Capítulo Sessenta e Um - Sonho e Realidade
Qimu olhava, incrédulo, para a cena diante de si. Cobriu os olhos com a mão, beliscou o braço até deixar uma marca vermelha. A dor era real, e essa sensação lhe dizia que estava, de fato, em casa! Caminhou até a sala de estar e sentou-se sozinho no sofá, contemplando os móveis antigos, a parede descascada num canto — seu pai ainda não havia chamado alguém para consertar —, as luzes sem funcionar por falta de dinheiro para pagar a conta de energia...
“Maldição, isso é real demais”, murmurou Qimu.
Ainda não conseguia compreender: há pouco não estava na Santa Sé, lutando contra um Pesadelo? O que havia acontecido afinal, por que estava de volta em casa? Ou será que tudo antes disso era só um sonho...?
Qimu não ousou continuar pensando. Encolheu-se num canto do sofá, observando o entorno com expressão ansiosa.
Cada detalhe desta cena parecia demasiado verdadeiro, difícil de aceitar. Não fazia sentido ter se teletransportado da Santa Sé para casa num piscar de olhos. Se tudo antes era sonho, por que teria sonhado algo tão intenso?
E aquele sonho era real demais: a cena do assassinato do pai estava vívida em sua memória. E havia Yan Yan, Jiang Tiancheng e os demais, além do que aconteceu depois em Cidade Beihai! Teria tudo isso sido apenas fruto da sua imaginação?
Apertando a cabeça com força, Qimu gritou de dor, incapaz de aceitar essa realidade. Mas, afinal, qual lado era o sonho? Já não sabia distinguir!
Bateram à porta. Qimu virou-se imediatamente, encarando o batente com suor frio na testa. Engoliu em seco, levantou-se e foi até a porta.
Mantenha a calma! Controle-se!
Repetia para si mesmo, mas o leve tremor do corpo traiu seu nervosismo. Abriu a porta: do lado de fora estava um homem curvado, de cabelos completamente brancos, o rosto enrugado, dentes amarelados, mas o semblante lhe era dolorosamente familiar.
Uma lágrima escorreu silenciosa, molhando o pescoço. Qimu abriu os lábios, chamando suavemente:
“Pai...”
Era seu pai ali, trazendo uma sacola de compras, sorrindo largamente:
“Filho, olha só o que eu trouxe pra você.”
Mostrou-lhe o conteúdo, ainda soltando fumaça:
“É pato assado!”
Qimu não conteve um riso, cobrindo os olhos vermelhos com o braço para que não percebessem.
O pai, surpreso, perguntou:
“Filho, o que houve com você?”
“Não é nada, pai... É só que fazia tanto tempo que não comíamos pato assado!”, respondeu, apressando-se a enxugar as lágrimas e sorrindo.
“Então vamos logo, está na hora de comer!”
“Sim!”
Os dois arrumaram a mesa rapidamente. Quando Qimu trouxe uma tigela de arroz da cozinha, ambos devoraram a refeição com avidez.
“Filho, pensei melhor sobre aquela história de estudantes especiais na academia. Se você tem capacidade de entrar, é claro que eu vou te apoiar!” — O pai parou, fitando Qimu com seriedade.
Ao ouvir isso, Qimu lembrou-se: a turma especial era uma novidade daquele ano na Academia de Letras de Beihai, destinada aos melhores alunos, preparados para se tornarem futuros professores da própria academia. Era motivo de orgulho: um professor na família era uma felicidade imensa para os Qimu!
Poucos em Cidade Beihai tinham condições de frequentar a Academia de Letras, o que tornava o nível cultural local baixo. O pai de Qimu sacrificou tudo para garantir-lhe os estudos, e Qimu não decepcionou.
Na prova unificada da cidade, ficou em terceiro lugar!
Qimu olhava atônito para a cena: o pai, vivo e ileso, sentava-se diante dele; não havia morte, nem Pesadelos ou Devoradores, tampouco qualquer contato com Observadores.
Tudo o que havia vivido parecia um sonho, as pessoas que conhecera nunca tinham existido.
A última lembrança de cada um deles começava a se apagar em sua mente.
De repente, os olhos de Qimu brilharam ao conversar com o pai sobre seus planos para o futuro. Os dois falaram animadamente sobre dias melhores: não precisariam mais viver naquele lugar miserável, nem se alegrar tanto apenas por um pato assado, nem mais curvar-se sob o peso da vida...
Cidade Beihai jamais desapareceria, tampouco aconteceria o que estava por vir.
Ao anoitecer, Qimu deitou-se na cama, fitando o teto, suspirou, depois levantou-se e foi até a janela. Olhou para as estrelas espalhadas sob o céu — tudo parecia tão real...
Mas um leve sorriso frio surgiu em seus lábios.
Ele sabia: fora arrastado para algum lugar desconhecido. Tudo o que havia passado não era sonho, nem podia ser inexistente.
O motivo de sua certeza era apenas um: o comportamento incomum do pai.
