Capítulo Sessenta e Nove - Confronto Direto
Qi Mu chegou à entrada da igreja. O céu noturno, escuro como breu, fazia com que todo o templo parecesse grandioso e sagrado. Ele empurrou a porta lentamente; Yan Yan e os demais estavam no centro da nave, conversando sobre algo.
Qi Mu esboçou um leve sorriso e se preparava para se aproximar, quando notou a presença de alguém que não deveria estar ali. Seus olhos se arregalaram, fixos naquele homem, incrédulo diante do que via. Esfregou com força os olhos vermelhos, como se tentasse acordar de um pesadelo. Só ao ter certeza de que não estava enganado, conseguiu aceitar a realidade.
Um jovem, impecavelmente vestido, estava ao lado de Yan Yan. Seu maxilar era definido, o nariz afilado, os olhos brilhantes e penetrantes—e naquele momento, fitavam Qi Mu com igual intensidade.
Por um instante, eles se encararam. Era como se Qi Mu estivesse diante de um espelho—idênticos em cada detalhe!
— Quem é você? Por que tem o mesmo rosto que eu? — o outro Qi Mu foi o primeiro a romper o silêncio.
Foi então que Qi Mu compreendeu tudo. Entendeu o motivo de ter sido acusado de assassino, o porquê de o guarda da cela ter dito que fora ele quem ajudara Yan Yan e os outros a fugir. Até aquele momento, Qi Mu acreditava que tudo era obra de Mu Hongzhi, mas agora percebia que estava enganado.
Se não estivesse errado, esse Qi Mu à sua frente só podia ser o Pesadelo disfarçado.
Sim, quem melhor do que ele mesmo para conhecê-lo em todos os detalhes? O Pesadelo assumira sua aparência, tentando usar Yan Yan e os demais para destruí-lo e, assim, alcançar seus objetivos.
Uma súbita clareza se fez em sua mente. Um sorriso frio surgiu em seus lábios, e ele falou com um tom gélido:
— Pesadelo, há quanto tempo...
— O que está dizendo? Agora vai tentar me incriminar? — negou veementemente o Pesadelo, agarrando o braço de Yan Yan e apontando para Qi Mu.
— Irmã, este é o Pesadelo de quem lhes falei. Nunca imaginei que ele teria coragem de tomar minha forma. Que adversário difícil!
Os demais se entreolharam, incapazes de distinguir quem era o verdadeiro. Dois Qi Mu estavam diante deles: um que acabara de resgatá-los, outro que afirmava que o salvador era, na verdade, o Pesadelo disfarçado. O ambiente mergulhou numa confusão total.
— Pesadelo, de onde afinal você veio? Por que massacrar humanos? E por que ajudar essa tal Igreja Sagrada? Qual é o seu verdadeiro propósito? — Qi Mu gritava, avançando lentamente em direção ao grupo.
O Pesadelo lançou-lhe um olhar glacial.
— Irmã, cuidado! Acho que ele vai atacar! — alertou, antes de gritar para Qi Mu: — Pesadelo, essas perguntas quem devia responder é você!
Qi Mu sabia que palavras eram inúteis. Restava agir. Ainda que soubesse estar num sonho, ver seus antigos companheiros se voltando contra ele e ser substituído por aquela criatura era insuportável.
— Chega de conversa! Vamos resolver isso agora!
— Pois bem! Quero ver se você aguenta a surra! — respondeu o Pesadelo, rindo com escárnio.
Yan Yan e Jiang Tiancheng recuaram alguns passos, atentos aos dois.
— Afinal, qual de vocês é o verdadeiro Qi Mu? — indagou Yan Yan, sem esconder a tensão.
— Eu sou o verdadeiro, ele é o impostor! — disseram, em uníssono.
— Maldito, por que não se disfarçou de outro? Tinha que ser logo eu? Está desesperado para que eu note sua farsa, não é? — Qi Mu gritou, furioso.
— Que absurdo! Irmã, ajude-me a detê-lo! — o Pesadelo pediu, olhando para Yan Yan.
— Lutem vocês dois. Nós vamos assistir. Assim que soubermos quem é o verdadeiro Qi Mu, agimos — retrucou Yan Yan, mantendo a calma, embora sua expressão revelasse confusão.
Qi Mu mordeu o lábio e partiu com toda força contra o Pesadelo. Seu corpo foi envolto por chamas intensas, transformando-o em uma verdadeira tocha humana.
— Prepare-se para morrer! — bradou.
Para sua surpresa, o Pesadelo imitou-o perfeitamente, conjurando chamas de um púrpura demoníaco e intenso.
O impacto entre eles resultou numa onda de calor que se expandiu a partir do centro, lançando Yan Yan e os outros para o alto. Eles caíram sobre cadeiras, ossos estalando, como se tivessem se quebrado.
Xiao Jie, por azar, bateu violentamente numa quina da mesa, deslocando a coluna. Ele gritou de dor, o rosto coberto de suor frio.
Nada disso, porém, afetou os dois duelistas no centro. Olhavam-se com ódio, como se pudessem se matar apenas com o olhar. As chamas colidiam, formando um enorme vórtice de fogo sobre suas cabeças.
Sentindo-se pressionado, Qi Mu saltou para o topo de uma coluna, observando o Pesadelo, atento e pronto para atacar. A habilidade do inimigo o surpreendera, mas não interrompera seu ímpeto. No entanto, ao confrontar as duas labaredas, percebeu que a energia do Pesadelo era um pouco superior à sua.
