Capítulo Sessenta e Seis: Quem usurpou a minha identidade?
Aproveitando-se de que não havia ninguém por perto, Qi Mu saltou silenciosamente do segundo andar, fugindo da Inspetoria. Os transeuntes que presenciaram aquela cena ficaram atônitos; um senhor se aproximou, perguntando:
— Jovem, você está bem?
— Estou sim, obrigado — Qi Mu dispensou a preocupação do velho com um gesto. Precisava sair dali o quanto antes. Tinha certeza de que Mu Hongzhi logo perceberia sua fuga e, se fosse alcançado por ele, já seria tarde demais.
Arrastando seu corpo exausto, Qi Mu se afastou, e tudo pareceu voltar ao normal.
No escritório do chefe no primeiro andar, Mu Hongzhi permanecia sentado, aguardando o passar do tempo em silêncio. De repente, sentiu uma perturbação energética; percebeu que as vinhas que mantinham Qi Mu preso haviam sido rompidas. No entanto, não ordenou nenhuma perseguição, apenas esboçou um sorriso quase imperceptível.
— Esse garoto é realmente interessante... Conseguiu dominar a energia mágica, sabe os nomes dos Pesadelos... Será que há um traidor entre os membros da Santa Igreja?
Após refletir por um instante, Mu Hongzhi descartou essa possibilidade. O segredo dos Pesadelos era restrito apenas ao núcleo mais restrito da Igreja; era impossível que um estranho soubesse de sua existência.
Balançou a cabeça, observando o movimento animado das ruas, murmurando:
— Logo, tudo isso deixará de existir...
Após deixar a Inspetoria, Qi Mu fugiu para um beco escuro, localizado no extremo sul da Cidade do Mar do Norte, uma viela degradada e há muito desabitada. No entanto, os mendigos da cidade haviam se reunido ali espontaneamente. Talvez por não serem aceitos em outros lugares, refugiaram-se ali. Qi Mu desconhecia as regras das outras regiões, mas sabia muito bem das leis do Grande Verão.
Mendigos não eram permitidos; mas talvez pelo grande número deles, a Inspetoria fazia vista grossa, desde que não fossem flagrados mendigando nas ruas principais.
Se fossem pegos, só haveria dois destinos: ou acabariam presos nas celas da região, ou despachados para a linha de frente como isca.
Isca — quer dizer, usados para atrair o inimigo. Mas na frente de batalha, a vida desses mendigos não valia nada; eram tratados pior do que animais, mais desprezíveis do que cães ou porcos.
O beco era imundo, garrafas de cerveja espalhadas pelo chão, líquidos amarelados escorrendo — impossível dizer se era álcool ou urina.
Dezenas de mendigos estavam encostados nas paredes, deitados no chão. Suas roupas eram farrapos e o ar estava impregnado de um fedor de suor e pés sujos, o que deixava Qi Mu profundamente incomodado.
Mas não tinha para onde ir. Em toda a Cidade do Mar do Norte, apenas ali não havia supervisão da Inspetoria. Não podia ser capturado por Mu Hongzhi. Ainda que ali fosse um sonho, Qi Mu sabia: se fosse apanhado pelo Pesadelo, morreria ali mesmo. E morrer no sonho significava jamais acordar, tornando-se um vegetal para sempre.
Por isso, Qi Mu só podia se esconder ali, esperando uma oportunidade.
Mas, até então, nada do Pesadelo — nenhuma pista, nenhum indício.
A noite se aproximava. Qi Mu sentou-se no chão imundo, sem se importar com a sujeira que lhe grudava ao corpo. Lembrou que, durante o Festival do Meio do Outono, fora à noite que a mutação começara, quando perdeu seus melhores companheiros.
Com um suspiro, decidiu: salvaria Yan Yan e os outros primeiro. Embora tudo fosse apenas um sonho, tanto ele quanto o Pesadelo eram apenas observadores desse mundo. O Pesadelo não tinha o poder de alterar o sonho; do contrário, Qi Mu já estaria sob seu controle há muito tempo.
Em outras palavras, ele e o Pesadelo eram intrusos, cada um agindo por si. O objetivo de ambos era o mesmo: encontrar a chance de matar o outro.
No entanto, Qi Mu ainda não havia sequer vislumbrado a sombra do Pesadelo. Salvar Yan Yan seria mais fácil após o início da mutação — naquele momento, a cidade mergulharia no caos, Mu Hongzhi revelaria sua verdadeira face e a Inspetoria ficaria vazia, facilitando o resgate dos companheiros.
O tempo passou rapidamente, fugaz como relâmpago.
Quando a abóbada escura da noite cobriu a cidade, ninguém imaginava o que estava por vir.
Qi Mu, então, roubou algumas roupas limpas em um canto, cobriu o rosto com um chapéu preto e saiu às ruas. Logo viu um cartaz de procurado colado em uma parede, trazendo seu próprio retrato.
Seus olhos arregalaram-se de surpresa. Ao redor, muitos moradores curiosos aglomeravam-se diante do cartaz.
Um agente da Inspetoria gritava para a multidão:
— O assassino Qi Mu está na Cidade do Mar do Norte! Quem trouxer pistas, será recompensado com cem mil moedas do Grande Verão! Se capturarem vivo, meio milhão!
