Capítulo Trinta e Três: O Egoísmo da Natureza Humana

Caçador de Demônios do Abismo Lua Etérea 3391 palavras 2026-02-09 17:17:03

Depois de abandonar Tie Chi e fugir sozinho, Leng Mianzhi escondeu-se em um local remoto, o corpo encharcado de suor frio. O monstro chamado Devorador esmagara seu braço, e a dor se espalhava por todo o corpo, fazendo-o sentir como se seu próprio corpo já não lhe pertencesse.

Naquele momento, ele estava encostado numa parede, sentado no ângulo formado por uma casa desmoronada e outros entulhos. O espaço era estreito, o que dificultava que aquelas criaturas o encontrassem, e por isso Leng Mianzhi só podia ficar ali provisoriamente.

De repente, lembrou-se: aquele monstro era completamente desconhecido, precisava relatar isso a alguém de dentro do Domínio. Retirou o comunicador das roupas e tentou chamar alguém do Domínio Daqing, mas de nada adiantou; não conseguia contato. Resignado, largou o aparelho ao lado.

“Maldição, se eu soubesse que seria assim, jamais teria vindo para a Cidade Beihai. Agora, por causa dessas criaturas, não sei nem se vou conseguir voltar ao Domínio Daqing”, murmurou, arrependido.

Na verdade, aquela missão nem sequer era para ele. Mas, por cobiçar méritos e fama para seus próprios objetivos, manipulou o destino, usou seus contatos e tomou para si o lugar de outro. Agora, só lhe restava a amarga constatação: se soubesse que seria assim, nunca teria feito isso.

Tomado de frustração, bateu com força na própria coxa. Mas, nesse instante, o chão começou a tremer violentamente. Leng Mianzhi ficou paralisado, mas pouco depois o tremor cessou. Curioso, espiou para fora — e, para seu azar, viu um Devorador parado bem acima de sua cabeça.

Tomado pelo pânico, recolheu imediatamente o corpo, tentando evitar um ataque do monstro. O suor escorria-lhe pela testa, e os olhos, tensos, não desgrudavam do Devorador. Por pouco, um segundo apenas, as garras da criatura teriam rasgado seu crânio — e então tudo acabaria ali mesmo.

O pensamento do que quase acontecera fez seu coração disparar. O Devorador arranhava as lajes de pedra ao redor, tentando abrir passagem, mas não conseguia alcançar Leng Mianzhi.

Depois de muito tentar sem sucesso, a criatura pareceu irritada. Escancarou a boca, revelando quatro longos tentáculos de carne que se contorciam incessantemente. O do centro dividia-se e formava uma ventosa cheia de espinhos.

Leng Mianzhi ficou aterrorizado, sentindo o suor gelado por todo o corpo. Moveu-se para trás, em pânico, pois não queria ser tocado por aquelas coisas repugnantes.

Mas o espaço era mínimo. Não havia mais para onde recuar. Com as costas prensadas contra a parede, viu o tentáculo se aproximar, a ponta a poucos centímetros do seu rosto. De tão perto, conseguia ver claramente a gosma viscosa e nojenta que cobria a carne.

Num ímpeto desesperado, agarrou o tentáculo e apertou com toda a força que ainda lhe restava.

Do lado de fora, o Devorador pareceu sentir dor intensa, golpeando o solo com fúria, o que fazia a terra tremer perceptivelmente para Leng Mianzhi.

Depois de algumas tentativas frustradas, a criatura, finalmente percebendo que não conseguiria alcançá-lo, afastou-se aos poucos.

Sobrevivente por mais um triz, Leng Mianzhi ficou deitado no chão, respirando pesadamente, sem saber que aquela era sua última chance — pois catástrofes ainda maiores logo o aguardariam…

Enquanto isso, Ye Zichen estava encostado em um carro, observando calmamente o duelo entre dois homens. A velocidade deles era tamanha que deixava Ye Zichen tonto.

Troca de golpes após golpes, passaram um bom tempo sem que se definisse um vencedor. Algumas árvores próximas foram arrancadas pela força brutal de ambos.

“Long Yan é mesmo um sujeito dissimulado. Com toda essa habilidade, e ainda assim não consegue derrotar um Devorador. Patético!”, murmurou Ye Zichen, vendo Long Yan lutar de igual para igual com o outro homem.

Por fim, o oponente uniu os punhos, canalizando uma força invisível, e acertou o peito de Long Yan. Este, apressado, ergueu os braços para se defender.

Um estrondo ecoou. Uma onda de calor explodiu entre eles, sacudindo as folhas das árvores ao redor. Long Yan caiu ao chão com o impacto, mas logo se ergueu, limpando o sangue do canto da boca, e disse, contrariado: “Eu perdi.”

O homem apenas respondeu com frieza: “Rapaz, você luta muito bem. Se algum dia quiser, pode tentar se juntar ao nosso grupo, o Dragão da Chama.”

“Dragão da Chama?” Ao ouvir isso, Ye Zichen ficou surpreso, murmurando para si: “Long Yan foi convidado para entrar no Dragão da Chama… Não posso deixá-lo escapar.”

Dragão da Chama era um grupo quase desconhecido para o público. Ye Zichen soubera da existência deles por acaso. Eram 51 membros, todos de habilidades excepcionais, protegidos pelo Domínio Daxia de forma rigorosa, com identidades ocultas, encarregados das missões mais difíceis do domínio.

Surpreso com o convite feito a Long Yan, Ye Zichen apressou-se e se curvou respeitosamente: “Jamais imaginei que o senhor fosse um dos Dragões da Chama. Sinto-me envergonhado diante de sua presença.”

