Capítulo Dez: Sou um Bom Cidadão
Durante muitos anos, ao abrir o portão do pátio, ele se deparava com três policiais sorrindo para ele. O da frente, um inspetor de segunda classe um pouco mais velho, ainda parecia normal, mas os dois jovens atrás eram assustadores, exibindo sorrisos tão amplos que mostravam oito dentes, quase parecendo cobradores de pedágio em rodovia.
Naquela noite, era o décimo quarto dia do calendário lunar, e pouco depois das sete horas já havia uma enorme lua no céu. Sob o luar, três policiais riam feito tolos à sua frente; não era de se estranhar que ele ficasse nervoso. Em toda a sua vida, não temia nada, exceto a polícia. Encolheu os ombros e murmurou:
— Senhores policiais, eu... tenho seguido as leis ultimamente, não ando correndo de carro por aí, e já larguei o jogo faz tempo...
— O que houve, velho Xu? Pelo jeito, você cometia crimes com frequência antes, não é mesmo? — disse Wang Qiang, que viera da polícia comunitária e era ótimo de conversa, já se comportando como velho conhecido ao dar um tapinha no ombro dele. Sorriu e continuou: — Deixe-me apresentar, sou Wang Qiang, chefe da divisão de homicídios da delegacia central. Não viemos por sua causa, mas por seu filho... Ele se chama Xu Changsheng, não é?
Xu pisou firme no chão:
— Eu sabia! Esse moleque vive se metendo com vigaristas, era questão de tempo até dar problema! Capitão Wang, ele não deve ter cometido fraude, deve?
Ninguém conhece melhor o filho do que o próprio pai. Xu calculava que, se fosse para seu filho cometer algum crime, seria fraude mesmo, ainda mais depois de tanto tempo andando com o magricela Yang e aquela turma de trambiqueiros, sempre à beira do rio, pronto para se sujar na lama.
Pensando nisso, rapidamente tirou um cigarro da marca Zhonghua:
— Capitão Wang, aceite um cigarro... Que tal? Vocês três podem se sentar aqui no pátio, tomar um chá enquanto eu chamo o moleque. Isso não conta como rendição espontânea? Eu conheço as regras do governo: quem resiste, complica tudo; quem confessa, tem pena menor... Veja só, até me atrapalho de nervoso!
Wang Qiang olhou para ele sem explicar nada, apenas sorrindo:
— Está bem, leve-nos até seu filho. É naquele quarto com a janela aberta? O que ele está fazendo, meditando?
Do lado de fora, Wang Qiang viu Xu Changsheng sentado na cama, de pernas cruzadas e cara séria, e achou graça: esse garoto gosta de encenar, até em casa.
— Pronto, nem chance de confessar deram ao coitado...
Xu, apreensivo, acompanhou Wang Qiang até o quarto do filho, repassando mentalmente suas relações sociais; infelizmente, por mais que pensasse, não achava ninguém que pudesse interceder por ele junto à polícia, então desistiu, resignado.
Ao entrar no quarto, Wang Qiang notou que só a luminária do criado-mudo estava acesa, lançando uma luz fraca e lateral que dividia o rosto de Xu Changsheng entre luz e sombra. O rapaz estava na postura de “cinco corações voltados ao céu”, olhos semicerrados, como se não tivesse percebido a entrada de ninguém. Achando aquilo estranho, fez sinal para que acendessem a luz principal.
— Você é Xu Changsheng? Eu sou Wang Qiang, da divisão de homicídios, viemos por... Ei, está me ouvindo?
O rapaz continuava imóvel na cama, como se não tivesse ouvido nada.
— Xu Changsheng, este é o capitão Wang, da delegacia central...
— Filho, pare de fingir, fale logo o que fez para a polícia vir aqui atrás de você! — exclamou Xu, ansioso, batendo o pé. — Está ouvindo? Desça já da cama! Coopere, quem sabe o governo alivia para você!
Mas Xu Changsheng continuou firme, nem sequer erguendo as pálpebras.
