Capítulo Quarenta e Três – O Animal de Estimação
Zhang Ling hesitou um pouco antes de se aproximar. Quando, devagar, chegou diante de Qi Mu, falou baixinho, quase em segredo:
—Irmão, quando me bater, não bata no rosto, vai acabar com minha aparência.
Qi Mu quase riu ao ouvir isso, mas conteve o sorriso interno.
—Se você convencer seu Liu Si a nos deixar ir, nada disso precisa acontecer — respondeu ele.
A essas palavras, os olhos de Zhang Ling brilharam. Ele virou-se e lançou um olhar estranho para Liu Tai, um misto de súplica e desejo. Liu Tai entendeu de imediato: Zhang Ling queria que ele deixasse Qi Mu e os outros partirem.
Não aguentando mais, Liu Tai explodiu:
—Que atrevimento! Aqui é a minha Inspetoria! Vocês acham que podem entrar e sair quando quiserem? Seus inúteis, todos vocês, ataquem!
Seu grito abafou qualquer hesitação que restasse nos presentes. Eles se entreolharam, até que um deles, como se aceitasse o destino, gritou:
—Vamos!
Mal terminou de falar, lançou um soco com toda força contra o rosto de Qi Mu. Qi Mu, com um leve movimento, dissipou o impacto da mão e devolveu a força para o corpo do agressor, que voou pelo ar, atravessando a parede e caindo no chão, cuspindo sangue.
—Ora... — Qi Mu olhou, um pouco sem jeito, para o homem caído no chão e murmurou — Não foi para tanto, mal usei força...
Os outros, vendo Qi Mu despachar mais um companheiro sem esforço, se aproximaram dele em silêncio. Quando Qi Mu pensou que atacariam, algo surpreendente aconteceu, deixando Liu Tai e Qi Mu igualmente atônitos:
Eles se ajoelharam diante de Qi Mu, com olhares suplicantes, e, em coro, disseram com vozes trêmulas:
—Irmão, nós erramos!
Liu Tai ficou completamente transtornado ao ver aquela cena. Os seus subordinados ajoelhados diante de prisioneiros! Aquilo era uma vergonha para a Inspetoria, uma afronta para ele mesmo!
Seu rosto ficou roxo de raiva e, ofegante, gritou:
—Seus inúteis! O que estão fazendo? Levantem-se imediatamente!
Eles ouviram Liu Tai, mas em uníssono responderam:
—Chefe, não conseguimos vencê-los!
—Malditos inúteis, um bando de imprestáveis! Todo o dinheiro que recebem só serve pra engordar vocês? Fora daqui! — Liu Tai, alternando entre a palidez e a fúria, deu um soco tão forte na mesa que abriu um buraco no tampo.
Enfurecido, Liu Tai voltou-se para Qi Mu e gritou:
—Não se ache! Vou chamar a Guarda para dar apoio, quero ver para onde vocês fogem! A Cidade do Meio-Dia é meu território!
Dito isso, pegou o comunicador fixo da mesa e entrou em contato com a Guarda da cidade.
Qi Mu assistiu à cena com indiferença, acenando despreocupado:
—Nesse caso, vamos indo. Ficarei esperando você nos capturar.
Lançou um olhar provocador para Liu Tai, pegou Yan Yan pela mão e saiu pela porta, sem se importar com os próximos passos dele.
Após os dois testes anteriores, Qi Mu já sabia o quanto era poderoso. Aqueles pequenos peixes não eram ameaça; mesmo que a Guarda viesse, ele escaparia sem esforço.
Quando Qi Mu e os outros saíram da Inspetoria, Liu Tai finalmente conseguiu contato com a Guarda fora da cidade.
Do outro lado, alguém perguntou:
—Chefe Liu, qual o problema?
—Preciso de reforço da Guarda!
—O quê? Aconteceu algo na cidade? Iremos o mais rápido possível! — respondeu, alarmado, o homem do outro lado.
—Não, é que alguém está resistindo à prisão — respondeu Liu Tai, tenso.
—Está brincando, chefe Liu? Prender gente é função da Inspetoria. Precisa mesmo da nossa ajuda? Deve ser porque não dormiu bem hoje, não é? — respondeu o outro, rindo.
—Nossos homens não conseguem vencê-los — suspirou Liu Tai, a voz impregnada de amargura e impotência.
A Inspetoria, incapaz de deter dois indivíduos, permitindo ainda que saíssem livremente... Se isso se espalhasse, não seria um tapa na cara de Liu Tai?
O guarda captou a amargura na voz dele e perguntou:
—Quer que eu envie algumas dezenas de homens para capturá-los? Quantos são?
—Dois.
—Como? Dois? — O guarda ficou sem palavras, olhando para o comunicador para confirmar: Chefe Liu da Cidade do Meio-Dia, estava certo.
—Está de brincadeira? Mesmo sendo meu superior, não precisava perder nosso tempo com isso — respondeu, um tanto irritado.
Dois apenas, contra mais de cem homens da Inspetoria, e ainda assim pediam ajuda externa? Era difícil de acreditar!
Mesmo que atacassem em massa, não seria suficiente?
Liu Tai conteve a raiva, forçando-se a falar com um fio de indignação:
—Não estou brincando, são dois! Agora mesmo! Preciso de reforço da Guarda!
