeras mulheres bonitas, mas nunca uma sacerdotisa. Qingping não contava; para ele, ela era apenas uma menina.
Yan Xuanji caminhava ao lado de He Qingjun, presidente da Associação Taoísta de Chudu, rodeada por oficiais da associação e do departamento religioso. Conversava com graça e naturalidade, mostrando postura digna de uma abadesa.
Ao ver Xu Changsheng, sorriu encantadoramente, e sua túnica amarela clara fazia-a parecer uma flor radiante.
Xu Changsheng retribuiu a saudação com um sorriso. Afinal, já tinham partilhado algumas refeições no restaurante Chu Feng Lou, e, mais ainda, ela seria a futura abadesa. De certo modo, ele estaria sob sua autoridade.
Só achou estranho: se Yan Yu já sabia que viria assumir o Templo das Nuvens Auspiciosas, por que gastou tanto dinheiro comprando sua antiga casa? É verdade que muitos abades e chefes de templos possuem propriedades, e, na dinastia do Norte e do Sul, monges de alto escalão eram grandes latifundiários, mas nunca se viu alguém adquirir bens antes mesmo de assumir o cargo, e com tanto desembaraço.
Yan Yu era um mistério dos pés à cabeça; quem sabe, ao tirar as meias, ela não teria sete pintas na sola do pé. Era realmente indecifrável...
— Ó Grandioso Senhor do Céu, este humilde taoista vos saúda. — O mestre Yizhen se apressou até He Qingjun, sorrindo cordialmente: — Como ouso receber tão ilustre visita? É uma honra imerecida.
Não cumprimentou Yan Xuanji de imediato. No fundo, sentia-se incomodado; esperava que o novo abade fosse alguém experiente, e não uma jovem sacerdotisa.
O velho mestre sentia o peito cheio de mágoa e ressentimento, arrependido de ter sido tão orgulhoso na juventude. Se o Templo das Nuvens Auspiciosas fosse obra exclusivamente sua e não propriedade da Associação Taoísta, não precisaria, na velhice, ser substituído por uma jovem, afastando-se do lugar onde dedicara metade da vida.
— Ora, irmão, não seja tão modesto. Como posso merecer tal recepção? Permita-me apresentar: esta é Yan Xuanji, vinda de Yanjing, a escolhida para sucedê-lo...
He Qingjun fez uma leve reverência ao mestre Yizhen, enfatizando a origem “Yanjing”.
Ele praticara por muitos anos em Sichuan e, depois, ao retornar à sua terra natal, assumira a presidência da Associação Taoísta de Chudu. Era um homem de prática sincera, diferente de certos burocratas da associação. Também não aprovava que Yan Xuanji substituísse o mestre Yizhen, mas, como presidente municipal, não tinha poder para mudar as ordens superiores. Embora simpatizasse com o mestre, o processo de transição precisava ser feito.
— Ó Grandioso Senhor do Tao, embora saiba que é vontade da associação, tenho uma pergunta para Yan Xuanji.
O mestre Yizhen arqueou as sobrancelhas, olhando para Yan Yu:
— Permita-me perguntar: de qual linhagem vem? Há quanto tempo cultiva? Possui alguma realização notável?
Era uma pergunta pouco cortês: quem é seu mestre? De qual escola? Que méritos tem para assumir o templo? Dada sua experiência, só faria tal pergunta se estivesse realmente contrariado.
Yan Yu sorriu levemente, inclinou-se:
— Sou jovem, mas nutro antiga admiração pelo taoismo. Apenas no ano passado fui ao Palácio da Vaca Verde, no Zhongnan, onde recebi iniciação e talismãs, ingressando na linhagem Zhengyi. Não possuo méritos. Foi a associação que, vendo o declínio do taoismo em nossa terra, pensou em renovar, buscando novas ideias para revigorar nosso culto. Apenas me tornei a escolhida por acaso...
Hei San murmurou, admirado, em voz baixa para Xu Changsheng:
— Velho Xu, essa nova abadesa não é só bonita, é culta também...
— Culta?
— Pois sim, percebe o vocabulário? Responde misturando erudição e simplicidade, bem no estilo do nosso mestre.
He Qingjun também suspirou:
— Sim, a associação pensa nisso. Nomear uma jovem como Yan Xuanji é para o bem do taoismo...
— Mestre Yizhen, é melhor fazermos logo a transição.
O mestre Yizhen suspirou:
— Pois bem, Yan Xuanji, por favor, acompanhe-me ao salão.