Capítulo Oitenta e Um — O Velho Tião

Mantenha a calma, não se arrisque Dançar 6756 palavras 2026-01-30 14:21:04

【Este capítulo tem cinco mil e quinhentas palavras. Pensei se devia escrever mais quinhentas, arredondar para seis mil e dividir em dois capítulos... Mas, pensando bem, melhor deixar assim. Hoje à noite tem mais.】

Capítulo Oitenta e Um – O Velho Jiang

O Velho Jiang, afinal, era Flutuação da Vida...

Isso era algo que Chen Nuo jamais imaginaria.

Sentiu-se desconfortável com isso.

Afinal, já tinha passado a perna no Flutuação da Vida, e pronto. Primeiro, que tipo de gente boa poderia haver no site da Lula Gigante? Só um bando de gente do submundo, ganhando dinheiro fácil, criminosos, ladrões, corruptos...

Se todos fossem colocados numa fila e fuzilados, poucos seriam injustiçados.

Usuário de um site desses, se fosse enganado, não causava remorso algum.

Segundo... Aqueles quatro assassinos foram todos eliminados pelo próprio Chen Nuo. O velho Flutuação da Vida só serviu para despistar. Recebeu cinquenta mil e nem foi realmente passado para trás; já foi um favor de Yanluo, ainda mais que encerrou o “trabalho” antes da hora.

Só que agora...

Flutuação da Vida era o velho Jiang.

A coisa mudou de figura.

Chen Yanluo não era exatamente um homem bom, mas tinha um princípio: proteger os seus.

Com os de fora, podia ser como quisesse, mas com os seus, sempre era excelente.

Levando a irmã para casa, no caminho, Xiao Ye percebeu claramente que o irmão estava distraído, e não se conteve:

— Irmão, você está pensando em quê?

— Hm?

— Aquela tia de antes cantava muito bonito!

Chen Nuo parou, agachou-se e passou a mão nos cabelos da irmã:

— Aquilo não era canto, era ópera. Na verdade, era um tipo de canção tradicional chamada “Canção da Paz”. — Ele fez uma pausa. — Você gostou?

— ... Gostei!

— Então, depois levo você para visitá-la de novo, para ouvir ela cantar para você, que tal?

— Quero sim!

No fim das contas, criança gosta mesmo é de sair para passear com o irmão, isso sempre a deixa feliz.

Enquanto isso, o velho Jiang ficou ao lado de Song Qiaoyun até que ela se acalmasse. Quando o efeito do remédio começou a fazer efeito, o olhar fixo da mulher foi suavizando, recuperando aos poucos a lucidez.

O suor cobria sua testa; após respirar fundo algumas vezes, sentiu-se envergonhada:

— Jiang, passei vergonha na frente do seu aluno, não foi?

O velho Jiang sorriu e pegou uma toalha quente torcendo-a, limpou o rosto da esposa com delicadeza:

— Que nada! Chen Nuo ainda disse que você canta muito bem, que quer ouvir uma apresentação completa da próxima vez. Esse garoto é esperto, da próxima vez a gente devia cobrar ingresso.

Song Qiaoyun não conteve um sorriso forçado:

— Que criança de bom coração... Ah, o velho Sun tem sorte.

— Nem tanto, ouvi dizer que Yang Xiaoyi não gosta muito do Chen Nuo... Somos amigos de longa data, você sabe como ela é, altiva, exigente, talvez não ache o Chen Nuo bom o bastante.

Song Qiaoyun pensou um pouco:

— Eu acho o Chen Nuo um bom menino, hoje veio especialmente cumprimentar você, foi atencioso. No futuro... Digo, se por acaso der certo entre ele e a Ke Ke, se puder ajudar, ajude, são todos bons jovens.

O velho Jiang sorriu, não disse nada, mas levou a toalha ao banheiro, esquentou de novo e entregou à esposa:

— Limpe o rosto mais um pouco, uma compressa quente vai ajudar a despertar.

Song Qiaoyun olhou o marido; aquele rosto, na verdade, de aparência comum, mas onde transparecia doçura. Disse baixinho:

— Você também sofreu comigo. Tantos anos juntos, só te dei trabalho.

Ela suspirou:

— Gosto muito do Chen Nuo, e também da irmãzinha dele, uma garotinha adorável...

Enquanto falava, os olhos de Song Qiaoyun se encheram de lágrimas.

O velho Jiang suspirou:

— Não pense nisso, deixe de bobagem.

— Minha doença, todos esses anos, nunca consegui dar um filho ao seu clã... Quando vejo filhos dos outros, principalmente meninas tão doces, fico com inveja.

