Capítulo Sessenta e Três: A Verdadeira Intenção
Qi Mu observou aquela cena trágica e suspirou levemente, passando então a procurar cuidadosamente por qualquer vestígio que pudesse ter restado. Depois de uma busca minuciosa, encontrou apenas um fio de cabelo no corpo da vítima, e isso ainda foi em um local tão discreto que seria praticamente impossível notar. Ao ver aquele fio de cabelo, Qi Mu refletiu consigo mesmo: será que não foi o Pesadelo que matou essa pessoa? Ou teria sido uma ação humana? Mas este mundo não era justamente tecido pelo Pesadelo? Tudo deveria estar sob seu controle. Ou será que tudo não passa de uma memória retirada de sua própria mente, com o Pesadelo usando seus poderes para recriar pessoas e lugares, fazendo de todos apenas meros espectadores de uma cena já escrita?
Esse pensamento fez um frio percorrer a espinha de Qi Mu. Se todos eram apenas espectadores, então qual seria o objetivo do Pesadelo ao criar esse incidente? Qi Mu não encontrou resposta imediata. Entregou o fio de cabelo a Mu Hongzhi e disse baixinho: “O restante, deixo por sua conta, Diretor Mu.”
“Certo.” Mu Hongzhi assentiu e logo ordenou que o corpo fosse levado para examinar a causa da morte, além de pedir que investigassem as redondezas em busca de pistas. Qi Mu, cabisbaixo, continuava pensando. Se o incidente foi causado por alguém, onde estaria o Pesadelo? Já havia revisado todos os conhecidos e não encontrara nenhuma falha.
Enquanto Qi Mu se perdia em pensamentos, Mu Hongzhi aproximou-se e deu-lhe um tapinha no ombro: “Que tal vocês irem até a minha Seção de Inspeção? Ainda preciso agradecer de verdade pela ajuda de vocês da última vez!”
“Não é necessário, Diretor Mu. Só estávamos por perto e ajudamos porque era nosso dever, não precisa agradecer.” Yan Yan recusou prontamente. Afinal, tinham saído juntos para se divertir e, antes que aproveitassem, Mu Hongzhi já queria levá-los à Seção de Inspeção. Yan Yan não queria desperdiçar esse raro momento de lazer, então recusou de forma educada.
“Não diga isso, senhorita. Se não fossem vocês, eu teria sido punido pelos superiores. Por favor, aceitem meu convite!”
Os demais se entreolharam, sem saber o que dizer. Então Yan Yan ergueu o rosto e olhou para Qi Mu: “O que você acha, Xiao Mu?”
Com os olhos, ela indicava que ele deveria decidir. Qi Mu ponderou por um momento e, no fim, acabou concordando. Ele também queria saber quem era o responsável por aquele caso. Se encontrasse o culpado, talvez pudesse achar alguma pista sobre o Pesadelo!
Enquanto Qi Mu travava uma luta de vida ou morte contra o Pesadelo em seu sonho, gritos desesperados ecoavam pelo grande salão. “Aaaah!” “Irmão Xiong, me salve!” Os choros e lamentos não cessavam. Exceto por Yan Yan e Qi Mu, todos os outros estavam sendo atacados pelos Pesadelos. Eram apenas pessoas comuns, sem saber sequer o que era uma criatura dessas.
Quando os tentáculos emergiram do ventre dos Pesadelos e atacaram, bastava um toque no rosto para que, como ventosas, grudassem e sugassem toda a energia vital. Num piscar de olhos, a pessoa era reduzida a uma carcaça seca, caindo ao chão sem vida. Quem estava por perto, trêmulo, tentou se aproximar para ver, mas a cena era tão aterradora que acabavam desabando, tomados pelo pânico.
Em questão de instantes, um grupo de centenas de pessoas foi derrotado e dispersado por cerca de dezenas de Pesadelos. Em pouco tempo, restavam menos de cem, tamanha era a devastação!
Foi então que Xiong Batian finalmente reagiu e bradou: “Juntem-se todos! Fiquem juntos! Não deixem que esses monstros nos ataquem separados!”
Ele gritou para todos, e como a maioria conhecia Xiong Ge e lhe temia, muitos correram imediatamente para perto dele. Reunidos, observavam atentos os Pesadelos que se aproximavam de todos os lados, suor escorrendo em gotas grossas por seus rostos.
“Irmão Xiong, o que vamos fazer? Esses monstros já quase mataram todos!” alguém ao lado, tremendo de medo, perguntou.
Xiong Batian, escondido em um canto formado pelo grupo, enxugou o suor da testa. As cenas do ataque dos monstros voltavam repetidas vezes à sua mente, perturbando-o profundamente. Ninguém normal já presenciara algo assim! Mesmo ele, acostumado a situações extremas, estava apavorado, mas sabia que não podia demonstrar fraqueza. Agora, era a âncora dos sobreviventes. Se caísse, ninguém ali teria chance.
