Capítulo Trinta e Oito — Tornando-se Discípulo!
Qimu olhava para a multidão de Devoradores à sua frente, franzindo o cenho. Essas criaturas não os atacariam sem motivo, mas também não eram ingênuas; se fossem atacadas, revidariam sem hesitar.
Restavam apenas três horas até o momento indicado pelo Mestre Ye. O espaço disponível dentro da Cidade do Mar do Norte diminuía visivelmente, tornando o local tão congestionado quanto um mercado em dia de feira.
— Deixa que eu te ensino — a voz do Mestre Ye soou novamente na mente de Qimu.
— Rapaz, eu vou te ensinar a romper os limites do corpo humano, a entrar em um novo estágio, mas você precisa me aceitar como mestre. Um dia como mestre, para sempre pai — a voz do Mestre Ye ressoava de forma solene e serena na mente de Qimu.
Ao ouvir aquilo, Qimu hesitou. Não sabia quem era aquela pessoa, de onde vinha, nem por que residia em sua mente. Tudo era um mistério.
Depois de refletir por um momento, Qimu respondeu:
— Está bem, aceito ser seu discípulo, mas com a condição de que você nos ajude a escapar daqui.
— Muito bem! — o Mestre Ye respondeu com entusiasmo.
— Seu corpo já está no limite, esse é o melhor momento para romper. Siga minhas instruções: sinta cuidadosamente os meridianos do seu corpo, depois concentre a respiração nos ossos, relaxe completamente e perceba a energia sutil que flutua no ar.
Qimu fez como lhe foi dito, fechou os olhos e concentrou-se. De repente, percebeu uma energia tênue no ar, tentando capturá-la, mas sem sucesso.
— Mestre Ye, o que está acontecendo? — perguntou Qimu, já impaciente.
— Não tenha pressa. Precisa tocá-la sutilmente, sentir a energia, depois absorvê-la para dentro de si e finalmente transformá-la em sangue correndo por todo o corpo.
— Rapaz, esse processo é doloroso. Está preparado? — O tom de Mestre Ye soou quase provocador aos ouvidos de Qimu.
— Que venha! — respondeu Qimu, desdenhando.
Assim que conseguiu capturar a energia no ar, seu corpo explodiu em uma luminosidade intensa, como se tivesse se tornado um sol radiante. Flutuou lentamente acima do chão, enquanto gritos de dor escapavam de sua garganta.
— Aaah!
— Maldição, isso está me matando! — Qimu contorcia o rosto e o corpo, tomado por uma dor incontrolável.
Yan Yan, ao ver a súbita transformação dele, aproximou-se preocupada:
— Qimu, o que houve? O que está acontecendo?
Ouvindo a voz aflita da irmã, Qimu fez um esforço para suportar a dor, cerrando os dentes:
— Não se preocupe, irmã. Daqui a pouco eu vou te ajudar a vingar o irmão Jiang... aaah!
Por fim, a luz no corpo de Qimu foi se apagando, e ele ficou meio erguido no ar, como se uma força invisível o sustentasse. Sentindo a dor desaparecer, abriu os olhos e contemplou as próprias mãos, sentindo uma energia abundante percorrer seu corpo. Soltou um brado e, sob seus pés, uma onda de energia se expandiu, destruindo o que restava de paredes e casas próximas.
Yan Yan, esgotada como estava, não conseguiu resistir ao impacto e foi lançada longe, mas antes de cair, uma rajada de vento a amparou. Quando abriu os olhos, viu-se nos braços de Qimu, ambos flutuando. Surpresa, exclamou:
— Qimu, como fez isso?
Qimu respondeu com um sorriso orgulhoso:
— Eu disse, irmã, seu irmão aqui pode tudo!
Descendo lentamente, ele a colocou no chão e voltou o olhar para os Devoradores, que os observavam de longe. A onda de energia que ele liberara derrubara muitos deles.
Virando-se para Yan Yan, disse com um sorriso cruel:
— Veja, irmã, vou eliminar todos esses monstros repugnantes.
Depois de tanto tempo sendo atacados, finalmente era hora do contra-ataque. Vocês, monstros, mataram meu pai, Jiang, Yuan Ze e tantos outros! Eu, Qimu, agora vou vingar todos vocês!
— Aaaah! — bradou, transformando-se em um raio de luz que atravessou o grupo de Devoradores, cuja simples aproximação à energia emanada de Qimu bastava para destruí-los, abrindo fissuras pelos corpos de onde jorrava sangue negro.
Embora Qimu tivesse acabado de romper os limites humanos, a diferença era gritante. Antes, com o uso de fortificantes, já superava os comuns, mas ainda estava longe de ultrapassar a barreira entre humanos.
