Capítulo Trinta: O Único Sobrevivente
Quando o véu negro da noite foi rasgado pela luz, um facho luminoso desceu lentamente do céu, de onde brotaram inúmeras criaturas devoradoras, cintilantes e hipnotizantes.
Naquele instante, Qi Mu estava sendo esmagado sob o pé de Mu Hongzhi, incapaz de enxergar o que se passava ao seu redor. Mu Hongzhi, por sua vez, assistia tranquilamente à chegada das devoradoras, ostentando uma expressão indecifrável.
Murmurou, então: “O plano da Santa Igreja está quase concluído desta vez.”
Depois, ergueu o pé e deu um leve chute na cabeça de Qi Mu, sorrindo ao dizer: “Levanta, garoto, estou te deixando ir, anda, desapareça daqui.”
Sentindo o alívio da pressão sobre sua cabeça, Qi Mu levou a mão ao local e se pôs de pé, fitando Mu Hongzhi. Apertando os lábios, questionou: “Por que me deixou aqui?”
Mu Hongzhi apenas sorriu suavemente, apoiando-se numa parede em ruínas antes de responder com indiferença: “Alguém me pediu para te manter aqui por um tempo. Agora, o prazo acabou, pode ir embora, senão não me importo de te fazer ficar mais um pouco.”
Após ouvir isso, Qi Mu virou-se apressado para partir, pois ainda tinha assuntos importantes a tratar e não podia perder tempo ali.
No momento em que se afastava, a voz do velho em sua mente voltou a ecoar: “Garoto, aquele homem carrega consigo uma energia demoníaca sutil. Se quisesse, poderia te reduzir a cinzas num piscar de olhos.”
O quê! O aviso do velho abalou profundamente Qi Mu. Não imaginava que Mu Hongzhi falava a verdade: se enfrentasse o homem de frente, não sobreviveria sequer três minutos. Percebeu que, na verdade, ele havia sido modesto em suas palavras, e Qi Mu não pôde evitar de suar frio.
“Energia demoníaca? O que é isso?” Aproveitou a deixa e perguntou, intrigado.
“Energia demoníaca é a força que reúne a energia deste mundo, permite ao homem voar, atravessar céus e terras, resistir sozinho a exércitos e destruir montanhas e mares com um só golpe!”
“Então por que nunca ouvi falar disso antes? Nem nas Vinte e Quatro Províncias, nem na Corte dos Deuses, nunca ouvi mencionar tamanha força.” Qi Mu franziu o cenho, descrente. Desde que ingressara na organização dos Observadores, conhecia os segredos de inúmeras instituições, mas o que o velho dizia lhe era totalmente novo.
“Hehe, garoto, há muitos mistérios ocultos nesta terra. Vocês sabem muito pouco ainda.” A voz ressoou em sua mente, com um riso resignado.
“E como se obtém tal energia demoníaca?”
“Aquele fortificante que vocês usam é a chave para despertar a energia demoníaca. Apenas um corpo reforçado pode suportar sua invasão.”
“Então, quer dizer que eu também tenho chance de possuir energia demoníaca? De ser tão forte quanto Mu Hongzhi?” exclamou Qi Mu, surpreso.
“Sim.”
Com essa resposta, Qi Mu não conteve a excitação. Imaginou-se flutuando entre as nuvens, observando toda a terra do alto, como um deus sobre todos!
“Calma, garoto, não se alegre tão cedo. Vocês não têm nada sobre o cultivo da energia demoníaca. Têm a forma, mas não o espírito!” advertiu o velho, com serenidade.
Qi Mu, confuso, perguntou: “Então como o pessoal da Santa Igreja conseguiu?”
“Hum, isso nem eu sei...”
Diante dessa resposta, Qi Mu não escondeu sua frustração. Achava que o velho sabia de tudo, mas nem ele conhecia a origem da Santa Igreja. Franziu o cenho, coçou o queixo e, após breve reflexão, um pensamento súbito o alarmou: “Droga! A irmã Yan Yan e os outros!”
Ergueu os olhos para o céu, vendo ainda o feixe de luz transportando incessantemente devoradoras à superfície. Precisava reencontrar seus companheiros sem demora.
Guiado pelos sinais deixados por Yan Yan, Qi Mu seguiu apressado em sua direção.
No centro da Cidade do Mar do Norte, uma multidão de devoradoras se alinhava em perfeita ordem, como se aguardassem algo. O tempo escoava silencioso. Quando a última criatura emergiu do feixe, ela olhou em volta e rugiu para o céu: “Gula!”
“Gula!” As devoradoras ao redor responderam em coro, e o clamor estremeceu toda a Cidade do Mar do Norte, fazendo-se ouvir por Yan Yan, Qi Mu e todos os demais.
Mu Hongzhi, ao contemplar a multidão de devoradoras no centro da cidade, sorriu de canto e murmurou: “O clímax começa agora...”
De longe, Qi Mu ouviu os rugidos e apressou-se ainda mais rumo ao grupo de Yan Yan. E ela, naquele momento, se escondia sob o beiral de uma casa desmoronada, junto aos demais, todos deitados no chão, respirando contidamente, temendo até o próprio fôlego.
Encontraram abrigo ali para descansar e também para escapar da perseguição das devoradoras. Embora ignorassem quando seriam descobertos, a barreira de luz os impedia de sair; aquele esconderijo era apenas uma solução provisória.