Com o rosto fechado, Qi Mu lançou insultos:
— Maldito, tudo o que faço você copia! Sempre foi assim? Ou já nasceu para ser um canalha?
De repente, um sorriso irônico surgiu em seu rosto e, fingindo inocência, berrou:
— Ah, esqueci... Você nem nasceu, não é? Não tem mãe! Desculpe, foi mal...
Coçou a nuca, fingindo constrangimento, como se realmente lamentasse o comentário.
O Pesadelo, com expressão gélida, respondeu do alto da coluna:
— Pesadelo, quando vai me ensinar a ser tão afiado com as palavras? Mas isso não muda o fato de que você é o impostor!
No mesmo instante, conjurou uma bola de fogo na mão esquerda e a lançou contra Qi Mu. O projétil cortou o ar com um assobio ensurdecedor.
A explosão que se seguiu envolveu a coluna numa densa nuvem de fumaça. Quando o Pesadelo achou que tinha vencido e esboçava um sorriso de triunfo, Qi Mu surgiu de repente diante dele.
Seu punho, envolto em chamas ardentes, acertou em cheio o rosto do Pesadelo.
— Urgh... — o Pesadelo, pego de surpresa, foi lançado contra a parede. Um buraco enorme se abriu, chocando os presentes.
Caindo ao chão, apoiou-se numa das mãos e limpou o sangue dos lábios.
— Não imaginei que usaria o ângulo de visão para me enganar. Hahahaha! Desde quando os humanos ficaram tão espertos? — disse, revelando finalmente sua verdadeira face.
O Pesadelo rasgou a própria pele, expondo sua natureza monstruosa. Quatro olhos azul-escuros fixaram-se em Qi Mu.
— Minha intenção era usar essas pessoas para hipnotizá-lo aos poucos, até poder devorar sua alma. Mas, pelo que vejo, sua cidade acaba de ser atacada por meus companheiros. Que pena...
Diante das palavras do Pesadelo, Qi Mu sorriu com crueldade:
— Pare de se alegrar com o sofrimento alheio. Logo você vai se juntar a eles como mais um cadáver aos meus pés!
— Tem certeza disso?
Antes que pudesse reagir, Qi Mu ouviu o som cortante do ar vindo de trás. Antes que pudesse virar-se, uma lâmina atravessou-lhe o abdômen. Yan Yan, com olhar impassível, cravou-lhe a faca e, apoiando-se em seu ombro, puxou a arma para fora, pronta para atingí-lo novamente.
Com um golpe seco, Qi Mu a lançou vários metros para trás. O corpo de Yan Yan bateu violentamente contra a parede e se despedaçou, a cabeça separada do tronco, pedaços caindo ao chão, e o sangue escorrendo em poças rubras.
Mesmo para alguém tão endurecido quanto Qi Mu, era difícil assistir àquela cena. Matar com as próprias mãos sua irmã, mesmo numa ilusão criada pelo Pesadelo, era cruel demais.
Mas por que Yan Yan ajudaria o Pesadelo? Se ele tivesse poder para controlar as pessoas desse sonho, Qi Mu já teria morrido. Antes, tudo que Mu Hongzhi fizera fora apenas repetir o que acontecera no mundo real, o que intrigava ainda mais Qi Mu.
O Pesadelo percebeu a dúvida em seu olhar. Levantou-se devagar, fitando Qi Mu:
— Vocês, humanos, jamais compreenderiam nosso poder. Se eu já tivesse me recuperado totalmente, você estaria morto há muito tempo!
Era verdade, a energia do Pesadelo ainda não havia retornado por completo. Por isso, Qi Mu sentia que seu poder era apenas um pouco superior ao do Devorador.
Pesadelo e Devorador pertenciam a classes completamente diferentes. No auge de seus poderes, um Pesadelo poderia matar silenciosamente através de sonhos, sem precisar lutar como agora, limitado a papéis em suas próprias ilusões.
— O que foi, despreza os humanos? Então por que agem às escondidas, colaboram com a Igreja Sagrada ou obedecem suas ordens? Vocês são cães tão obedientes assim? — Qi Mu provocou, tentando arrancar informações sobre a relação entre aquelas criaturas e a Igreja.
O Palácio dos Deuses dominava toda a humanidade. Só o Pavilhão Exótico da Seita da Terra e o Túmulo do Retorno ousavam enfrentá-lo. Enquanto os dois primeiros atuavam abertamente, não se sabia se o Palácio tolerava sua existência para treinar soldados nas Vinte e Quatro Províncias ou por outro motivo qualquer.
Quanto ao Túmulo do Retorno, não se ouviu mais falar dele desde que agiu, vinte anos atrás.
De repente, surgia uma Igreja Sagrada, uma organização secreta e desconhecida. Qi Mu tinha certeza de que essa notícia chocaria o mundo. Então, ao pedir ao senhor do território que investigasse o caso do pai, acreditava que não seria recusado.
O que ele não sabia era que, por maiores que fossem seus méritos, Ouyang Kangsheng jamais moveria um dedo para encontrar quem roubara o corpo do pai de Qi Mu. Mexer nos assuntos do Palácio seria condenar toda a Grande Xia à destruição antes do tempo.
Ouvindo as palavras provocativas de Qi Mu, o Pesadelo apenas respondeu com frieza:
— Garoto, não somos tolos. Não nos compare à baixeza dos humanos!
— Já perdi tempo demais aqui. Chegou a hora de você partir!