Capítulo Vinte e Três – Perguntando Sobre Algo

Mantenha a calma, não se arrisque Dançar 3208 palavras 2026-01-30 14:12:09

Capítulo Vinte e Três – Perguntar uma Coisa

Chen Nuo logo percebeu que carregar o título de “herói que conquistou a filha do diretor” trazia consigo um efeito colateral: tornar-se quase impossível dormir durante as aulas.

No primeiro dia de aula, nas disciplinas de matemática, língua e história, foi chamado pelo professor em todas elas. Um alvo fácil, de fato.

No intervalo, um rapaz da fileira da frente não resistiu e se virou para reclamar: “Amigo, tudo bem você conquistar a musa da escola, mas acabou me prejudicando também.”

Chen Nuo olhou para ele e reconheceu: ah, era o camarada que lia “As Duas Espadas da Grande Dinastia Tang” durante as aulas – também era um sujeito de coragem. Seu nome era… isso, Luo Qing.

Acabou sendo como dizem: quando a cidade pega fogo, o lago ao lado sofre junto. Chen Nuo vira o centro das atenções de todos os professores, e até Luo Qing, sentado à sua frente, foi incluído no raio de vigilância.

Luo Qing não podia fazer nada. Em toda a manhã, conseguiu folhear apenas sete ou oito páginas do segundo volume de “Em Busca de Qin” que pegara emprestado.

Na virada do ano 2000, alunos como Luo Qing estavam numa fase bem estranha nas escolas. Os grandes mestres da literatura de artes marciais ou haviam morrido ou pararam de escrever. Os romances de Huang Yi já tinham sido lidos e relidos. Após devorar os clássicos, as aulas tornaram-se insuportáveis de tão entediantes.

Falta de livros! E quando não havia mais o que ler… aquelas obras de “Grandioso Gu Long” ou “Famoso Jin Yong” eram intragáveis, nem tapando o nariz dava pra aguentar.

Chen Nuo sentia certa empatia por tipos como Luo Qing.

“Espere só mais alguns anos, garoto”, pensava. “Logo chega a saga de Rosen, e depois vem a turma de Xuehong e Tiaowu.” Com isso, bateu um papo breve com Luo Qing e viu que o rapaz não era nada superficial. Ambos conheciam a fundo as obras de Jin Yong, Gu Long, Liang Yusheng e Huang Yi; afinal, Chen Nuo, recluso por oito anos numa vida anterior, já tinha feito de tudo para espantar o tédio.

“Na minha opinião, a melhor obra de Jin Yong é mesmo ‘O Galope do Cavalo Branco ao Oeste’. Aquela frase ‘tudo isso é ótimo, mas justamente não gosto’ mexe com a gente…”

Os olhos de Luo Qing brilharam, batendo a coxa: “Isso mesmo! Chen Nuo, não imaginei que você também fosse entendido!”

Os dois passaram um tempo xingando Chen Jialuo e Hu Fei por serem homens sem coração e depois relembraram o quão marcante foi Xiao Feng, o quitanês. Luo Qing quase considerou Chen Nuo seu único confidente.

Logo combinaram de, após a aula, irem juntos à lan house jogar Starcraft.

Só que, na hora da saída, Chen Nuo deu uma volta pela rua e não pôde evitar xingar:

“Droga, cadê minha bicicleta?!”

A bicicleta sumira, restando apenas a corrente do cadeado largada no chão.

Luo Qing, ao lado, ficou um pouco penalizado, mas também não escondeu um certo divertimento. Aliás, nada de lan house; Chen Nuo precisava comprar uma nova bicicleta, ou teria que ir a pé para a escola no dia seguinte.

Despediu-se de Luo Qing e seguiu para o leste, caminhando por duas ruas até encontrar uma loja da Giant, onde comprou uma mountain bike novinha.

Pedalou de volta até o portão da escola, parou a bicicleta num canto, trancou-a e foi ao mercadinho ao lado, comprando um refrigerante que sorveu devagar pelo canudo.

Ficou ali, parado, bebendo por quase vinte minutos, sem pressa de ir embora.

“Ei! O que está fazendo aí?”

Uma voz áspera soou atrás dele.

Virando-se, Chen Nuo viu o porteiro da escola, braços cruzados, olhando-o desconfiado.

“Já acabou a aula, por que não vai pra casa? Fica aí perambulando por quê?”

O velho porteiro já estava de olho nele fazia tempo.

“Estou esperando alguém, senhor”, disse Chen Nuo, aproximando-se com um sorriso. “Como o senhor se chama?”

“Qin”, respondeu o senhor, desconfiado.

Ora, vejam só.

Chen Nuo se endireitou respeitosamente, tirou um cigarro do maço e ofereceu.

“Garoto, não fica aí de bobeira, não está pensando em roubar nada, né?” O velho Qin cheirou o cigarro. “Não vai aprontar, hein!”

“Que nada, olha a farda. Sou aluno aqui também.”