A notícia causou alvoroço. Todos se espantaram com o valor da recompensa e começaram a discutir quem seria aquele tal Qi Mu.
Escondido na multidão, Qi Mu cobriu a boca com a manga e saiu discretamente para o outro lado.
Assassino? Só podia ser uma acusação forjada por Mu Hongzhi para capturá-lo. Mas Qi Mu estranhava: conhecia bem as habilidades daquele velho — seria fácil demais para ele encontrá-lo.
Embora Qi Mu dominasse a energia mágica há pouco tempo, sabia de sua força. Talvez Mu Hongzhi pudesse localizá-lo apenas rastreando as flutuações mágicas, já que, atualmente, apenas os dois detinham tal poder na cidade.
Qi Mu não se preocupou tanto com a falsa acusação, mas nesse momento ouviu alguém se aproximar apressado de um agente da Inspetoria e cochichar algo ao seu ouvido.
Curioso, Qi Mu se pôs a escutar:
— Capitão, encontraram rastros de Qi Mu no oeste da cidade. Dizem que a cena foi terrível, muitos mortos — um verdadeiro banho de sangue!
Qi Mu ficou atônito. Como poderia ser ele? Estava ali, distante do local, e levaria pelo menos meia hora para cruzar toda a cidade — impossível cometer tais crimes e estar ali ao mesmo tempo.
O agente arregalou os olhos:
— Tem certeza?
— Absoluta! Nossos homens o cercaram, mas não somos páreo para ele. Estamos pedindo reforço! — choramingou o informante.
Qi Mu não entendia o que estava acontecendo. Seria outra armadilha de Mu Hongzhi? Mas, como antes, ele não precisava fazer tanto estardalhaço...
Enquanto Qi Mu se perdia em pensamentos, a mutação começou. Um clarão intenso explodiu no céu noturno, transformando-se em mil estrelas. Dos quatro grandes montes ao redor, uma luz branca convergiu, invocando um vórtice negro sobre a Cidade do Mar do Norte, como já acontecera antes.
Dessa vez, Qi Mu não se apavorou. Já havia sobrevivido a uma fuga mortal — tudo aquilo era apenas o prelúdio.
Sabia que o momento chegara.
Aproveitaria o caos para resgatar Yan Yan e os demais, contando com sua ajuda para encontrar o Pesadelo. Quem sabe, em meio à confusão, o Pesadelo não se revelasse?
Afastando-se da multidão, Qi Mu apressou-se em direção à Inspetoria.
Ao chegar à entrada, não sentiu qualquer traço da presença de Mu Hongzhi através da energia mágica. Ainda assim, manteve-se atento, esgueirando-se para dentro. Segurando um homem com uma das mãos, apertou-lhe o pescoço com força. O homem, sufocando, debatia-se com os pés suspensos no ar.
— Diga, onde vocês trancaram o grupo que chegou à tarde? — exigiu Qi Mu, num tom baixo e ameaçador.
O homem, olhos esbugalhados, tentou inutilmente se libertar, conseguindo apenas murmurar algumas palavras, com dificuldade:
— Eu digo... eu digo...
Só então Qi Mu o largou, e o sujeito caiu ao chão, arfando em busca de ar fresco.
— Fale logo! — ordenou Qi Mu, severo.
Apavorado, o homem respondeu:
— Eles foram levados para a sala de confinamento. Iriam ser transferidos hoje à noite para a Fortaleza Regional, mas houve um problema lá. Por isso, estão na sala de confinamento, por enquanto.
Qi Mu suspirou aliviado. Ainda bem que não os levaram para a fortaleza, pois não teria como resgatá-los. Na última vez, na Cidade da Luz, só escaparam graças à ajuda do irmão Gan.
Com um aceno, Qi Mu desmaiou o homem e seguiu em direção à sala de confinamento, situada no interior da Inspetoria. Era uma sala simples, usada para manter presos ainda sem sentença ou para outros fins. Bastava uma chave para abri-la.
Mas, ao chegar à porta, Qi Mu deparou-se com o local vazio. Na entrada, um homem caído ao chão, com uma longa cicatriz sangrenta no rosto.
Com o cenho franzido, Qi Mu agachou-se, fazendo uma chama surgir na palma da mão e aproximou-a da perna do homem.
Depois de dominar a energia mágica, Qi Mu descobrira que podia não apenas ampliar suas capacidades físicas, mas também converter a energia em fogo, inesgotável enquanto sua força não se esgotasse.
O homem estremeceu com a dor, abriu os olhos devagar e fitou Qi Mu. Num súbito terror, tentou se arrastar para longe, balbuciando palavras desconexas.
Vendo aquela reação, Qi Mu se sentiu intrigado. Saltou para junto do homem, imobilizando-o no chão. Antes que pudesse falar, o outro rapidamente implorou, apavorado:
— Não me mate! Por favor, não me mate!
Diante do apelo, Qi Mu perguntou friamente:
— Para onde foram os detidos que estavam aqui?
O homem, surpreso, arregalou os olhos e observou Qi Mu por alguns segundos, antes de responder confuso:
— Mas... você mesmo não acabou de tirá-los daqui?