Capítulo Cinquenta e Seis: Fenda Solar — Onde Habita o Sorrateiro
Ao ver a jovem sobre o leito, Xu Changsheng finalmente compreendeu por que Ye Tianming fazia questão de manter toda a exuberância primaveril resguardada entre os muros daquele jardim de arquitetura tradicional chinesa. A mulher na cama, com sobrancelhas delicadamente arqueadas, olhos amendoados, boca minúscula como uma cereja, cabelos em nuvens caindo preguiçosamente junto ao rosto ruborizado, um pé delicado espreitando por entre as cobertas... Não era ela uma beleza saída das brumas do tempo, como se tivesse atravessado os séculos desde a antiguidade? O olhar, entreaberto e enevoado pela doença, exalava cansaço e um quê de lamento, o que levou Xu Changsheng a recordar-se imediatamente de Lin Daiyu, da versão clássica de 1987 de “O Sonho do Pavilhão Vermelho”.
—Irmão Ye, vossa esposa desperta uma compaixão inexprimível em quem a vê, não é mesmo?
Juro diante de Deus, Buda e dos Mestres Daoístas: Xu Changsheng jamais falava assim normalmente, tão cheio de floreios e tons arcaicos. Mas ao colocar-se diante dessa jovem, tão parecida com a pequena Lin Daiyu, sentiu que, se não falasse dessa maneira, seria um ultraje à cultura e à aura da senhorita.
O velho Huang olhou para Xu Changsheng: —Irmão Xu, fale conosco de modo normal, por favor?— Ye Tianming, ouvindo aquilo, sorriu levemente. Esse amigo Xu era realmente divertido, e, por um instante, seu ânimo aliviou-se um pouco.
O velho Liu aproximou-se e examinou o pulso da senhorita, avaliou-lhe a cor e balançou a cabeça. Depois de pensar um pouco, retirou do bolso uma bolsa de agulhas de prata e aplicou algumas na cabeça e no peito da jovem. Olhou-as fixamente ao retirá-las, mas ainda assim balançou a cabeça: —O pulso da jovem está fraco, mas ainda dentro dos padrões normais. A coloração do rosto está ruim, mas não denota doença propriamente dita. Usei até as agulhas de prata para investigar, mas não parece sintoma de enfermidade... Senhor Ye, como lhe disse antes, talvez a questão seja de ordem psicológica. Já chamou um especialista em psiquiatria?
Ao ouvir isso, a jovem abriu os olhos, exausta, e respondeu com voz fraca: —Senhor, não tenho doença mental nenhuma, apenas me sinto cansada, creio que descansando mais alguns dias estarei bem...
—Querida, conserve suas forças, não precisa se esforçar para falar.
Ye Tianming suspirou: —Sempre dizemos que é falta de repouso, mas já faz mais de um mês que ela dorme profundamente todos os dias, e mesmo assim, ao acordar, sente-se exausta. Que estranho mal é esse? Senhor Liu, conforme sua orientação, chamei os mais renomados psiquiatras do país e de fora, e os melhores especialistas, com os equipamentos mais modernos, examinaram-na sem encontrar explicação. Será que realmente...
Ele lançou um olhar ao velho Huang, mas não concluiu a frase.
—Se não é doença, então provavelmente é aquilo mesmo... Não se preocupe, senhor Ye, deixe que eu dê uma olhada.
O velho Huang aproximou-se do leito e observou a jovem com atenção.
Xu Changsheng permaneceu em silêncio, ativando discretamente sua percepção espiritual. Após observar minuciosamente várias vezes, achou que havia encontrado algo, mas não se atreveu a tirar conclusões precipitadas, preferindo aguardar o método do velho Huang. Afinal, quando se tratava de lidar com entidades malignas e espirituais, admitia que sua experiência não se comparava à tradição de Mao Shan.
O velho Huang, experiente, não saiu espalhando talismãs ou empunhando espadas de madeira sagrada ao léu. Após observar a jovem por alguns instantes, retirou de sob o manto um pequeno cabaço roxo, de onde verteu algumas gotas d’água no dedo indicador da mão direita e, dizendo um breve “com licença”, traçou rapidamente uma linha vertical entre as sobrancelhas da moça, num movimento ágil como um relâmpago.
—Ele vai examinar a fissura solar?
Xu Changsheng fitou o velho Huang, percebendo que também suspeitava de uma possessão espiritual, pois só assim se aplicaria tal método. No caso de possessão, os sintomas mais comuns seriam febre seguida de mudança de voz — jovens falando como velhos, homens com vozes femininas, mulheres soando como anciãos. Normalmente, isso se devia à alma de alguém recém-falecido que, sem encontrar o caminho da reencarnação, acabava se alojando no corpo de um parente ou, por vezes, de um estranho. Em geral, tal fenômeno não durava mais do que sete ou oito dias e, mesmo sem intervenção, a situação tendia a melhorar.
Porém, aquela jovem não apresentava nem febre, nem mudança de voz, permanecia acamada havia mais de um mês. Que espírito teria força tamanha para tanto? Será que o velho Huang não estava enganado?
