Capítulo Trinta e Cinco: Sobrevivendo à Beira da Morte
A voz que veio do assento principal quase fez todos pensarem que tinham ouvido errado, mas eles sabiam que, além deles oito, apenas aquela existência divina estava presente ali.
O ancião de cabelos brancos foi o primeiro a levantar-se de seu lugar. Ele se curvou levemente e disse: “Se o Senhor Supremo decidiu convocar a Assembleia dos Deuses, precisamos informar os demais emissários e os três grandes subcomandantes.”
“Sim, faça isso. Quanto antes, melhor.” A resposta veio em tom indiferente.
“Sim, senhor!”
Após a decisão do Senhor Supremo, a Assembleia dos Deuses era inevitável. Não fazia muito tempo desde a última reunião, e já se anunciava outra. Isso só podia significar que tempos caóticos se aproximavam — era o que passava pela mente dos demais.
A Casa dos Deuses, por fora, parecia ser o comando máximo da humanidade, mas onde há pessoas, há interesses e barganhas. Essas coisas são inevitáveis. Os vinte e quatro emissários e os três subcomandantes não passavam de símbolos de poder e influência, reflexos das disputas entre diferentes regiões. Quem conseguisse maior influência ali teria um futuro mais promissor.
O sol, antes alto no céu, começava a se pôr, ocultando-se a oeste. Nuvens brancas cobriam sua presença, assim como o desaparecimento da Cidade do Mar do Norte, que nada mais era do que uma ilusão de ótica para os olhos humanos.
Naquele momento, os membros da Sagrada Ordem já se afastavam da Cidade do Mar do Norte. Com o plano concluído, era melhor partirem o quanto antes, para não serem descobertos.
O homem que segurava o disco que sugara a cidade caminhava com as mãos nas costas sobre um penhasco íngreme. Virando-se para uma pequena fenda na rocha, disse: “Saia, estou com pressa.”
“Comandante Sky, você realmente é impressionante. Mesmo tão bem escondido, fui descoberto por você.” De dentro do estreito buraco saiu um homem sujo de poeira. Ele sacudiu as roupas, tirou o chapéu da cabeça e revelou-se: era Han Mo, o jovem mestre da família Han, que escapara da Cidade do Mar do Norte.
Aproximou-se de Sky, sorrindo de forma submissa: “Comandante, como combinamos, nossa família Han colaborou com vocês. Depois de tomarmos a cidade, queremos nos unir integralmente à Sagrada Ordem.”
“Sim, estou aqui para buscar você e os seus. Caso contrário, não perderia tempo neste lugar.” Sky lançou-lhe um olhar de desdém.
Han Mo, ouvindo a resposta, assentiu sorridente. Desta vez, haviam colocado tudo o que tinham em jogo para se juntar à Sagrada Ordem. Sob a proteção deles, a Cidade do Mar do Norte ou mesmo a Casa dos Deuses não seriam obstáculos.
No início, quando Sky procurou a família Han em busca de parceria, Han Mo desconhecia a existência da Sagrada Ordem. Mas, após ver a demonstração de poder e ouvir sobre a energia da Ordem, decidiu unir-se a eles.
“E quanto à Cidade do Mar do Norte? Vai mesmo ser entregue à minha família, como prometido?” Han Mo perguntou, cauteloso, olhando para Sky com esperança. Seriam, finalmente, senhores de uma cidade.
O que Han Mo não sabia era que, tendo saído cedo da cidade, ela já havia desaparecido. Ainda assim, insistia em cobrar a promessa de Sky.
Sky respondeu apenas desviando o olhar para o abismo, onde as nuvens pairavam baixas. Com frieza, disse: “Han Mo, entrar para a Sagrada Ordem é o máximo que posso oferecer. Esqueça a Cidade do Mar do Norte, não terá parte nela.”
Han Mo não aceitou calado: “Comandante Sky, tínhamos um acordo! Depois de conquistarmos a cidade, seria governada pela minha família. Não pode voltar atrás agora!”
Sky virou-se, seu olhar gélido liberando uma pressão que pesou sobre Han Mo. “Não seja tolo, Han Mo. Não estou negociando, apenas informando. Entendeu?”
Dominado pela aura opressora, Han Mo sentiu as pernas fraquejarem, como se uma pedra o esmagasse. Quis protestar, mas o olhar de Sky o fez calar-se de imediato.
Sky assentiu satisfeito: “Assim está melhor. Han Mo, na Sagrada Ordem você terá de aprender a obedecer. Quem desafia os superiores lá tem destinos terríveis.”
As palavras foram carregadas de desprezo; Sky olhou para Han Mo como se ele fosse um inseto, pronto para ser esmagado ao menor gesto.
No topo do penhasco, Sky olhou para onde antes ficava a Cidade do Mar do Norte e sorriu satisfeito: “Essa cidade era mesmo um estorvo. Agora, está melhor assim.”
Depois, ergueu o braço e flutuou entre as nuvens, acenando levemente para Han Mo, que também foi erguido no ar, sem controle.
