Capítulo Cinquenta e Três – Irmão Gan

Caçador de Demônios do Abismo Lua Etérea 3403 palavras 2026-02-09 17:18:36

Qi Mu e Yan Yan balançaram a cabeça, confusos, olhando para o homem e aguardando suas próximas palavras.

“Hoje é o dia em que Irmão Gan vai nos levar para fora. Vocês dois chegaram na hora certa, deviam estar felizes!”, disse o homem, deixando os dois ainda mais intrigados. Qi Mu, ansioso, agarrou o homem pelo braço e perguntou apressado: “Irmão, o que você quer dizer com ‘sair’? E quem é esse tal de Irmão Gan?”

O homem respondeu com certa impaciência: “Sair, claro, é deixar este lugar miserável! Quanto ao Irmão Gan, não precisam saber quem ele é, basta saber que ele pode nos tirar daqui, fora dos domínios da Prisão Territorial!”

No rosto do homem transparecia uma alegria excitada, como se estivesse prestes a realizar um desejo antigo, o que o levou a responder pacientemente às perguntas de Qi Mu.

Através das explicações, Qi Mu e Yan Yan ficaram sabendo que esse Irmão Gan havia sido preso ali há três meses. Desde sua chegada, proclamava em voz alta que podia liderar todos para fora da Prisão Territorial. No início, ninguém acreditou em suas bravatas. O estranho, porém, é que Irmão Gan conseguiu reunir um grupo de pessoas e prometeu que todos testemunhariam sua fuga.

Ele tirou um disco redondo, marcado com doze números e um ponteiro, murmurou palavras incompreensíveis, e, diante de todos, surgiu ao seu lado um vórtice negro. Ele pisou dentro do vórtice e desapareceu instantaneamente dos domínios da Prisão Territorial, para espanto geral. Cerca de meio dia depois, ele reapareceu! Os que presenciaram seu desaparecimento ficaram atônitos e espalharam a notícia. Com o passar do tempo, cada vez mais pessoas passaram a acreditar que Irmão Gan poderia guiá-los para fora da Prisão Territorial. E o dia da fuga era hoje!

Agora, todos se reuniam, aguardando em silêncio para ver Irmão Gan manifestar seu poder miraculoso e libertá-los daquele lugar.

Compreendida a situação, Qi Mu e Yan Yan afastaram-se um pouco, observando a multidão frenética, tomados de hesitação.

Qi Mu disse a Yan Yan: “Maninha, não acha que esse aparecimento do tal Irmão Gan foi conveniente demais?”

“Xiao Mu, você percebeu algo?” Yan Yan olhou nos olhos do irmão, buscando resposta.

“Se esse Irmão Gan realmente pode sair da Prisão Territorial, por que voltou? Apenas para provar que pode tirar os outros também? E por que faria isso? Que benefício ele teria para arriscar tanto?”

Vale lembrar que desde a criação da Prisão Territorial, nunca houve um caso sequer de fuga de dentro para fora; todos os que saíram, como no caso de Chen Guohua, foram libertados pelo Departamento de Inspeção e depois resgatados por terceiros.

No entanto, agora alguém havia aberto uma saída, o que significava que a Prisão Territorial, herança dos Deuses, já não funcionava como antes. Se milhares de pessoas estavam presas em cada cidade, e há tantas cidades no território humano, quantos não estariam lá dentro? Se todos fossem libertados, a calamidade seria inevitável!

Com expressão grave, Qi Mu fitou Yan Yan. Entreolharam-se, e decidiram em silêncio: era preciso capturar Irmão Gan e tomar dele o objeto capaz de abrir a Prisão Territorial, senão as consequências seriam imprevisíveis!

Não sabiam por que, mas um ardor patriótico inflou-lhes o peito. Eram Observadores! Eram filhos do Grande Verão! Não podiam assistir inertes enquanto aqueles criminosos fugiam para ameaçar a vida dos demais. Precisavam agir, mesmo diante da adversidade!

Avançando para o meio da multidão, Qi Mu e Yan Yan gritaram em alta voz: “Não acreditem nesse Irmão Gan! Aqui é a Prisão Territorial, como ele poderia tirar vocês daqui?”

Os gritos dos dois causaram agitação. Logo, alguém questionou: “Quem são vocês para dizer isso? Que direito têm de acusar Irmão Gan?”

“Pois é! Irmão Gan só quer nos tirar daqui, você veio só para atrapalhar?”

Outros começaram a responder, e, pouco a pouco, o apoio a Irmão Gan virou hostilidade contra Qi Mu e Yan Yan. “Amarrem eles! Amarrem!”—o coro crescia, até que milhares gritavam juntos, exigindo que fossem imobilizados.

O clamor era ensurdecedor, como se pudesse derrubar todos os muros da Prisão Territorial. Em meio ao tumulto, um grupo avançou sobre Qi Mu e Yan Yan, dominando-os facilmente, pois Qi Mu ainda não estava recuperado, sem nenhum resquício de energia mágica no corpo.

Enquanto eram amarrados, gritavam: “Não se esqueçam, aqui é o território do Grande Verão! Se fugirem, serão capturados e punidos ainda mais severamente!”

“Ridículo! Não deem ouvidos, lá fora é liberdade, podemos ir para onde quisermos!”, zombaram os demais, rindo alto.

