Capítulo Nove: O Inspetor
— Eu falo! — O grito dilacerante escapou dos lábios do homem; já não restava nele o ar insolente de antes. Gotas de suor brotavam em sua testa, metade do rosto estava irreconhecível, uma massa sangrenta de carne e ossos.
Qimú observava tudo em silêncio, constrangido. A impressão que Yan Yan lhe transmitia era a de uma irmã mais velha, gentil e próxima, mas agora... A realidade era bem diferente.
Aqueles membros da organização, por fora inofensivos, na verdade eram cruéis e impiedosos.
— Você responde ao que eu perguntar, entendeu? — Yan Yan fixou o homem com um olhar gelado.
— Sim! Sim! — Ele respondeu apressado, não queria de forma alguma perder outro pedaço de pele; a dor era insuportável.
— Por que você roubou o corpo do pai de Qimú? — Yan Yan apoiou um pé na cadeira, o olhar cortante.
— Eu... eu só estava cumprindo um serviço pago, alguém ofereceu muito dinheiro para eu roubar um cadáver na Rua do Silêncio — respondeu o homem, trêmulo.
— Mentira! — Yan Yan vociferou, encarando-o com hostilidade. — Se era só para roubar o cadáver, por que ainda estava lá quando voltamos hoje à Rua do Silêncio? Não me venha dizer que pegou o corpo errado!
Sua voz foi se tornando fria, evidentemente o homem não era sincero, e ela estava pronta para usar mais métodos até que ele colaborasse.
— Eu... eu... só deixei algo lá — a voz dele foi ficando fraca, sem convicção.
— Você está falando disso, não é? — Qimú retirou do bolso a luva encontrada no armário de cadáveres, examinando-a atentamente.
Yan Yan finalmente enxergou a luva de perto. Pegou-a das mãos de Qimú, surpresa:
— Essa é uma luva exclusiva do Inspetor. Onde você conseguiu isso?
Inspetor: autoridade máxima de uma cidade, o prefeito precisava reportar-lhe mensalmente todos os assuntos. Embora ambos fossem do mesmo nível hierárquico, na prática o prefeito devia colaborar com todas as ações do Inspetor.
O Inspetor era enviado diretamente pelo Santuário dos Deuses, governantes supremos do Domínio de Daxia, e nem mesmo o líder máximo do domínio podia interferir em suas atribuições; eram comandados por emissários divinos do próprio Santuário.
O Santuário dos Deuses era o centro da fé humana, liderado pelos mais brilhantes entre os homens. O mundo era composto por vinte e quatro domínios, Daxia sendo apenas um deles. Os membros permanentes do Santuário eram eleitos diretamente pelos vinte e quatro domínios, e os três vice-comandantes eram escolhidos por mérito e virtude. Quanto ao líder supremo do Santuário — o Deus Principal —, até hoje ninguém conhecia seu rosto; apenas se sabia que existia desde o início da humanidade, até os dias atuais.
Dizia-se que ele era imortal, fundador da civilização humana, que ensinou o homem a dominar o fogo nos primórdios selvagens, e que até a era moderna, quase toda tecnologia vinha do Santuário dos Deuses.
O cargo de Inspetor era de altíssima dignidade; raramente alguém comum podia vê-lo, muito menos ter acesso a suas luvas. Yan Yan, antes de vir para a organização dos Observadores, trabalhara no Departamento de Inspeção da Cidade do Mar do Norte e sabia exatamente a origem daquela luva.
O homem ficou visivelmente nervoso ao vê-la, gaguejando:
— Eu... eu não sei, não procurei por isso...
Yan Yan já percebera a mentira, franzindo as sobrancelhas, sorrindo friamente:
— Hmm, você é mesmo um osso duro de roer. Qimú, vire-se!
Mal terminou a frase, o homem gritou desesperado:
— Não, eu falo! Eu falo! — Seu grito cortava o ar, evidenciando seu temor de ser novamente castigado.
— Meu nome é Liu Sanhai, sou da Cidade do Mar do Norte, minha mãe está gravemente doente em casa, não tenho como pagar o tratamento... — Ao dizer isso, sua voz já soava quase chorosa.
— Um dia, um homem mascarado de preto me procurou e pediu que eu roubasse um cadáver. Eu obedeci. Inclusive hoje, ele mandou que eu voltasse para matar vocês. Eu não tive escolha! — Ele gritou, as lágrimas já escorrendo pelo rosto avermelhado, as veias saltando na testa.
— E a luva? De onde veio? — Qimú perguntou, intrigado.
O homem só falara sobre quem o mandara roubar o cadáver e tentar matá-los; mas e a luva? Era exclusiva do Inspetor, cheia de mistérios que Qimú não conseguia compreender.
— Era daquele homem. Ele se descuidou e deixou comigo. Eu achei prática e acabei usando... — Ele murmurou, com um ar de injustiçado.
Qimú e Yan Yan o encararam com desconfiança, um olhar que Liu Sanhai jamais esqueceria.
— Muito bem, por ora é só. Fique aí e não tente nada, senão... — Yan Yan falou com firmeza, enfatizando as últimas palavras, como um aviso claro.
— Sim, sim, prometo que não vou fugir — o homem concordou com medo, apenas querendo que aqueles dois fossem embora logo.
Yan Yan saiu, pegou a luva e dirigiu-se ao escritório de Ye Zichen, com Qimú atrás dela.
No escritório, Ye Zichen reclinava-se na cadeira, levantando a xícara e sorvendo um pouco de chá, sorrindo satisfeito.
De repente, um estrondo: a porta foi empurrada com força.
Yan Yan e Qimú entraram. A surpresa fez Ye Zichen se assustar, o chá quente pingando sobre a perna.
— Ai... — Ele suportou a dor, rangendo os dentes. — O que querem? Da próxima vez, batam antes de entrar.
Yan Yan mostrou um ar enigmático:
— Adivinha.
— Chega, irmã Yan, deixe que eu falo — Qimú não estava para brincadeiras; só queria contar a Ye Zichen sobre o paradeiro do corpo de seu pai, provar que ele não era um devorador.
— Ah, o que descobriram? — Ye Zichen perguntou.
Qimú então relatou em detalhes o ataque na Rua do Silêncio e o depoimento de Liu Sanhai. Ye Zichen ouviu tudo, franzindo o cenho, o olhar indecifrável.
— Hmm... — Ele suspirou suavemente.
— Vocês sabem, não posso resolver isso. O Inspetor é enviado pelo Santuário dos Deuses. Em certo sentido, nem o líder de Daxia pode ordenar que ele faça algo; nós, então, somos apenas uma organização subordinada — Ye Zichen abriu as mãos, resignado, deixando claro que não havia nada que pudesse fazer.
— Mas então, meu pai vai ficar impune? — Qimú protestou, inconformado; jovem e destemido, não sabia nada sobre o Santuário dos Deuses, muito menos sobre o Inspetor.
— Qimú, entenda o contexto! — Ye Zichen falou, irritado. Não queria se meter em problemas; embora Qimú o visse como o chefe supremo dos Observadores, o Santuário dos Deuses era outra história, com precedentes perigosos.
— Ye Zichen! — Qimú gritou.
— Você não quer saber por que o Inspetor levou o cadáver do meu pai? Que relação ele tinha com os devoradores? Qual era o objetivo por trás do atentado? Não quer saber nada disso? — Qimú vociferou, indignado.