Capítulo Um: O Primeiro Encontro com o Devorador
Naquele momento, Quim estava cortando os vegetais sobre a tábua com força, enquanto a panela ao lado borbulhava intensamente, quase transbordando. Apressado, jogou as folhas de verdura na água, colocou a tampa e, satisfeito, caminhou para a sala de estar.
— Pai, venha comer! — chamou ele em direção ao quarto.
Sentou-se na cadeira e, após alguns instantes sem obter resposta, levantou-se intrigado e foi ao quarto. Empurrou a porta.
O pai, que deveria estar deitado na cama, já não estava lá. Quim chamou:
— Pai, onde você está?
A voz ecoou pelo quarto, mas ninguém respondeu.
— Ué, onde será que ele foi? — murmurou Quim, coçando a nuca, completamente perdido. De repente, ouviu ruídos estranhos vindos do guarda-roupa.
Parecia o som de alguém mastigando.
Aproximou-se e abriu a porta do guarda-roupa. Uma cena sangrenta se descortinou diante de seus olhos: uma criatura desconhecida devorava o braço de seu pai, espalhando sangue por toda parte. Os olhos profundamente azuis da criatura fixaram-se em Quim, sem que ela parasse de mastigar.
— Aaah! — Quim gritou, tomado de pavor, e correu para fora.
Não sabia o que era aquela coisa, mas sabia que, se não fugisse, teria o mesmo destino que seu pai: servir de alimento ao monstro.
Reuniu todas as suas forças e lançou-se porta afora. A criatura também reagiu, largando o braço e correndo de quatro patas em sua direção com incrível velocidade, atravessando o quarto em um piscar de olhos e postando-se diante dele.
Quim olhou ao redor, desesperado. Sabia que não havia escapatória!
O caminho estava bloqueado; só lhe restava lutar. Apostar tudo em uma última tentativa de sobreviver!
Agarrou o vaso sobre a mesa e, assumindo uma postura defensiva, gritou para a criatura:
— Venha! Não tenho medo de você!
A criatura o olhou, curiosa. Diante dela, aquele humano estava claramente aterrorizado, mas ainda assim fingia coragem. Isso despertou seu interesse em brincar.
Com apenas um terço de sua força, a criatura desferiu um golpe com a garra contra o vaso que Quim segurava. Um estrondo ressoou.
O vaso se quebrou nas mãos de Quim, seus cacos caindo ao chão.
Ele recuou dois passos, tremendo de medo, mas ainda reuniu coragem para desferir um soco no monstro. Porém, o impacto foi insignificante.
A criatura não sentiu dor alguma; deslizou suavemente a garra pelo rosto de Quim, deixando um corte longo e sangrento.
Ao ver o desdém do monstro, o pânico de Quim só aumentou.
Não podia fugir, tampouco vencer. Estava encurralado, sem saída!
Quando já se via condenado a virar alimento daquela abominação, uma voz súbita soou em seus ouvidos:
— Acerte um soco três polegadas abaixo da cintura dele e depois golpeie com força a parte de trás da cabeça! Depressa! Faça como eu digo!
A voz era urgente, porém carregada de autoridade.
Quim não tinha alternativa. Seguiu a orientação em sua mente e desferiu um soco abaixo da cintura do monstro. Imediatamente, a criatura uivou de dor.
O coração de Quim saltou de alegria — funcionou! Rapidamente, moveu-se lateralmente, posicionou-se ao lado do monstro e socou sua nuca.
Como um possesso, bateu com toda a força, repetidas vezes, até que seus punhos ficaram em carne viva. Mas não sentia dor.
Ofegante, contemplou o monstro desmaiado no chão, um sorriso de alívio estampando seu rosto.
— O que está esperando? Corra! Logo ele vai acordar! — a voz ressoou novamente em sua mente.
Sem hesitar, Quim obedeceu e saiu correndo pela porta.
Não sabia que voz era aquela, mas sabia que só estava vivo graças a ela.
Arrastando-se, desceu as escadas cambaleante, quando, de repente, uma sombra caiu diante dele do nada.
Era a criatura — ela!
Quem diria que o monstro se recuperaria tão depressa? Agora, bloqueando seu caminho, Quim recuou, atônito, e rosnou baixinho:
— E agora, o que eu faço?
Perguntava à voz em sua mente, depositando nela toda a esperança de sobreviver.
Mas desta vez, o silêncio foi a única resposta.
— Fala logo! — gritou, com o rosto tomado de ansiedade, respirando ofegante, já sem forças.
O susto anterior e o esforço para nocautear o monstro o haviam esgotado. Quando já se dava por vencido, pronto para morrer nas garras da criatura, a voz soou de novo:
— Entregue o controle do corpo para mim, filho.
Aquelas palavras vinham carregadas de um fascínio irresistível, seduzindo Quim a ceder o comando.
Finalmente, Quim perdeu os sentidos por completo.
Quando abriu os olhos novamente, estava em um quarto fechado, vazio, deitado numa cama de hospital. Olhou ao redor, confuso.
Onde estava? E o monstro? Tinha sido salvo? Mil perguntas inundavam sua mente.
Nesse momento, a porta se abriu e entraram alguns médicos de jaleco branco, conversando entre si. Aproximaram-se de Quim:
— Você acordou. Sente algum desconforto?
— Não — respondeu Quim.
— Onde estou? E aquele monstro? — perguntou, ansioso.
Os médicos à sua frente sorriram de repente.
— Meu rapaz, do que está falando? Que monstro?
— Não? Mas... eu me lembro claramente dele diante de mim, matando meu pai. Está tudo muito nítido na minha memória! — Quim balançava a cabeça, incrédulo, sem coragem de encarar a realidade diante de si.
A imagem da criatura estava gravada em sua mente, impossível de apagar. Arrancou o soro do braço e tentou sair da cama, mas não tinha forças e caiu ao chão.
— Você acabou de passar por uma cirurgia com anestesia parcial, o efeito ainda não passou — disse o médico, num tom de leve censura.
— Quero ver meu pai. Onde ele está? — Quim perguntou, aflito.
— Bem... — os três médicos hesitaram, como se guardassem um segredo que não podiam revelar a Quim.
— Parece que as memórias dele estão muito vívidas. Talvez devêssemos realizar uma cirurgia de remoção de memória — cochicharam entre si.
— Não será necessário. Saiam todos — disse, de repente, um homem que entrou pela porta.
— Sim, senhor! — os médicos abaixaram a cabeça com respeito e se retiraram.
O homem aproximou-se. Sua presença impunha um respeito inexplicável, que Quim sentiu imediatamente.
Franzindo o cenho, ele fitou Quim e perguntou:
— Diga-me, garoto, como matou aquela criatura?
— O quê?! — espantou-se Quim. Teria mesmo matado o monstro? Não se lembrava disso; a última coisa que ouvira, antes de desmaiar, fora: “Entregue o controle do seu corpo para mim.” Depois disso, acordara naquele lugar.
O homem percebeu o espanto no rosto de Quim e ficou pensativo por um momento.