Vendo que suas palavras não surtiam efeito, Qi Mu balançou a cabeça e murmurou ao ouvido de Yan Yan: “Maninha, estão todos insanos. A ideia de fugir deixou todos em êxtase, incapazes de distinguir a verdade!”

“É, vi muitos com os olhos injetados de sangue, como se algo os tivesse transtornado. Esse Irmão Gan apareceu na pior hora possível!”, Yan Yan esmurrou o chão, extravasando sua raiva.

As sucessivas frustrações os deixaram desanimados, mas logo se recompuseram. Qi Mu sussurrou: “Maninha, e se fingirmos cooperar, fugimos com eles e, do lado de fora, capturamos Irmão Gan?”

“Não vejo outra alternativa.”, respondeu Yan Yan, assentindo resignada.

Olharam desolados para a multidão em ebulição. Aqueles homens estavam há tempo demais enclausurados; o desejo de liberdade era avassalador. Nada mais os deteria, e quem tentasse seria, certamente, despedaçado pela turba enfurecida!

No centro do tumulto, Irmão Gan ergueu o disco, recitando palavras estranhas. O vórtice negro à sua frente crescia e crescia. Todos se afastaram, olhando para a cena com olhos vidrados.

A cena era tão impactante que logo chamou a atenção de Qi Mu e Yan Yan. Fitando o vórtice negro, uma única palavra lhes veio à mente: semelhança!

Trocaram olhares; nos olhos, brilhou um lampejo de entendimento. Aquele vórtice negro lhes recordava apenas uma coisa: o gigantesco buraco negro que apareceu sobre a Cidade do Mar do Norte antes de seu desaparecimento.

A diferença era apenas o tamanho, mas a sensação era idêntica!

Qi Mu murmurou: “Maninha, será que ele não tem ligação com quem libertou aqueles Devoradores?”

“Acho bem provável!”, Yan Yan respondeu, confirmando com um aceno vigoroso.

Parecia que, dessa vez, poderiam capturar todos de uma só vez: tomar o artefato que abria a Prisão Territorial e, de quebra, investigar a verdade sobre o desaparecimento da Cidade do Mar do Norte!

Um sorriso tênue surgiu no rosto dos dois: desta vez, Irmão Gan seria capturado, sem margem para imprevistos!

Finalmente, Irmão Gan cessou o murmúrio. Subitamente, seus olhos brilharam e um sorriso triunfal iluminou-lhe o rosto. Olhando para o céu, exclamou em alto e bom som: “Conseguimos!”

Ao redor, as pessoas não acreditavam: “Irmão Gan, quer dizer que já podemos sair?”

“Sim, todos preparados, em breve sairemos!”, ele respondeu, erguendo a voz para todos ouvirem.

A multidão entrou em alvoroço. Gritavam até ficarem roucos, extravasando a dor acumulada. Finalmente, aquele dia havia chegado: poderiam fugir da Prisão Territorial! Não seriam mais confinados àquela terra de areia e desolação; o anseio por liberdade pulsava em cada rosto radiante. Ninguém percebeu, porém, o leve sorriso gélido que se desenhou nos lábios de Irmão Gan.

O tempo passava lentamente. Liu Tai, no escritório, andava de um lado para o outro, inquieto. Ao acordar, já era noite, e ainda não recebera notícias de Zhang Ling. Ansioso, fitava o relógio pendurado na parede.

Quando o ponteiro marcou nove horas em ponto, a porta se abriu. Quem entrou foi Huo Lin, sorrindo enigmaticamente para Liu Tai: “Diretor Liu, chegou a hora.”

Liu Tai, um pouco sem graça, respondeu: “Inspetor Huo, você é mesmo pontual. Acabou de dar nove horas e já está aqui.” Levantou-se da cadeira e foi ao encontro de Huo Lin.

“Por aqui, Diretor Liu?”, sugeriu Huo Lin com um sorriso levemente sarcástico, nos olhos um brilho de expectativa.

Ele estava curioso há tempos sobre Qi Mu. Naquela manhã, enquanto tomava chá em sua residência, recebera um relatório detalhado sobre os acontecimentos no portão da cidade. Isso despertara seu interesse. Agora, finalmente, teria a chance de ver Qi Mu pessoalmente. Huo Lin estava certo de que, se Liu Tai mobilizara tantos esforços para capturá-lo, era porque o rapaz tinha algo de especial. Se o levasse ao Enviado Divino, talvez descobrissem algum segredo, e só de pensar nisso, Huo Lin se sentia satisfeito.

Liu Tai assentiu, pegou uma caixa do armário e a segurou com extremo cuidado, temendo que caísse.

Dentro da caixa estava o artefato que controlava a Prisão Territorial, permitindo ao Departamento de Inspeção retirar qualquer pessoa de lá e sustentando toda a estrutura daquele lugar. Em outras palavras, aquele objeto era o próprio coração da Prisão Territorial!

Liu Tai conduziu Huo Lin até a entrada da Prisão Territorial, o coração batendo forte na garganta. Internamente, praguejava: “Zhang Ling, seu inútil, por que ainda não deu sinal de vida? Se estragar tudo, eu mesmo acabo com ele!”

Apesar da raiva, Liu Tai abriu a caixa e retirou o objeto controlador da Prisão Territorial: uma ampulheta.

Sim, era apenas uma pequena ampulheta. Quando Liu Tai a viu pela primeira vez, ficou incrédulo, mas logo aceitou a verdade: o destino de toda a Prisão Territorial dependia daquele simples instrumento!