Os olhos do velho Jiang também ficaram vermelhos; apoiou uma mão no ombro da esposa, afagando seus cabelos amarelados:

— Não tem problema. Com o tempo, já não ligo mais para isso. Nós dois já estamos velhos, não pensamos mais nessas coisas. E, de certa forma, sem filhos, não temos que nos preocupar com dotes e casamentos...

Não precisamos criar uma bela filha para depois temer que algum sujeito venha levá-la embora.

Veja o velho Sun, nos últimos anos o cabelo embranqueceu, tudo preocupação com a Ke Ke.

Essas palavras, ditas de forma bem-humorada, arrancaram um sorriso de Song Qiaoyun.

Ela encostou a cabeça no braço do marido:

— Acho que o Chen Nuo lembra um pouco você quando era jovem.

— Lembra? Quando eu era jovem, seu pai não queria que você ficasse comigo...

O velho Jiang ergueu a sobrancelha:

— Ele podia comigo? Eu conquistei o sogro, no fim ele não só me deu a filha, como passou para mim o segredo da família. Ganhei esposa e herança!

Song Qiaoyun levantou a cabeça, olhando para o marido, e disse suavemente:

— Pois é, você, cheio de talento, mas ficou preso a mim, não pôde voar alto, teve de se contentar em dar aulas e cuidar dessa mulher doente.

— Que bobagem!

O velho Jiang deu um tapinha nela.

— Voar para onde? O mundo é perigoso, fácil perder tudo. Quando era jovem, tentei a sorte, mas todo ano levava umas boas surras. Meus talentos são grandes entre os comuns, mas no submundo, sou só mais um. Sempre tem alguém maior.

Agora, dando aulas, está ótimo. Não procuro confusão, vivo tranquilo. Se não fosse por dinheiro, nem teria aceitado esse trabalho. Ainda bem que foi aqui em Jinling, se fosse em outra cidade, não iria.

Ele afagou os cabelos da esposa:

— Depois desse serviço, posso descansar mais um ou dois anos. Esses cinquenta mil dólares vão garantir nossos remédios por dois ou três anos.

O problema é que algumas ervas são tão raras que mesmo com dinheiro não se acha. É isso que me preocupa.

— Não saia mais para essas coisas, quando você sai, fico apavorada, com medo de acontecer algo.

— Não vou mais, eu também tenho medo. Não tenho mais vontade de aventuras. Se algo me acontecer, morro, mas e você? Quem vai cuidar de você?

O velho Jiang suspirou, voz meio complexa:

— Nesta última missão, encontrei um oponente terrível! Eliminou os quatro do outro lado de uma vez! Fui eu que descartei os corpos.

Um deles até lutou comigo, tinha mão pesada. Minha lombar ficou lesionada naquela luta.

O contratante ainda me passou para trás, fiquei chateado. Mas, pensando nos corpos que descartei, um era o que lutou comigo, com o pescoço quebrado.

Com isso, engoli a raiva. Esse mundo é perigoso demais!

Song Qiaoyun, preocupada:

— Então não saia mais! Você dá suas aulas, eu fico em casa. Se não der para curar, mantenho como está. Se não acharmos as ervas, usamos as mais baratas. Vamos levando.

Os dois conversaram um pouco mais.

Para animá-la, o velho Jiang disse em tom de brincadeira:

— Hoje você cantou “A Lenda da Serpente Branca” para o Chen Nuo, cheguei tarde e perdi. Faz tempo que não canta, estava com saudade. Que tal cantar “Conselhos para as Pessoas” para mim?

Song Qiaoyun lhe lançou um olhar carinhoso, mas repreendeu:

— Cantar nada, teremos tempo para isso. Você não machucou as costas? Trouxe os emplastros? Me dá aqui, vou passar em você e massagear direito.

O carinho entre os dois ficou no ar.

Enquanto isso, Chen Nuo e Xiao Ye chegaram em casa. Ele deu água para a irmã, depois pegou o caderno de tarefas da pré-escola para ela desenhar.

Então, Chen Nuo foi ao quarto, pegou o notebook e entrou na conta “Incendiário de Corações”.

Procurou o usuário “Flutuação da Vida”...

Naquela noite, antes de dormir, o velho Jiang entrou no site. Assim que “Flutuação da Vida” ficou online, viu uma notificação de transferência.

[Sistema: Você recebeu uma transferência de 120.000 dólares. Transferência anônima...]

O velho Jiang ficou surpreso.

O que está acontecendo?

[Você tem uma mensagem anônima.]

Ao abrir, leu:

[Amigo, minha conta foi invadida antes. Devia-lhe 120 mil, já transferi, confira.]

O velho Jiang: ????

Conta invadida?

Acha que acredito nessa história?