“Não importa. Minha missão é apenas impedir que vocês entrem na Cidade Beihai. O resto não me interessa”, respondeu o homem, balançando a cabeça, sem demonstrar preocupação.

“Mas, senhor, ainda há Observadores na Cidade Beihai. O que devemos fazer?”, perguntou Ye Zichen, preocupado.

“Isso será decidido pelo Senhor do Domínio. Vocês não precisam se preocupar. Agora, vão embora”, ordenou o homem, acenando para que partissem.

Quando Ye Zichen entrou no carro para ir embora, olhou mais uma vez na direção da Cidade Beihai. Onde antes se erguiam inúmeros prédios, agora não se via mais nada.

Achando que seus olhos o enganavam, esfregou-os, mas, ao olhar de novo, confirmou: não havia mais vestígio algum de Beihai. Voltou-se para o homem: “Senhor, temo que a situação em Beihai seja gravíssima.”

“Já disse que não precisam se preocupar, haverá quem…” O homem, impaciente, calou-se subitamente. Virou-se para a direção da cidade e, assim como Ye Zichen, não viu mais nada.

“Espere aqui um pouco”, ordenou ao rapaz.

Diante do olhar atônito de Ye Zichen e Long Yan, o homem flutuou suavemente no ar, fundiu-se ao vento e, numa velocidade impossível de acompanhar, sumiu de vista, deixando apenas uma nuvem de poeira no local.

Ye Zichen virou-se para Long Yan e, com um sorriso amargo, comentou: “Parece que aquele senhor pegou leve com você. Se tivesse lutado pra valer, seu destino seria igual ao meu.”

Long Yan observava o ponto onde o homem desaparecera, perdido em pensamentos, e apenas murmurou: “Sempre há alguém mais forte, sempre há algo além do céu.”

O vento soprou, arrastando as folhas caídas pelo chão para longe…

No Salão do Senhor da Cidade, Fang Yun aproximou-se de alguns que se recusavam a sair. Estava prestes a perguntar algo quando notou o rosto pálido de um dos homens, assustando-se.

“O que houve? Por que está tão pálido?”, perguntou Fang Yun, intrigado.

A voz do homem saiu rouca: “Sinto-me exausto, não consigo me mover.”

Com dificuldade, ele tentou agarrar a manga de Fang Yun, mas este se esquivou.

Fang Yun fez um sinal para He Yuanji, chamando-o. He Yuanji entendeu, aproximou-se e disse ao homem: “Você parece estar mal, deve estar com fome. Que tal subir ao segundo andar para comer algo?”

“Não estou com fome. É como se meu corpo estivesse sendo esvaziado aos poucos”, retrucou, teimoso.

Sem tempo a perder, Fang Yun, vendo as rachaduras na barreira mágica se alargarem cada vez mais, sentiu-se aflito. Deu um pontapé em He Yuanji e murmurou: “Leve-o logo para o segundo andar, ou nós dois estaremos perdidos.”

Mas, por mais que insistissem, o homem não queria sair. Não queria se mover, queria apenas ficar onde estava.

Se ele permanecesse ali, Fang Yun e He Yuanji não poderiam acessar o subterrâneo. E, quando a barreira se rompesse, seria o fim de ambos.

O tempo passava, pressionando-os. Fang Yun, após refletir por um instante, tomou uma decisão. Com olhar resoluto, puxou He Yuanji para perto e sussurrou: “Não temos tempo. Se demorarmos, vamos morrer!”

“O que faremos? Não posso simplesmente obrigá-lo a subir, isso levantaria suspeitas”, respondeu He Yuanji, trêmulo de medo ao ouvir a palavra “morrer”.

Fang Yun juntou-o a si, colou o rosto ao dele e murmurou: “Se ele não quer ir, então vamos eliminá-lo!” Fez até o gesto de passar a mão pelo pescoço.

He Yuanji ficou espantado. Não esperava que Fang Yun fosse capaz de tal coisa — tirar a vida de alguém por instinto de sobrevivência. Hesitou: “Isso não está certo… é uma vida, afinal. Mesmo que ele fosse morrer depois, não seria culpa nossa, mas sim daqueles monstros lá fora.”

Fang Yun perdeu a paciência, deu-lhe um tapa e gritou: “De que adianta toda essa covardia? Numa situação dessas, ainda se preocupa com a vida dos outros? Quando aqueles monstros invadirem, todos morreremos, a menos que nos escondamos no subterrâneo!”

A voz de Fang Yun era tensa e apressada, gotas de suor escorriam-lhe pela testa. Estava claro que seu nervosismo era extremo.

He Yuanji refletiu por um momento, então bateu palmas e disse: “Está certo, vamos até o fim!”

Trocaram olhares e, em silêncio, aproximaram-se do homem que se recusava a sair. Pisando macio, chegaram às suas costas.

He Yuanji sacou uma faca do bolso e, num golpe, perfurou a garganta do homem. Este, com esforço, virou-se, apontou para eles, o olhar incrédulo — jamais imaginara que o Senhor da Cidade e o Inspetor seriam seus algozes. Caiu ao chão, e o sangue escorreu até os pés dos dois.

Ambos suspiraram aliviados, finalmente livres daquele problema. Agora, podiam ir para o subterrâneo. Quanto aos outros no andar de cima, suas vidas já não eram mais responsabilidade deles. Em momentos de vida ou morte, só restava pensar em salvar a própria pele.

Quando todos os Devoradores invadiram, os que estavam no segundo andar ainda não acreditavam no que viam, mas foram massacrados até o último. O brilho rubro do sangue iluminou todo o Salão do Senhor da Cidade.