A última frase saiu quase como um grito desesperado. Aqueles dois haviam realmente desonrado a Inspetoria. Se o Senhor do Domínio soubesse, Liu Tai certamente perderia o cargo...
O guarda do outro lado ainda desconfiava, mas por precaução, ordenou que uma equipe dos Guardiões Celestiais fosse para a Cidade do Meio-Dia ajudar Liu Tai.
Um esquadrão dos Guardiões Celestiais tinha cem homens, todos com habilidades muito acima do comum; capturar dois indivíduos seria fácil.
No céu, uma faixa de nuvem tingida pelo pôr do sol se espalhava entre a neblina, como o ciclo do dia e da noite. Só quem vive certas experiências compreende o arrependimento...
Na Cidade do Verão, a atmosfera na sede do Senhor do Domínio era tensa. Ouyang Kangsheng estava sentado à cabeceira. Olhou para o homem diante de si e disse calmamente:
—Inspetor He, há quanto tempo. Posso saber o motivo de sua visita ao nosso Domínio do Verão?
He Zhiliang respondeu com um sorriso que não chegava aos olhos:
—Senhor Ouyang, não finja que não sabe. Os acontecimentos na Cidade do Norte já são de domínio público!
O sorriso de Ouyang Kangsheng se desfez. Ele suspirou:
—A Casa dos Deuses enviou você para investigar?
—Acho que não preciso explicar mais. Preciso de todas as informações sobre a Cidade do Norte, só assim poderemos descobrir o verdadeiro motivo do desaparecimento dela, não acha? — disse He Zhiliang, olhando para Ouyang Kangsheng com expressão neutra.
—Naturalmente, Inspetor He, prestarei toda a colaboração necessária.
—Assim é melhor — respondeu He Zhiliang, assentindo. Sentou-se numa cadeira ao lado e ordenou: —Traga-me os dados da Cidade do Norte. Depois, preciso ir até lá para uma inspeção.
O tom de He Zhiliang era de quem dava ordens. Ouyang Kangsheng, ao ver aquela postura arrogante, conteve a raiva e respondeu:
—Está certo. Também espero que possa nos ajudar a descobrir o que aconteceu de fato na Cidade do Norte!
—Naturalmente, naturalmente.
Ambos trocaram um olhar cheio de segundas intenções, como duas raposas astutas estudando quem seria mais hábil.
Nesse momento, num salão oculto nas profundezas de um penhasco encoberto por nuvens, Skai ajoelhava-se diante de uma figura:
—Príncipe Sagrado, a operação em Cidade do Norte foi um sucesso. Nosso grande plano da Santa Igreja está mais próximo!
No alto do estrado, um jovem de pele alva e doentia olhou para Skai com interesse e riu friamente:
—Comandante Skai, você é mesmo um dos pilares da nossa Santa Igreja. Sabia que cumpriria a missão.
Skai respondeu humildemente:
—O Príncipe Sagrado é generoso demais. Tudo pelo bem da Santa Igreja!
—Da sua lealdade, não tenho dúvidas. Em breve, abriremos uma filial da Santa Igreja na Cidade do Verão. Você irá liderá-la — disse o jovem com um sorriso malévolo.
—Obrigado, Príncipe Sagrado! — Skai, visivelmente animado, agradeceu.
Ser chefe de uma filial de domínio era muito mais importante que ser comandante. Na hierarquia da Santa Igreja, vinha o Rei Sagrado, seguido do Príncipe Sagrado, Vice-Líder, Chefe Geral das filiais, chefes de filiais e, por fim, os comandantes.
A disciplina da Santa Igreja era rigorosa: todos deviam obedecer cegamente à autoridade superior, fosse a decisão certa ou errada. Qualquer desvio resultava em execução sumária, como se descartasse lixo.
A maioria dos membros da Santa Igreja era de colaboradores externos, representando cerca de noventa por cento da organização, pois a igreja ainda agia nas sombras, evitando qualquer exposição que pudesse atrapalhar seus planos.
Os dez por cento restantes eram membros reais, todos forçados a ingerir um veneno do Rei Sagrado chamado "Pó de Mil Quilômetros". O antídoto era administrado apenas uma vez por ano, no solstício de verão; qualquer atraso causava uma dor indescritível, como se os órgãos se decompusessem vivos, levando à morte certa.
Por isso, ninguém que trai a Santa Igreja sobrevive mais de um ano: o veneno garante que sejam irremediavelmente eliminados.
O jovem doente, sentado no trono, então notou o homem ao lado de Skai e perguntou:
—E esse ao seu lado, Comandante Skai?
—Ah, é o responsável pela peça-chave do nosso plano em Cidade do Norte, foi essencial para o sucesso — apresentou Skai, empurrando Han Mo à frente do jovem.
Han Mo engoliu em seco, trêmulo diante daquele homem de palidez antinatural.
—Príncipe Sagrado, sou Han Mo, da família Han de Cidade do Norte.
—Han Mo, belo nome — respondeu o jovem, fitando-o como um predador encara a presa. Abriu lentamente os lábios e falou suavemente:
—Venha para o lado do Príncipe Sagrado, queira ser meu animal de estimação?