Gotas de suor deslizavam pela face de Yan Yan, molhando o chão. Estavam há seis horas sem água e sob extrema tensão física e psicológica — um peso quase insuportável, que fazia cada um refletir sobre quanto tempo ainda teria antes de morrer, de ser consumido pelas criaturas.
O exército das devoradoras já havia chegado. Antes do amanhecer, varreriam a cidade, tornando a Cidade do Mar do Norte uma cidade morta.
Yan Yan aproximou-se dos companheiros e falou baixinho: “Vocês têm medo de morrer?” Sua voz tremia levemente, embora não deixasse transparecer. O medo, afinal, é inerente àqueles que encaram a morte; ela representa o abismo, a perda de tudo...
Todos estavam preparados para morrer, mas encarar a morte, vê-la se aproximar lentamente e ser dilacerado aos poucos é uma experiência torturante.
Os rostos estavam cobertos de suor, mas o olhar permanecia firme. Eram Observadores; desde o primeiro dia sabiam dos riscos, por isso deixaram o medo para trás e encararam o destino com coragem.
“Não temos!” responderam em uníssono.
“Vocês se arrependem de terem vindo para os Observadores, de terem vindo hoje à Cidade do Mar do Norte?” perguntou Yan Yan, a voz trêmula.
“Irmã Yan Yan, não há tantos arrependimentos na vida. Se fizemos, não nos arrependemos!” respondeu Yuan Ze, pálido, as palavras saindo com esforço.
O veneno já se infiltrara em sua pele e ossos após horas de sofrimento; sua pele estava arroxeada e escurecida.
Yan Yan fitou os companheiros com olhar determinado. Apoiada na parede, ergueu-se com dificuldade e declarou: “Então, lutemos uma última vez. Que ao menos um deles caia conosco! Se conseguirmos dois, não saímos no prejuízo!”
“Vamos!”
Todos se levantaram, deixando o abrigo precário, encarando de frente o exército das devoradoras. Parecia que seus corpos ardiam em chamas, uma chama que subia até o céu, suas silhuetas tristes e solenes avançando com passos resolutos pela estrada da morte.
As devoradoras subiam telhados, atravessavam ruínas, vasculhavam cada canto em busca de sinais de vida. Quando nada encontraram, viram, numa rua deserta, cinco pessoas lado a lado, ombro a ombro, marchando em sua direção.
As criaturas avançaram sobre eles, garras cortando o ar, atingindo suas peles, espalhando sangue pelo ar. As devoradoras logo se aglomeraram. No início, os cinco ainda resistiam, mas exaustos, não tinham mais forças para lutar contra tamanha horda.
“Aaaah!” A pele foi rasgada, um braço despedaçado por uma garra, arrancando gritos de dor, mas ainda assim resistiam ferozmente.
“Companheiros, eu, Xiao Jie, vou na frente!” gritou Xiao Jie, lançando-se sobre as devoradoras, derrubando várias. Rugiu para o céu, golpeando as criaturas com os punhos até ser engolido por elas.
“Xiao Jie!” os demais gritaram, tomados pela dor, mas não ouviram resposta. O Observador da segunda equipe, Xiao Jie, tombou ao alvorecer de dezesseis de julho.
Reprimindo o pesar, os sobreviventes resistiram com desespero, protegendo-se atrás de uma chapa de ferro que já estava prestes a se romper. Subitamente, uma garra atravessou o metal, tentando agarrar o braço de Yan Yan.
Ela sacou uma adaga especial, cortou a garra ao meio, espirrando sangue negro em seu rosto, intensificando o ar de morte.
Mu Yuran, chorando, golpeava as criaturas com a lâmina, mas já não tinha forças...
Segundos depois, todos foram arremessados ao chão pelas devoradoras; a chapa de ferro virou estilhaços.
Apertaram-se uns às mãos dos outros, fecharam os olhos e aceitaram serenamente o fim.
Os quatro, juntos, aguardaram pela chegada da morte. Do céu, gotas de chuva começaram a cair, escorrendo por seus rostos até se perderem no solo.
As devoradoras finalmente romperam a defesa, com olhos vorazes, escancarando bocas sangrentas para devorá-los.
O tempo pareceu desacelerar. Sentiram o corpo sendo mordido, a dor lancinante, mas resistiram sem gritar, querendo partir deste mundo em silêncio...
As criaturas logo os cercaram, devorando-os, restando apenas Yan Yan.
A dor esperada não veio; Yan Yan esperou, imóvel. Um minuto, dois, um tempo indefinido. Ao abrir os olhos, notou que segurava apenas as mãos de Jiang Tiancheng e Yuan Ze. As devoradoras já haviam se afastado, restando apenas suas silhuetas ao longe.
Yan Yan levantou-se, incrédula, tremendo, as duas mãos apertadas com força. Naquele instante, as lágrimas romperam todas as suas defesas, caindo sem controle até se fundirem à chuva no chão.
“Não!” gritou em desespero.
“Por quê! Por que não me devoraram também? Por quê!” Yan Yan gritou com dor para as devoradoras que se afastavam. A chuva encharcou seus cabelos, caindo sobre os ombros; naquele momento, ela era a única sobrevivente nas ruínas daquele mundo.