Que tipo de brincadeira é essa? Está zombando de mim?

Apesar de tudo, ficou feliz.

Recuperar 120 mil dólares, quase um milhão em moeda chinesa.

O velho Jiang não tinha opção.

Os gastos em casa eram enormes.

A doença de Song Qiaoyun exigia receitas de mestres, e alguns ingredientes eram caríssimos.

Só com medicamentos, gastavam mais de um milhão por ano.

Além dos remédios para controlar o surto, Song Qiaoyun, por causa dos muitos anos doente, tinha mais problemas de saúde, precisava tomar tônicos caros para recuperar as energias.

Até o velho Jiang precisava tomar tônicos.

Por causa da doença da esposa, ele aplicava acupuntura nela, gastando muita energia interna. Mesmo sendo um mestre de artes marciais, sentia o desgaste.

Se não fosse por isso, já teria adoecido.

Treinar artes marciais consome muito; como dizem, “estudo é para quem tem pouco, arte marcial é para quem tem muito dinheiro”. Os gastos não são pequenos.

No fim, tudo somado, os gastos anuais eram enormes.

Por isso, mesmo aposentado do submundo, o velho Jiang de tempos em tempos aceitava um serviço para ganhar dinheiro.

De outra forma, não sustentaria o tratamento.

E assim, os dias passaram até meados de maio. Após o feriado, Chen Nuo retomou sua rotina.

Às vezes matava aula na escola, mas as aulas particulares na casa do velho Jiang nunca perdia.

Duas vezes, inclusive, em fins de semana, aproveitou que Song Qiaoyun estava bem e levou a irmã para almoçar lá.

Ainda pediu para ela cantar algumas canções completas para os dois ouvirem.

Song Qiaoyun não resistiu ao pedido insistente de Chen Nuo e cantou de bom grado; ele escutava encantado.

A tia Song tinha uma formação artística antiga, técnica sólida, estilo tradicional.

Não satisfeita, Song Qiaoyun gostava tanto de Xiao Ye que contou a ela algumas histórias, deixando a menina batendo palmas de alegria.

Quanto mais Chen Nuo convivia com a família Jiang, mais entendia sua situação – não era à toa que o velho Jiang e o velho Sun eram amigos, ambos de excelente caráter.

Realmente, quem tem bom caráter faz amizade com pessoas do mesmo tipo.

Não se pode negar: o velho Jiang ficou ao lado de uma esposa doente por tantos anos, cuidando dela com dedicação.

Isso é, como dizem, “companheirismo até o fim”.

Isso é caráter!

Certa manhã, antes do amanhecer, Chen Nuo acordou cedo, foi ao quarto vizinho ver se Xiao Ye ainda dormia.

Desceu, comprou uma sacola de frituras frescas no caminho e foi correndo até o trecho de muralha antiga, perto da escola.

Ali havia um bosque, um parque natural da cidade.

De manhã, muitos idosos faziam exercícios, caminhando ou praticando boxe.

Viu uma senhora se apoiando numa árvore, um idoso caminhando em volta com as mãos na cintura, gritando “hei-ya~ ha-ya~”.

Era gente praticando técnicas de respiração.

Ao longe, outros praticavam Tai Chi.

Logo achou o velho Jiang.

Ele estava debaixo de uma árvore, perto da muralha, numa clareira.

Vestia uma túnica chinesa comum, de algodão, com sapatos de pano.

O velho Jiang mantinha a postura, concentrado.

Chen Nuo não o incomodou, esperou segurando a sacola de frituras.

Pouco depois, o velho Jiang começou uma sequência de movimentos.

Parecia comum, mas Chen Nuo percebeu algo mais.

A cada passo, os movimentos flutuavam, a roupa balançava, e o Tai Chi, que todo idoso do parque praticava, nas mãos dele parecia outra coisa – quase levitava, etéreo.

No final da sequência, quando o velho Jiang terminou, Chen Nuo gritou:

— Muito bom!!

O velho Jiang se assustou, abriu os olhos e viu Chen Nuo sorrindo de longe.

O velho Jiang ficou desconfiado – ultimamente, convivendo mais com ele, sentia que aquele garoto era como um chiclete grudado, sempre se aproximando.

O velho Jiang, cheio de segredos, começava a temê-lo.

Como tinha aparecido ali?

Chen Nuo se aproximou sorrindo:

— Velho Jiang, você luta muito bem.

— O que faz aqui tão cedo?

Chen Nuo mostrou a sacola:

— Vim comprar o café, vi você treinando.

Aproximou-se ainda mais:

— Que tipo de boxe é esse?

— Tai Chi.

— Então você é mestre de artes marciais?