“Irmãos, vamos nos concentrar em um só deles! Ainda somos muitos, eles não são tantos assim!” tentou encorajar os demais, mas a resposta foi fria. O ataque anterior acabara com a confiança de todos. Vendo isso, Xiong Batian rugiu: “Quem são vocês? Não eram destemidos? Mostrem sua coragem, parem de agir como covardes! Se continuarem assim, todos vamos morrer!”
“Irmão Xiong, você viu, não temos como enfrentar esses monstros. Melhor cada um tentar fugir por conta própria.”
“O chefe disse que só precisamos sobreviver dez minutos. Se cada um correr para um lado, alguém deve conseguir aguentar até o fim!” Assim que um sugeriu, muitos concordaram. Parecia muito melhor do que enfrentar os monstros — lutar seria suicídio! Melhor se dispersar e tentar a sorte.
“Bando de covardes!” Xiong Batian rosnou furioso. “Se alguém tentar sair, eu mesmo mando para o outro mundo agora!” gritou, ameaçador.
Dessa vez, funcionou. Xiong Batian era respeitado entre eles, e, assustados pelos Pesadelos, ninguém ousava desafiá-lo. Todos obedeceram. Mas o homem que havia falado antes não se conformou: “Em uma hora dessas, ainda quer mandar em nós? Inútil!”
“Façam o que quiserem, eu vou embora!” E saiu andando. Xiong Batian lançou-lhe um olhar gélido. Ele sempre cumpria o que dizia; se alguém desafiasse sua autoridade, serviria de exemplo. Era hora de mostrar quem mandava.
Pensando assim, puxou a longa faca da cintura e a lançou com força. O som cortante da lâmina rasgou o ar. O homem se virou, mas já era tarde: a lâmina cravou-se em seu pescoço e, num golpe limpo, atravessou-o, fincando-se no chão. Sem sinal de sangue, a lâmina ficou ali, reta. Os olhos do homem quase saltaram das órbitas; jamais imaginara que morreria pela mão de Xiong Batian, não dos Pesadelos.
Após breve silêncio, alguém gritou: “Irmão Xiong é poderoso!” E logo outros, bajuladores, repetiram: “Irmão Xiong é poderoso!” Aquela gente era como capim ao vento, sempre se inclinando para o lado mais forte. Xiong Batian sorriu com desprezo, então bradou: “Façam o que eu mando e garanto que todos saem vivos. Caso contrário...” A ameaça final era clara. Todos assentiram, temendo desobedecer.
Na parte de trás do grande salão, uma mulher estava sentada numa cadeira. Pegou um pêssego da mesa e deu uma mordida, deixando o suco escorrer em sua boca. Satisfeita, ela observava pelo monitor cada movimento dos presentes.
Nesse momento, Gan Ge apareceu atrás dela e perguntou, muito respeitoso: “Chefa, por que tanto trabalho? Não seria mais fácil matá-los de uma vez?”
“Você não entende. Assim é muito mais divertido. Ver esses ratinhos sendo caçados aos poucos é um verdadeiro prazer.” Ela sorriu, balançando a cabeça.
Adorava aquela sensação de observar a caçada, era ainda mais excitante do que caçar pessoalmente!
Gan Ge sorriu amargamente: “Mas por que não trouxe todos? Há milhares em Zhenyu Guan, mas poucos vieram comigo.”
“O Pesadelo não ganha nada ao sugar o sangue e as almas da maioria. Pode, inclusive, ser prejudicial. O importante é a qualidade, não a quantidade!”
Gan Ge curvou-se: “A senhora é sábia!”
O plano deles era encontrar pessoas dominadas pela cobiça, para que morressem diante dos Pesadelos, assim fortalecendo essas criaturas e permitindo à Igreja Sagrada avançar em seus objetivos.
Todos que seguiram Gan Ge até ali eram extremamente gananciosos. E esse desejo era a energia preferida dos Pesadelos, capaz de torná-los ainda mais poderosos! A promessa de ingressar na Igreja Sagrada era apenas uma isca, e riqueza e glória, meras palavras vazias.
Foi a própria cobiça interior que os levou àquele destino!
De repente, Gan Ge lembrou-se de algo e perguntou: “Chefa, e se alguém realmente sobreviver aos dez minutos?”
A mulher bufou com desprezo: “Que pergunta tola! Quem sobreviver, entra para a Igreja Sagrada. Fora os que dominam magia, não há nem cinco assim. Esses, claro, serão bem acolhidos!”
Um brilho surgiu em seu olhar. Se alguém conseguisse, ela o traria para perto, para torná-lo seu braço direito: talento raro era o que menos havia na Igreja Sagrada. Mas logo balançou a cabeça, desdenhosa: “Mas, sinceramente, do jeito que esses inúteis são, nenhum vai durar dez minutos.”
O suor escorreu pela testa de Gan Ge: “Sim, senhora, tem toda razão!”
“Pode ir.” Ela acenou com a mão e voltou a observar o monitor.
Murmurou baixinho: “Vamos, mostrem algo interessante. Espero que esses dez minutos não sejam um desperdício.”
Ao lado, o cronômetro avançava lentamente. Apenas sete minutos restavam...