Agora, porém, ele ultrapassara o limite. Ainda não dominava a magia completamente, mas era uma mudança qualitativa. Com um simples gesto, a energia em suas mãos rasgava os Devoradores, fazendo-os explodir em fragmentos.
Pedaços de carne e sangue negro espalhavam-se por toda parte. Qimu exterminou um a um sem esforço e colheu seus núcleos.
Dez minutos depois, não restava nenhum Devorador. Qimu havia aniquilado todos.
Yan Yan, boquiaberta, olhava incrédula. Sentira as mudanças em Qimu, mas o que via agora era difícil de acreditar: aqueles Devoradores antes invencíveis agora caíam facilmente, e ele parecia ter energia de sobra.
Qimu, ofegante, estava imerso em sangue negro — pela primeira vez sentia o prazer de uma matança tão completa. Fitando o céu e a barreira púrpura, murmurou:
— Jiang, vinguei todos vocês! Que suas almas descansem em paz...
Yan Yan correu para abraçá-lo, transbordando alegria:
— Qimu, você foi incrível! Sozinho derrotou todos eles!
Qimu ficou surpreso com o abraço dela, como um canguru, e sussurrou:
— Irmã, vinguei Jiang e os outros.
— Sim! — Yan Yan chorava de emoção, mas um sorriso largo iluminava seu rosto.
Depois de tantas fugas, tantas lutas e riscos de morte, os dois estavam mudados. Agora, só tinham um objetivo: sair dali e, orgulhosos, declarar: “Voltamos!”
O Mestre Ye sorriu e disse com serenidade:
— Muito bem, rapaz. Embora esses Devoradores fossem fracos, serviram como uma boa prova para quem acabou de romper o limite.
Qimu sorriu, resignado:
— Fracos? O senhor está brincando comigo?
— O mundo é vasto e repleto de maravilhas, vocês jovens ainda virão a conhecer muito mais. Falarei mais sobre isso no futuro — o Mestre Ye riu com desdém.
A cada momento crucial, ele parava e dizia que depois contaria o resto. Qimu já se habituara a isso, sabendo que nada podia fazer para obrigá-lo a falar.
Ele e Yan Yan recolheram todos os núcleos dos Devoradores, formando uma pequena montanha. Yan Yan, curiosa, perguntou:
— Qimu, para que você quer esses núcleos?
Desconhecendo a conversa entre ele e o Mestre Ye, ela olhava intrigada.
— Irmã, com esses núcleos vamos conseguir sair daqui — Qimu respondeu, limpando as mãos ensanguentadas.
— Núcleos?
— Em breve, vou extrair a energia deles e condensar um enorme escudo protetor. Você ficará comigo dentro e, assim, sairemos.
Yan Yan hesitou, mas confiou em Qimu. Depois do que presenciara, sabia que ele escondia segredos, mas não perguntaria — quando fosse a hora, ele explicaria.
Ela recuou, e Qimu, diante da pilha de núcleos, fechou os olhos e comunicou-se com o Mestre Ye.
— Mestre, cumpri a missão. Agora é com o senhor.
— Certo. Relaxe a mente. Agora, tomarei o controle do seu corpo. Não resista, como antes — disse o Mestre Ye calmamente.
Qimu não hesitou. Se aquele velho quisesse matá-lo, já teria feito isso antes, então entregou o corpo sem receio.
Ao abrir os olhos, era o Mestre Ye quem comandava. Ele ergueu as mãos e, na palma, uma força invisível sugou a energia mais pura dos núcleos.
Fios de luz branca fluíram como rios, unindo-se até formar uma enorme esfera resplandecente, comparável ao sol do céu.
Quando abriu os olhos novamente, Qimu reassumira o controle. Surpreso com a esfera de energia, voltou-se para Yan Yan:
— Vamos, irmã. Logo este lugar será completamente comprimido.
— Sim — respondeu ela, entrando no interior da esfera ao lado do irmão.
Atravessaram a esfera e, dentro dela, ouviram a voz do Mestre Ye:
— Agora, basta avançar protegidos pela luz. Não saiam daqui por nada, ou as forças externas os destruirão num instante!
Caminharam no interior da esfera, que se movia junto com eles. Ao tocar a barreira púrpura, esta ondulou suavemente e os deixou passar.
Eles olharam para trás, através da luz, para a Cidade do Mar do Norte, como se se despedissem em silêncio: “Adeus, Cidade do Mar do Norte!”
Em seguida, seguiram em frente, decididos, até desaparecerem dali. Com o tempo, a barreira foi se comprimindo até tornar-se um ponto, engolindo toda a cidade.
Incluindo seus antigos habitantes, Jiang Tiancheng, os Devoradores derrotados por Qimu — tudo foi esmagado até não restar nada.
Cidade do Mar do Norte! Essa cidade, no mais profundo sentido, desapareceu deste mundo, levando consigo tudo o que um dia existiu ali.