O velho Huang percebeu a dúvida de Xu Changsheng, mas não lhe deu explicações. Apenas chamou Ye Tianming e Liu Zhonghua, molhou os dedos na água do talismã e passou-os nos olhos dos dois: —Senhor Ye, senhor Liu, olhem para a testa da jovem.
Antes nada viam de estranho, agora notavam uma faixa cinzenta erguendo-se entre as sobrancelhas da moça, impossível de ignorar.
O velho Liu, já familiarizado com as habilidades do velho Huang, não se surpreendeu; já Ye Tianming ficou boquiaberto, olhando para o velho como se diante de um imortal: —Mestre Huang, por favor, salve minha esposa! Oferecerei uma grande recompensa.
O velho Huang aguardava essas palavras. Assentiu com seriedade: —O senhor se engana, senhor Ye. É dever dos nossos proteger o povo, expulsar o mal e salvar vidas. Mesmo que não me recompensasse, eu a ajudaria... Mas este não é o lugar ideal para conversarmos. Vamos para outro ambiente.
Ye Tianming concordou prontamente: —Tudo conforme o mestre disser.
De imediato, Ye Tianming conduziu os presentes ao salão principal. Meng Meng, de propósito, ficou um pouco para trás e perguntou em voz baixa a Xu Changsheng: —Mestre Xu, esse velho Huang não é um charlatão, certo?
Para ele, obcecado pelas artes marciais, só mestres como Xu Changsheng mereciam respeito; monges e taoístas lhe pareciam sempre suspeitos. Não fosse pelo respeito a Liu Zhonghua, já teria testado as habilidades do velho há muito tempo.
—Charlatão, não diria... A tradição de Mao Shan guarda certos segredos. Se não fosse assim, não ousaria apresentar-se ao irmão Ye...— Xu Changsheng sorriu. —Nunca ouviu falar que os falsos mestres visitados pelo grande empresário Ma acabaram por se dar mal? O irmão Ye é um dos mais ricos do país, nem mesmo charlatães ousam aproximar-se dele. Só que...
—Só que o quê?
—Bem, também não consegui ver tudo claramente, seria imprudente afirmar qualquer coisa... Vamos aguardar para ver o que o mestre Huang fará. Mao Shan é famoso por expulsar espíritos malignos. Talvez seja apenas falta de experiência de minha parte.
Meng Meng apressou-se a bajular: —Impossível, o senhor é que esconde o jogo! Eu sei, faz isso para deixar espaço para os outros trabalharem.
Xu Changsheng sorriu, pensando consigo: Desde quando sou tão nobre assim? Nem eu sabia dessas virtudes...
No salão principal, foram servidos chás aromáticos. O velho Huang percebeu que Ye Tianming e Liu Zhonghua o fitavam cheios de expectativa, e até o colega Xu, do mesmo caminho, não ousava interrompê-lo, visivelmente impressionados por suas habilidades. Sentiu-se ainda mais satisfeito, mexendo as folhas de chá com elegância, antes de tomar um gole e dizer:
—O velho Liu acertou: a pequena senhora está, de fato, sob influência de uma entidade maligna.
Apesar de já suspeitar e de ter testemunhado os feitos do velho Huang, a formação racional de Ye Tianming o fez perguntar, ainda assim: —O senhor pode afirmar com certeza, mestre Huang?
—Ora, se me atrevo a dizer, é porque posso garantir,— replicou calmamente o velho Huang. —A presença de um espírito maligno não significa que ele tenha invadido o mar de consciência da pessoa; isso seria usurpação completa do corpo, ou, como ocorre em certas regiões do norte, onde há simbiose entre médiuns e entidades, compartilhando poderes e recebendo oferendas. O caso mais comum é de espíritos que apenas se alojam nas fissuras solares — normalmente situadas entre as sobrancelhas, palmas das mãos, peito e solas dos pés — sete pontos ao todo. Quando passei a água do talismã na testa da jovem, imagino que o senhor Ye também viu a névoa cinzenta entre as sobrancelhas, não?
Concluindo, olhou para Xu Changsheng: —Irmão Xu, confere o que digo?
Xu Changsheng assentiu: —Está correto, mestre. Meu próprio mestre assim me ensinou.
—Sendo assim, peço ao mestre Huang que use seus poderes e expulse logo a entidade do corpo de minha esposa.
Recordando o que vira e ouvindo o discípulo de um mestre tão respeitado concordar, Ye Tianming não tinha mais dúvidas.
—Muito bem,— disse o velho Huang. —Peço apenas que providencie alguns itens: um galo com mais de três anos, cinábrio e sangue do centro da testa de uma criança pura... São indispensáveis para o ritual.
—Sangue do centro da testa de uma criança?— Ye Tianming franziu o cenho. Eis um pedido difícil: não se pode simplesmente colher sangue de qualquer filho alheio. Seu próprio filho estava na capital, não muito longe dali, mas tirar sangue do menino para ajudar a esposa que estava fora do lar soava estranho. Além disso, já nem sabia se o filho ainda era puro... Não tinha certeza alguma.