Capítulo Quarenta e Seis: Chuva, Trovão e a Correria para Recolher as Roupas – Primeira Parte
— Louquinho, não duvide de mim. Eu, que cultivo há cem anos, já sobrevivi a três provações de relâmpagos. Assim que atravessar a grande provação dos quarenta e nove trovões, alcançarei o Espírito Solar, e o caminho do Dourado Elixir estará próximo...
— Eu já percebi, velho maluco. Assim que o tempo fecha, você vai para fora, provavelmente esperando ser atingido por um raio, não é? Mas agora é inverno, já ouviu falar de tempestade de raios nesse frio? Já está escurecendo, essa garoa logo passa. Que tal voltarmos para casa?
— Você não acredita em mim, não é?
— Não é que eu não acredite, mas não há raio nenhum para te acertar. Estamos no Edifício Chu Capital, o prédio mais alto da cidade. Você no topo quase virou um para-raios, e mesmo assim, nada aconteceu. Se a segurança vier aqui, coitado de mim, mal saí do hospital e já vão pensar que enlouqueci de novo, será que mereço isso?
— Hum, não acredita? Então esqueça! Escute bem, louquinho, mais cedo ou mais tarde enfrentarei essa provação. Quando vier outra tempestade, irei ao topo do Monte Vermelho, no centro do Lago Longo das Nuvens. Você verá com seus próprios olhos!
No meio do temporal, Xu Changsheng corria a toda velocidade, recordando as palavras que o velho maluquinho lhe dissera. Chovia forte, quase não havia ninguém nas ruas, e a cortina de água dificultava a visão, então não precisava se preocupar com algum treinador de atletismo o notando. A cada passo, voava mais de dois metros, correndo em direção ao Lago Longo das Nuvens a uma velocidade capaz de quebrar recordes mundiais.
O Lago Longo das Nuvens, em Chu Capital, era antigamente chamado de Lago do Cão de Pedra, nome dado, dizem, por Mestre Dongpo. No centro do lago foi construída uma barragem, dividindo-o em duas partes, leste e oeste, tornando-se um ponto turístico famoso. No verão, o local recebia mais de cem mil banhistas, sendo também um paraíso para os casais de patos selvagens.
Mas hoje, a tempestade era feroz e repentina, acompanhada de ventos fortes. As águas agitadas expulsaram todos os nadadores, que fugiam às pressas, e os visitantes corriam para longe. Quando Xu Changsheng chegou à estrada da barragem, quase não havia mais ninguém, apenas uma viatura policial com luzes vermelhas piscando na entrada.
Xu Changsheng, sem hesitar, tentou passar correndo, mas foi barrado por dois policiais:
— Ei, garoto, com esse temporal todo, por que está indo para a barragem? Perdeu o juízo?
O policial mais velho franziu a testa e olhou para ele, pensando que hoje em dia os jovens faziam qualquer coisa por emoção. Aquele temporal era um fenômeno raro há anos, e o vento já passava de setenta quilômetros por hora. Com aquele corpinho, se fosse levado pelo vento, acabaria boiando no lago, dando trabalho para eles pescarem o corpo depois.
Aquele dia, o velho policial já havia parado quatro ou cinco jovens inconsequentes como Xu Changsheng. Já estava impaciente, e sua voz saiu mais dura.
— Saia da frente!
Xu Changsheng mediu o policial, achando que poderia derrubá-lo com um empurrão, mas o homem estava em serviço, e no fim das contas estava apenas zelando pela sua segurança. Não deveria agir impulsivamente, mesmo sentindo urgência.
— Ora, rapaz, não sabe dar valor à vida? Você deve ter uns vinte anos, seus pais ainda vivem, não? Se não se preocupa consigo mesmo, pense neles! Não viu o alerta laranja na previsão do tempo? Volte para casa! Capitão Wang, por que saiu do carro?
Do carro desceu um policial de capa preta, que sacudiu o capuz, revelando um rosto familiar. Ele acenou para o velho policial e foi direto até Xu Changsheng:
— É você mesmo, Xu?
Ao perceber que se tratava de um conhecido, o velho policial disse:
— Deixo contigo, Capitão Wang.
E voltou para o carro.
— Por que você está em todo lugar... — murmurou Xu Changsheng, espantado ao ver Wang Qiang. Pensou que, no máximo, seria um caso de emergência, e não entendia o que um detetive fazia ali. Ainda bem que era alguém conhecido, senão não saberia como lidar com o outro policial.
O céu já era cortado por relâmpagos, e Xu Changsheng não tinha tempo para explicações:
— Preciso passar, é urgente!
Wang Qiang o olhou, sem fazer perguntas:
— Pode ir, precisa de ajuda?
— Não pode ajudar, só não deixe ninguém me seguir.
Xu Changsheng fez um gesto de agradecimento e, sem se importar em chamar atenção, disparou em meio ao aguaceiro, abrindo uma trilha nas águas.
No carro, o velho policial limpou os óculos, olhou confuso para o colega e comentou:
— Que velocidade! Parecia até que ia bater um recorde mundial!
— Talvez não vimos direito, por causa da chuva.
— Pode ser, mas ainda assim, ele já está quase meio quilômetro à frente.
Os dois policiais observavam, boquiabertos, Xu Changsheng desaparecendo à distância. Wang Qiang se aproximou, bateu na janela:
— Saiam do carro.
— Mas, capitão Wang, está chovendo muito! O senhor quer que a gente saia?
Apesar da estranheza, ordem era ordem. Desceram, perplexos, e viram Wang Qiang tomar o volante e ligar o carro. Trocaram olhares desesperançados, achando que o capitão havia enlouquecido e que aquele seria um dia de azar para os dois.
— O que aconteceu hoje não deve ser comentado. É uma ordem, entendido?
Wang Qiang, observando a direção que Xu Changsheng tomara, sentiu um estranho entusiasmo no peito. Ao dar partida, ainda abriu o vidro para reforçar a ordem aos policiais.
— O ocorrido hoje? Velho He, será que o capitão se refere àquele jovem maluco correndo na tempestade?
— Quem sabe? Tem algo estranho hoje, você não acha? Era só uma ocorrência comum, mas acabou trazendo o famoso capitão Wang até aqui. E ele, todo misterioso, não nos contou nada...
O velho policial apertou a capa de chuva, semicerrando os olhos para o carro que partia rumo à barragem. De repente, lembrou-se da conversa entre Wang Qiang e o jovem:
— Xiao Lü, o capitão Wang chamou o rapaz de Xu, não foi? Lembra da fuga do paciente do manicômio, caso 828? Tinha um jovem chamado Xu, virou até cidadão exemplar, foi entrevistado na TV. Diziam que nem a tropa de choque conseguiu conter os loucos, mas ele resolveu sozinho.
— Exatamente! Ganhou até um prêmio em dinheiro da delegacia, cinco mil e oitocentos, lembra? Espera... O rapaz da TV não era esse mesmo?
— Eu sabia! O capitão Wang deve ter história com esse garoto.
O velho He riu, satisfeito:
— Ouviu falar dos casos estranhos no Monte Vermelho, no centro do Lago Longo das Nuvens? Não sei por quê, mas abafaram tudo. Nem mesmo os detetives da central tiveram acesso à verdade. Se o capitão veio até aqui, nesse temporal, acho que...
O policial mais jovem ficou arrepiado, tapou a boca do colega:
— Chega, velho He, não fala disso! Pode rir, mas me dá calafrios...