— Esse garoto é bom de fingimento! — murmurou Wang Qiang, um pouco irritado. Mas, como estava ali para pedir um favor e não para prender criminoso, conteve-se. Já seu pai estava cada vez mais inquieto, olhou de esguelha para Wang Qiang, viu que seu semblante mudava de humor e, com medo de tê-lo irritado, foi até o filho e deu-lhe um tapa na testa:
— Moleque, quer morrer? Se continuar fingindo, eu te arrebento!
“Plim!”
O tapa pareceu forte, mas, na verdade, Xu usou um truque da palma dos Oito Trigramas chamado “levantar”, transferindo a força ao tocar a testa do filho; o estalo foi alto, mas não doeu nada. Para Xu Changsheng, porém, foi na medida certa, salvando-o de um momento crítico.
Com o tapa, sentiu um alívio entre as sobrancelhas, um som de “plim” nos ouvidos, e aquela barreira intransponível se rompeu sob o fluxo morno e misterioso que vinha de dentro. Uma energia fresca e agradável irrompeu do centro da testa, encontrando-se com a corrente quente do corpo, como dois exércitos aliados celebrando a união. Juntas, percorreram todo o corpo, veias e artérias, proporcionando uma sensação de conforto e prazer indescritíveis.
Parecia o despertar de um homem de meia-idade, cujos órgãos já davam sinais de cansaço, mas que, ao acordar numa certa manhã, descobria-se novamente jovem, repleto de vigor e renovado dos pés à cabeça.
Xu Changsheng abriu os olhos de repente e sorriu:
— Pai, obrigado.
Só podiam estar diante de um louco.
Não só Wang Qiang e seus colegas ficaram perplexos, como até Xu, o pai, sentiu o coração apertado. O filho, depois de levar um tapa, ainda agradecia? Ou será, pensou ele, que o garoto era esperto, percebeu que a polícia veio prendê-lo e começou a fingir de doido?
Era preciso colaborar imediatamente! Virando-se de costas para Wang Qiang, fez sinais para o filho:
— Filho, você está doente de novo? Que problema... Você não tinha problemas mentais antes?
Doente mental é caso perdido, nem a lei pode punir! Se meu filho está em surto, que podem os policiais fazer? Xu sentiu-se genial, um verdadeiro estrategista.
Xu Changsheng olhou para o pai, ignorou a deixa e, descendo da cama, dirigiu-se aos policiais:
— Os senhores vieram me procurar? Por favor, sentem-se. Ficar de pé não é adequado. Não deem ouvidos ao meu pai, estou perfeitamente bem.
Wang Qiang assentiu sorrindo e, junto dos dois colegas, sentou-se no sofá. Xu Changsheng então chamou o pai:
— Pai, sente-se também. Não se preocupe, seu filho é um cidadão exemplar; esses policiais não vieram me prender, aposto que precisam de mim — e é urgente.
— Ah é? — Wang Qiang se surpreendeu, observando Xu Changsheng com atenção. — Pelo jeito, você sabe por que estamos aqui?
— Hehe...
Com calma, Xu Changsheng trouxe algumas xícaras, serviu água quente aos três policiais e só então sentou-se em frente a Wang Qiang, analisando-o com cuidado:
— Não só sei o motivo da visita, como percebo que, nos últimos anos, o capitão Wang tem tido azar, nada dá certo, vive deprimido. Acertei?
— Ué?
Dessa vez, até os dois colegas de Wang Qiang ficaram boquiabertos. Nos registros, Xu Changsheng era chamado de vidente de rua, mestre em enganar os outros, mas talvez fosse mesmo um verdadeiro mestre.
Apenas Xu, o pai, torceu os lábios em segredo, divertindo-se: “Esse garoto é corajoso, ousa usar truques de charlatão com a polícia?”
Mas Wang Qiang ficou realmente impressionado. Olhou para Xu Changsheng, sério:
— Explique então, por que minha sorte anda ruim?
A curiosidade é inerente ao ser humano, e nem mesmo um chefe de divisão da polícia escapa dela. Xu Changsheng, ao mencionar logo de início os percalços do policial nos últimos anos, realmente o surpreendeu. Tomado pela curiosidade, Wang Qiang até se esqueceu do verdadeiro motivo de estar ali.