— Mestre coisa nenhuma! Um velho qualquer, praticando Tai Chi, acha que sou o grande mestre Zhang Sanfeng?

— Ah, mas vi no cinema, Jet Li não luta tão bonito quanto você.

— Que entende você de bonito?

Chen Nuo sorriu:

— Que tal me ensinar?

— ... Não ensino!

Naquela noite, Chen Nuo foi até a casa do velho Jiang.

Levou uma caixa de baijiu “Jian Zhuang” – dizem que esse licor já nem existe vinte anos depois.

Levou também uma peça de carne defumada, um maço de aipo, um pacote de sementes de lótus, feijão vermelho, tâmaras e longan.

O velho Jiang, apesar da cara fechada, sentiu calor no peito.

Ora, isso era o tradicional presente de discípulo! Um menino que conhece a etiqueta.

Aquilo coçou a vontade do velho Jiang.

Ele era um homem de muitas habilidades, estilo antigo, um pouco altivo.

Veja só o apelido de internet: Flutuação da Vida.

Sofisticado.

Professor de literatura, afinal.

Se ia aceitar ou não, tanto faz, mas o gesto e a sinceridade de Chen Nuo agradaram profundamente.

Além disso...

— Se não me aceitar, começo amanhã a vir aqui almoçar todo dia! E mesmo se não abrir a porta, a tia Song não vai me deixar passar fome.

Chen Nuo riu descaradamente.

O velho Jiang suspirou.

Já estavam próximos. Às vezes, quando o velho Jiang não podia sair da escola, era Chen Nuo quem cuidava de Song Qiaoyun nos momentos de crise.

Com toda essa convivência...

Ensinar boxe...

Chen Nuo, sorrindo, tirou um envelope, abriu a gaveta da mesa de centro e jogou lá dentro.

— Já paguei a mensalidade.

O velho Jiang piscou:

— Vai mesmo virar meu discípulo?

— Claro.

— Então tem que se ajoelhar e prestar reverência.

— O quê? E o dinheiro? Espera, vou pegar de volta...

— Ora, seu moleque! — O velho Jiang tentou impedir, todo mesquinho: — Mas reverência ao mestre ancestral, pode fazer, não é?

— ... Tá bom.

Chen Nuo não queria mesmo se ajoelhar para o velho Jiang.

Pelo que lembrava da vida anterior, o velho Jiang nem era tão mais velho assim.

Você já viu Yanluo Wang se ajoelhar para alguém?

Se acha o Imperador de Jade?

Melhor nem pensar – vai que a tia Song surta e resolve chamar o Buda Shakyamuni...

Song Qiaoyun, ao lado, ria, e interveio:

— Jiang, o menino quer aprender, ensine um pouco para ele.

Ela pegou o envelope, sentiu que estava grosso, franziu a testa e devolveu para Chen Nuo:

— Por minha conta, não precisa pagar. Se não pegar de volta, não traga mais sua irmã para ouvir ópera.

O velho Jiang olhou resignado para a esposa.

Depois que Chen Nuo saiu, Song Qiaoyun, sempre atenta, alertou o marido:

— O menino é curioso, talvez viu um filme e quer aprender. Ensine só o básico, não ensine técnicas de luta de verdade. Gosto muito dele, não quero que se meta em confusão.

O velho Jiang suspirou:

— Tá bem, ensino só as formas básicas e um método simples de respiração. Satisfeita?

Song Qiaoyun pensou e assentiu.

No dia seguinte, ao treino, Chen Nuo aprontou de novo:

— Velho Jiang, trouxe o Zhang Linsheng! Ontem falei do treino e ele ficou curioso, insistiu para aprender, então trouxe junto.

Ao lado, Zhang Linsheng estava ali, sem entender nada.

Como assim, insisti? Não foi você que me ligou à meia-noite obrigando a levantar cedo para vir ao parque?

O coitado do Hao Nan sentia-se injustiçado.

— Velho Jiang, já que vai ensinar, um ou dois não faz diferença. Vai que o Hao Nan é um gênio das artes marciais, aproveita e o aceita também.

Dizendo isso, Chen Yanluo empurrou o amigo, usando um truque para fazê-lo tropeçar.

Plof!

Hao Nan caiu de joelhos.

O velho Jiang não soube o que fazer.

No fim, Chen Nuo usou um argumento que ninguém na China ousa recusar: já que está aqui, aprende também.

Quanto ao papo de Hao Nan ser um gênio das artes marciais...

Depois de meia hora de treino, o professor Jiang olhou para ele, completamente perdido.

Que gênio o quê! Isso é um verdadeiro tolo!

Hao Nan, por dentro: quem sou eu, onde estou, o que estou fazendo?

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