“Não dá pra confiar”, o velho balançou a cabeça. “Ano passado, dois garotos de uniforme entraram na escola e roubaram dinheiro no refeitório.”

Chen Nuo não sabia se ria ou chorava. Mostrou a carteira de estudante, e o velho, enfim, acenou dispensando-o e voltou para a portaria. Não demorou e, vendo Chen Nuo ainda ali esperando, trouxe um banquinho.

“Vai ficar esperando o quê? Esperando garota? Menino sem vergonha!” resmungou, largando o banco. “Senta aí, aqui não venta.”

Chen Nuo riu: “Por que acha que estou esperando uma garota?”

“Jovem como você, vai esperar o quê mais?”

Pois é, realmente, o senhor Qin faz jus ao seu nome.

Já estava escurecendo quando um adolescente magro, quase pele e osso, com uma mochila surrada nas costas, apareceu andando rente ao muro, os olhos atentos para todos os lados.

De repente, parou, os olhos brilharam ao ver uma mountain bike Giant novinha presa ao poste.

Chegou perto, deu a volta observando, e seguiu adiante. Minutos depois, voltou vindo de outra direção, agora acompanhado de um rapaz mais velho e alto. Caminhavam separados por uns cinco metros, um à frente, outro atrás.

O alto parou na beirada da rua, próximo ao portão da escola, e acendeu um cigarro, olhando em volta com ar de desinteresse. Com a mão ao lado da calça, fez um gesto discreto.

O magro se aproximou da bicicleta, tirou uma vareta de ferro fina da mochila surrada e começou a mexer no cadeado…

Logo o cadeado abriu, o magro empurrou a bicicleta para a rua, montou nela e o alto, jogando o cigarro fora, subiu no bagageiro. Os dois desapareceram em poucos segundos.

Chen Nuo, sorrindo, levantou-se do banquinho e avisou ao porteiro: “Seu Qin, estou indo.”

Rua Tangzi, em Nanjing, fora famosa por seu mercado de produtos usados.

A rua, não muito larga, tinha de ambos os lados antigos conjuntos residenciais, e nas fachadas, dezenas de lojistas vendiam todo tipo de mercadoria de segunda mão.

Algumas lojas vendiam eletrodomésticos velhos, mas a maioria negociava bicicletas, motos e scooters usadas.

Na verdade, todo morador antigo de Nanjing sabia: era o ponto de comércio de bicicletas roubadas.

No início dos anos 2000, a economia ainda não era tão desenvolvida; de onde viriam tantas bicicletas usadas? Muitas eram frutos de roubo, vendidas ali.

Dizia-se: “Se perder a bicicleta, dê umas voltas na rua Tangzi; talvez encontre numa loja de usados.”

Mas, e se achasse? Quem negociava ali não era flor que se cheirasse; ninguém queria confusão por causa de trezentos ou quinhentos yuans – o melhor era aceitar o prejuízo.

Os dois ladrões chegaram na rua Tangzi, entraram em um condomínio antigo e pararam diante de uma casa térrea, empurrando a bicicleta para dentro.

De dentro, um homem careca, de rosto rude, apareceu e lançou um olhar: “Mercadoria nova?”

O alto sorriu: “Novinha em folha, cheira a óleo ainda.”

“De onde veio?”, indagou o careca, desconfiado.

“Fica tranquilo, veio de longe, de Jiangning”, disse o magro, estacionando a bicicleta.

Ambos se aproximaram do careca, que se abaixou para examinar a bike, testou os freios e assentiu satisfeito.

O homem abriu a pochete, tirou algumas notas, e ao tentarem negociar preço, os dois foram calados por um olhar ameaçador.

Nesse instante, ouviram três batidas secas do lado de fora.

Os três olharam: do lado de fora do portão de ferro estava um jovem, de uniforme escolar azul e branco, mochila pendurada num ombro, com o sorriso tímido típico da idade.

Uma mão apoiada no portão, olhando para os três lá dentro.

O careca franziu o cenho: “Bate pra quê? Quer o quê?”

Chen Nuo sorriu, com ar inocente: “Patrão, quero perguntar uma coisa.”

“Perguntar o quê? Pergunte em outro lugar!”, rosnou o careca, sentindo algo estranho, mas vendo o rapaz tão inofensivo, só aumentou o tom de ameaça.

Chen Nuo olhou ao redor. O pátio estava cheio de bicicletas, duas motos no canto.

Logo avistou sua velha bicicleta jogada num canto, já sem a roda traseira.

Suspirou suavemente.

Com um movimento, tirou de dentro da manga uma corrente de cadeado, segurando firme, até quase a altura dos joelhos.

Entrou devagar pelo portão, fechando-o com o calcanhar.

O careca, irritado, gritou: “Moleque, quer confusão, é?”

Chen Nuo semicerrando os olhos: “Só quero saber… onde fica o cofre da casa?”

Ploc! O portão se fechou atrás dele.

Vamos, tragam mais votos de recomendação!