“Vamos, eu mesmo o levo.”
“Muito obrigado, comandante!” Han Mo agradeceu com reverência.
Num instante, ambos desapareceram dali, como se jamais tivessem estado naquele local.
Dentro das ruínas da cidade, Qi Mu arrastava Yan Yan em direção ao palácio do senhor da cidade. No caminho, viram de longe o palácio desmoronar completamente.
Qi Mu virou-se para Yan Yan e perguntou: “Mana, para onde vamos agora?”
Yan Yan levantou o olhar vazio, observando ao redor. Toda a Cidade do Mar do Norte era uma vasta devastação, com incontáveis destroços pelo chão, membros e vísceras humanas espalhadas. Tudo era desolação, silêncio absoluto, assustador.
Ela abriu a boca, rouca: “Xiao Mu, você acha que ainda vamos sair daqui com vida?”
Qi Mu olhou firme para ela: “Mana, acredite em mim. Nós vamos sair daqui, não importa o quanto seja difícil.”
Sem ter para onde ir, só restava lutar — eliminar todas as Criaturas Devoradoras e buscar uma chance de romper a barreira.
Naquele momento, a voz em sua mente voltou: “Rapaz, vocês já estão em outro espaço. Sair daqui, impossível!”
“O que quer dizer com isso, velho?” Qi Mu replicou mentalmente, sem entender o que era ‘outro espaço’.
“Em resumo, a Cidade do Mar do Norte foi sugada para outro mundo. Mesmo que saiam dela, não voltarão ao mundo original.” Respondeu a voz, com um suspiro.
“E você não tem nenhum modo de nos fazer voltar?” Qi Mu perguntou, ansioso.
Mas a voz sumiu, mergulhando em silêncio.
“Ei! Responda! Não fuja! Apareça!” Qi Mu gritou mentalmente, tentando em vão obter resposta.
Saindo de seus pensamentos, Qi Mu olhou para o céu. Desde que a barreira púrpura cobrira a visão exterior, ele perdera a noção do tempo — não sabia se era dia ou noite, se chegara socorro, ou que a cidade fora sugada pelo disco.
Ambos sentiam o corpo cada vez mais pesado, como se uma força invisível os esmagasse. Exaustos e sem energia, Qi Mu só se mantinha de pé graças ao reforço do estimulante.
Colocou Yan Yan no chão com cuidado e deitou-se ao lado para descansar. Não sabiam quanto tempo se passara, mas Qi Mu calculava que já havia um dia e uma noite de batalhas. O sangue já tingira seus olhos de vermelho.
O silêncio reinava naquele mundo destruído. Qi Mu e Yan Yan eram como um bote solitário no oceano, apoiando-se um no outro.
Ali, descansavam, aproveitando os últimos momentos juntos. Não faziam ideia para onde ir, então preferiram esperar que as Criaturas Devoradoras os encontrassem.
Quando viessem, matariam quantas pudessem, até eliminar todas. Talvez, assim, conseguissem sair dali.
O tempo escorria lentamente. Não se sabe quanto passou, mas, em meio ao torpor, Qi Mu viu as Criaturas Devoradoras se aproximarem em massa. Forçando-se a levantar, clareou a mente.
Sacou a adaga especial, pronto para enfrentar centenas, talvez milhares, de inimigos.
As criaturas avançaram como uma onda negra, engolindo Qi Mu. Ele lutava com todas as forças. Graças ao corpo reforçado, estava à altura delas, talvez até superior. Brandia a lâmina, cortando cabeças, garras, corpos.
O sangue negro espirrava em seu rosto, encharcando suas roupas. Agora, Qi Mu era uma sombra negra, apenas os olhos e a lâmina mostrando que ainda era humano.
Mas, por mais forte que fosse, Qi Mu tinha limites. Logo, esgotou-se. Entre investidas e dores, já deveria ter desmaiado, mas a pura força de vontade o mantinha de pé.
Quando foi finalmente subjugado, caiu pesadamente no chão, um sorriso no rosto, pronto para receber a morte.
Nesse momento, Yan Yan, antes desacordada, lançou-se sobre ele, puxando-o para fora da horda e protegendo-o. Ela sorriu e disse: “Xiao Mu, ainda tem sua irmã para te proteger!”
Qi Mu sabia que nada mais podiam fazer. Sorriu amargamente, uma lágrima rolando pelo rosto. Abraçou Yan Yan: “Mana, na próxima vida, seremos irmãos de novo, continuaremos juntos!”
Yan Yan, ouvindo-o, assentiu com ternura: “Sim, Xiao Mu, seremos sempre uma família!”
Quando pensaram que seriam devorados, nada aconteceu. Permaneceram abraçados, e as criaturas apenas os cercavam, imóveis.
Ao abrir os olhos, Qi Mu olhou ao redor, espantado. Apertou o próprio rosto, sentiu dor e percebeu: ainda estavam vivos...