Desde a morte da mãe, o pai de Qimu raramente sorria, sempre de semblante fechado, jamais era tão afetuoso.
Esse era o detalhe que o alertava! Só percebeu tudo ao abrir a porta e ver o pai; à mesa, tornou-se claro: tudo aquilo era falso.
Por mais perfeita que fosse a casa, nos mínimos detalhes, ninguém poderia reproduzir o coração de uma pessoa. Não poderia alterar a verdadeira personalidade do pai — aí estava a maior falha.
Qimu não desmascarou de imediato porque precisava entender o que estava acontecendo.
Apoiando-se na janela, o olhar perdido, Qimu tentava ordenar na mente tudo o que fizera, onde estava, o que acontecera antes de chegar ali.
Depois de muito pensar, a luz enfim brilhou em seus olhos: lembrou-se de tudo.
Fora levado pelo Irmão Gan à Santa Sé, estava sendo testado: deveria sobreviver dez minutos diante do Pesadelo.
Naquele momento, devia estar enfrentando-o, mas, por algum motivo, acabou vindo parar ali.
De repente, uma possibilidade assustadora saltou-lhe à mente: desde que chegou ali, tentava acreditar que tudo antes fora sonho. Mas e se tudo aquilo era real, e agora sim estava num sonho?
Os olhos arregalaram-se; o pensamento o apavorou. O Pesadelo era capaz de arrastar as pessoas para seu sonho, criando cenários tão verossímeis que quase o enganou.
Agora, com a verdade desvelada, Qimu só queria uma coisa: encontrar a chave para romper o sonho imposto pelo Pesadelo!
Não podia demorar, ou Yan Yan correria perigo.
Pensando nisso, Qimu saiu às pressas, parou diante da porta do pai e bateu suavemente.
Tum, tum, tum.
O som era longo e estridente. O pai levantou-se, abriu a porta, intrigado:
“Filho, o que faz acordado a esta hora?”
Com um sorriso frio e olhar gélido, Qimu respondeu:
“Pare de fingir. Eu sei que você não é real!”
“O que está dizendo? Filho, você não está bem?” — O pai estendeu a mão para tocar sua testa.
Pá!
Qimu afastou o braço do pai com um tapa, dizendo friamente:
“Pesadelo! Sei que é você!”
Olhou firme nos olhos do pai. Por um instante, as pupilas profundas se enfrentaram, e parecia haver faíscas no ar.
O silêncio tomou conta. Após um momento, o pai segurou o estômago e caiu na gargalhada:
“Ha ha ha ha!”
No instante seguinte, o corpo do pai se distorceu, transformando-se num redemoinho até desaparecer diante de Qimu.
Logo a casa também sumiu. Tudo ficou escuro. Qimu sentiu-se de novo afundar no oceano profundo, mas, dessa vez, lutou com todas as forças. Não importava o que tentasse arrastá-lo; Qimu não desistiu.
Finalmente, quando emergiu à superfície, sentiu o rosto tocar o ar e, nesse choque, acordou por completo.
Abriu os olhos, atordoado. Estava deitado no chão; Yan Yan balançava-o, aflita, o rosto marcado pela ansiedade e pelo medo.
A consciência de Qimu retornava. Recobrando-se, pousou a mão no ombro de Yan Yan:
“Mana, estou bem.”
Ela o abraçou forte, lágrimas escorrendo dos olhos, revelando seu estado de espírito:
“Xiao Mu, eu quase pensei, quase...”
“Mana, agora não é hora de chorar, ainda temos que passar pela prova.” Qimu afastou-a suavemente, limpando-lhe as lágrimas brilhantes.
Yan Yan, então, recobrou-se, ajudou Qimu a levantar-se e afirmou com determinação:
“Xiao Mu, desta vez eu vou com você. Não esqueça que sou sua irmã, devo te proteger!”
Qimu, vendo-a assim, sorriu e sacudiu a cabeça:
“Mana, você ainda não tomou o fortificante, não é páreo para eles. Deixe comigo desta vez!”
Sem dar-lhe tempo de responder, Qimu desmaiou Yan Yan, acomodando-a junto a uma pilastra, ajeitando-lhe suavemente os cabelos na testa.
Levantou-se, os olhos cheios de fúria, uma chama ardendo dentro deles, mirando diretamente o Pesadelo!
Agora, Qimu havia encontrado o ponto fraco do inimigo e não hesitaria em exterminar aquela criatura horrorosa!
Os Devoradores tinham força muito além da humana, como se tivessem sido aprimorados, e podiam ser destruídos por meios físicos — mas o Pesadelo era diferente.
Tinha apenas a metade superior do corpo, e sua força não era maior que a dos Devoradores; poderia até ser equivalente. Mas o que tornava o Pesadelo mais aterrador não era a força, e sim a capacidade de arrastar as pessoas para dentro do sonho que criava, onde elas se perdiam, incapazes de distinguir a realidade...